{"id":769,"date":"2025-10-07T03:01:48","date_gmt":"2025-10-06T19:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=769"},"modified":"2025-10-07T03:01:48","modified_gmt":"2025-10-06T19:01:48","slug":"o-paraiso-como-fuga-utopica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/o-paraiso-como-fuga-utopica\/","title":{"rendered":"O para\u00edso como fuga ut\u00f3pica"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>Resson\u00e2ncias entre Tao Yuanming <\/b><span class=\"s1\">\u9676\u6e0a\u660e<\/span><b> (365-427) <\/b><b>e Camilo Pessanha (1867-1926)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">C<\/span><span class=\"s2\">amilo Pessanha<\/span><span class=\"s1\"> nasceu em Coimbra em 1867, no mesmo ano em que Baudelaire morreu. Desde jovem, visitou v\u00e1rias regi\u00f5es com o seu pai que, devido \u00e0 sua carreira de magistrado, levava o seu filho a diferentes territ\u00f3rios, despertando a curiosidade de Camilo por outras na\u00e7\u00f5es. De volta a Coimbra em 1884, aos 16 anos de idade, Camilo frequentou a faculdade de Direito, seguindo os passos de seu pai, graduando-se em 1891. Aos 18 anos de idade, publicou o poema \u201cL\u00fabrica\u201d, com refer\u00eancias ao seu pensamento sobre o povo chin\u00eas: <\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p4\"><i>Como os \u00e9brios chineses delirantes<br \/>\n<\/i><i>Aspiram, j\u00e1 dormindo, o fumo quieto<br \/>\n<\/i><i>Que o seu longo cachimbo predilecto<br \/>\n<\/i><i>No ambiente espalhava pouco antes&#8230;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">De facto, a sua cidade natal tamb\u00e9m lhe proporcionou a oportunidade de conhecer colec\u00e7\u00f5es de arte asi\u00e1ticas atrav\u00e9s das decorativas porcelanas chinesas existentes na Biblioteca Joanina da Universidade e no Museu de Hist\u00f3ria Natural. Compreender os princ\u00edpios das civiliza\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas era, ent\u00e3o, na cidade da mais antiga e prestigiada Universidade lusitana, um sinal de distintiva eleg\u00e2ncia. Os Vedas, o Mahabarata, o Zend-Avesta, os Eddas e os Nibelungos s\u00e3o exemplos de livros lidos pelo meio liter\u00e1rio, numa tend\u00eancia chamada \u201cRenascen\u00e7a Oriental\u201d. Seguindo essa tend\u00eancia intelectual, manuscritos de Pessanha como \u201cLegenda Budista\u201d e \u201cVozes do Outono &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o do chin\u00eas, reflex\u00f5es filos\u00f3ficas de um autor desconhecido da dinastia Tang\u201d, actualmente na Biblioteca Nacional, referem o povo e a cultura S\u00ednica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Em 1894, Pessanha foi nomeado professor no Liceu de Macau, o mesmo ano em que este estabelecimento fora inaugurado. Recentemente chegado \u00e0 col\u00f3nia portuguesa na China, come\u00e7a a escrever sobre a cultura chinesa de um ponto de vista intuitivo. \u00c0 medida que os seus conhecimentos da l\u00edngua chinesa aumentavam, mergulha no estudo da civiliza\u00e7\u00e3o s\u00ednica. D\u00e1 palestras e escreve ensaios sobre literatura e est\u00e9tica chinesa. Durante esses anos, a China sofria convuls\u00f5es pol\u00edticas e sociais. O colapso da dinastia Qing criara as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o de 1911, que gerou um \u00eaxodo de refugiados para Macau e para Hong Kong, incluindo importantes dignit\u00e1rios do antigo regime imperial que tentaram encontrar ref\u00fagio da rebeli\u00e3o nestas cidades portu\u00e1rias. Consequentemente, Macau e Hong Kong eram portas de entrada para aqueles que procuravam ganhar dinheiro com os seus artefactos mais valiosos. Como resultado, nos anos que se seguiram \u00e0s revoltas, um pr\u00f3spero com\u00e9rcio de arte e mesmo uma loucura por colec\u00e7\u00f5es de arte chinesa floresceram nas referidas cidades. Pessanha, que poderia lucrar com este pr\u00f3spero mercado de arte, come\u00e7ou a coleccionar antiguidades e extravagantes artefactos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Camilo Pessanha \u00e9 um dos mais importantes poetas portugueses modernos, uma refer\u00eancia na poesia simbolista contempor\u00e2nea. Ao longo da sua vida, interessou-se progressivamente pela cultura chinesa. Foi chamado por Lu\u00eds S\u00e1 Cunha \u201co mais chin\u00eas dos poetas ocidentais, antes de Ezra Pound\u201d<sup>1<\/sup>. O seu livro de poemas, \u201cClepsydra\u201d, ressoa a poesia cl\u00e1ssica chinesa que descobriu na altura &#8211; como outros poetas ocidentais tamb\u00e9m o fizeram -, contribuindo para a cria\u00e7\u00e3o de um novo tipo de rima. \u00c9 importante mencionar ainda um aspecto do Confucionismo que fascina os intelectuais portugueses em Macau: o entendimento de que esta \u201creligi\u00e3o\u201d existia como uma \u201cescola de intelectuais\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u5112\u5bb6<\/span><span class=\"s3\">) (<i>rujia<\/i>). De facto, os textos atribu\u00eddos a Conf\u00facio reflectem sobre justi\u00e7a, valores humanos, \u00e9tica, e a import\u00e2ncia dos rituais para uma sociedade harmoniosa. N\u00e3o \u00e9 surpresa que o admirador destas obras &#8211; sendo poeta, advogado e fil\u00f3sofo, e vivendo numa \u00e9poca de caos pol\u00edtico (o derrube da dinastia Manchu e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em 1912) &#8211; tenha tido em alta estima os valores confucionistas e tao\u00edstas de paz e harmonia. Os textos de Conf\u00facio tamb\u00e9m atribu\u00edam um significado imenso \u00e0 poesia e \u00e0 m\u00fasica. Os m\u00fasicos, tocando em grupo, constituiriam uma das v\u00e1rias met\u00e1foras utilizadas para uma sociedade harmoniosa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Seguindo esta mesma linha de racioc\u00ednio, a poesia e a arte assumiram import\u00e2ncia filos\u00f3fica para os coleccionadores portugueses que tentavam compreender e absorver os valores chineses. A poesia teve uma rela\u00e7\u00e3o particularmente duradoura com a m\u00fasica na China, j\u00e1 que as duas primeiras antologias de poesia na literatura chinesa, o \u201cLivro das Odes\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u8a69\u7d93<\/span><span class=\"s3\"> <i>Shijing<\/i>) e as \u201cCan\u00e7\u00f5es de Chu\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u695a\u8fad <\/span><span class=\"s3\"><i>Chu Ci<\/i>), eram ambas colec\u00e7\u00f5es de can\u00e7\u00f5es, a primeira de origem secular e a segunda lit\u00fargica (derivando o seu imagin\u00e1rio do ritual xam\u00e2nico). Mesmo depois da dinastia Han (202 a.C.-220 d.C.), quando a poesia adquiriu uma certa autonomia, a tradi\u00e7\u00e3o dos c\u00e2nticos populares (<\/span><span class=\"s4\">\u6a02\u5e9c<\/span><span class=\"s3\"> <i>yue-fu<\/i>) nunca foi interrompida. Todas as formas de poesia compostas por escritores, independentemente do estilo, eram entoadas. Quando pelos finais da dinastia Tang, por volta do s\u00e9culo IX, o florescimento da poesia rimada (<\/span><span class=\"s4\">\u8fad<\/span><span class=\"s3\"> ci) trouxe de novo a simbiose entre a poesia e a m\u00fasica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\">Contudo, se por um lado, Pessanha \u00e9 famoso pela sua escrita po\u00e9tica e criativa, a sua contribui\u00e7\u00e3o como coleccionador de arte e sin\u00f3logo tem sido frequentemente ignorada. Um estudo de alguns dos objectos da sua colec\u00e7\u00e3o de arte privada visa esclarecer a hist\u00f3ria dos artefactos que integram o patrim\u00f3nio cultural da \u00c1sia Oriental, alojado pelo Museu Nacional de Machado de Castro em Coimbra e pelo Museu do Oriente em Lisboa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">A carreira de Pessanha como advogado e professor de filosofia em Macau colidiu com a sua propens\u00e3o para a solid\u00e3o e a auto-absor\u00e7\u00e3o, tornando-se um recluso exc\u00eantrico \u00e0 maneira chinesa e um alvo de cr\u00edtica para muitos dos seus pares na administra\u00e7\u00e3o portuguesa de Macau. Como poeta portugu\u00eas, nota-se a sua voz \u00fanica, compar\u00e1vel \u00e0 dos literatos chineses, pela sua projec\u00e7\u00e3o de tristeza, nostalgia, humanidade e vulnerabilidade pessoal nos seus textos, de forma semelhante \u00e0s quadras chinesas \u201c<i>Jueju<\/i>\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u7d55\u53e5<\/span><span class=\"s3\">). Como \u00e9 que o seu interesse po\u00e9tico se relaciona com as obras de arte que reuniu em Macau? Neste artigo, analisaremos a forma como Pessanha, em acto de identifica\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica, selecciona o seguinte quadro intitulado \u201c Flores de P\u00eassego na Primavera\u201d, que exibe um poema de uma das personalidades mais proeminentes da literatura chinesa, Tao Yuanming (<\/span><span class=\"s4\">\u9676\u6e0a\u660e<\/span><span class=\"s3\">) (365- 427), tamb\u00e9m conhecido por Tao Qian). <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Esta obra de arte retrata a aventura de um simples pescador que acidentalmente entra num vale de pessegueiros separado do mundo terreno. Os seus habitantes vivem numa esp\u00e9cie de para\u00edso. De acordo com a narrativa, os alde\u00f5es explicam que os seus ascendentes se refugiaram neste lugar id\u00edlico durante as convuls\u00f5es civis da dinastia Qin (221-206 a.C.)<sup>2<\/sup> e, desde ent\u00e3o, n\u00e3o haviam tido qualquer contacto com ningu\u00e9m de fora do seu ref\u00fagio ou tomado conhecimento dos governos posteriores<sup>3<\/sup>. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">O autor \u00e9 o famoso poeta chin\u00eas Tao Yuanming, que permaneceu para sempre como arqu\u00e9tipo do estudioso cujos talentos nunca foram bem empregues na administra\u00e7\u00e3o governamental. Os seus versos reflectem o mal-estar e a ansiedade que assolava a sociedade chinesa na altura, j\u00e1 que viveu durante as Seis Dinastias (304-439), quando o norte da China estava ocupado por l\u00edderes estrangeiros e o sul da China, onde Tao viveu, assistia a uma sucess\u00e3o de dinastias, fracas e breves, com a sua capital em Jiankang (hoje Nanjing); e ilustra o lamento pela r\u00e1pida extin\u00e7\u00e3o de restos materiais da hist\u00f3ria e da cultura. A vida de Tao inspirou muitas obras liter\u00e1rias e ilustra\u00e7\u00f5es, e o per\u00edodo das Seis Dinastias foi um per\u00edodo vital na hist\u00f3ria da poesia chinesa, pois o poema original \u00e9 sobre o ideal de encontrar um mundo perfeito onde as pessoas vivam em harmonia com a natureza.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\">Segundo Jacques Pimpaneau (2004, 274-297)<sup>4<\/sup>, Tao vem de uma fam\u00edlia de literatos, tendo prosseguido uma carreira como funcion\u00e1rio p\u00fablico. O seu bisav\u00f4, Tao Kan, ocupou o cargo de ministro. O av\u00f4 materno, o av\u00f4 paterno, e o seu pai foram todos governadores locais. A sua fam\u00edlia, por\u00e9m, n\u00e3o era uma das mais influentes na aristocracia da \u00e9poca, o que talvez explique porque n\u00e3o teve uma carreira realmente pr\u00f3spera. Tao Yuanming era apenas um empregado subalterno, e a sua ocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou tarde, em 393, com um cargo menor na prefeitura de Jiangzhou (agora Jiujiang). <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\">Em 400, ocupou um cargo auxiliar com Huan Xuan (<\/span><span class=\"s5\">\u6853\u7384<\/span><span class=\"s1\">) (369 -404), um general que derrubou o Imperador Jin And\u00ec (<\/span><span class=\"s5\">\u6649\u5b89\u5e1d<\/span><span class=\"s1\">) (382-419) em 403. Tao regressou \u00e0 sua carreira ap\u00f3s o luto pela morte da sua m\u00e3e em 404-405, servindo de elogio a Liu Yu (<\/span><span class=\"s5\">\u5289\u88d5<\/span><span class=\"s1\">) (363-422). O seu \u00faltimo cargo foi o de respons\u00e1vel pela cidade de Pengze, por um per\u00edodo de oitenta dias, em 406. Depois retirou-se definitivamente. A sua resid\u00eancia foi queimada, o que o obrigou a regressar \u00e0 sua aldeia natal. A sua vida no pa\u00eds n\u00e3o foi a de um asc\u00e9tico; manteve v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es amistosas com indiv\u00edduos com quem costumava beber vinho, tornando-se assim famoso pela sua s\u00e9rie de vinte poemas que celebravam os prazeres da bebida alco\u00f3lica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Tao simpatizou com a pobreza e a fome dos camponeses e era bem formado nos cl\u00e1ssicos do confucionismo e do tao\u00edsmo. Mais tarde na vida, poder\u00e1 ter feito amizade com uma figura budista local, muito antes do budismo ser significativo na China. H\u00e1 uma lenda sobre um encontro entre o monge Huiyuan (<\/span><span class=\"s4\">\u6167\u9060<\/span><span class=\"s3\">) (334 &#8211; 416,), Tao Yuanming, e Lu Xiujing (<\/span><span class=\"s4\">\u9678\u4fee\u975c<\/span><span class=\"s3\">; 406-477), que se tornou um conto popular. Talvez esta lenda tenha sido criada porque o sacerdote Huiyuan \u00e9 considerado como o primeiro patriarca do \u201cBudismo da Terra Pura\u201d chin\u00eas, segundo o qual ao esp\u00edrito de cada um poderia ser oferecida uma morada feliz no Para\u00edso Ocidental ap\u00f3s a morte. Do mesmo modo, o c\u00e9u ocupa uma ideia central na obra liter\u00e1ria de Tao, mesmo que a inten\u00e7\u00e3o velada seja dar voz a um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o e de reclus\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Estes poemas id\u00edlicos falam metaforicamente da retirada das fun\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas. C\u00e9dric Laurent explica que o tema criado por Tao interessa uma grande parte dos <i>literati<\/i> de Jiangnan (regi\u00e3o sul em torno de tr\u00eas centros Suzhou, Nanjing e Hangzhou), incluindo comerciantes e empregados instru\u00eddos. Tao tornou-se num exemplo de quem que resiste em vez de cumprir as exig\u00eancias de uma administra\u00e7\u00e3o corrupta ou de quem arriscava envolver-se em disputas entre eunucos e <i>literati<\/i> na corte. Portanto, o renascimento das pinturas que ilustram a hist\u00f3ria de Tao est\u00e1 relacionado com os movimentos de protesto entre as classes de elite, expressos tanto a n\u00edvel liter\u00e1rio como filos\u00f3fico.<sup>5<\/sup> <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Escrevendo no s\u00e9culo V, o gosto de Tao pela natureza aumentou, ap\u00f3s a sua desilus\u00e3o com a vida p\u00fablica, durante o per\u00edodo de invas\u00e3o da China por cl\u00e3s alien\u00edgenas do norte e a divis\u00e3o, pela dissens\u00e3o civil e corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, do governo do sul. Coincidentemente, na viragem do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, Pessanha utilizou a filosofia chinesa e refugiou-se na solid\u00e3o, transcrevendo nos seus poemas a sua euforia pela natureza durante os anos de turbul\u00eancia pol\u00edtica que precederam a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica na China. O ideal de um homem transportado de um mundo mundano para um reino raro de beleza e tranquilidade reflecte uma utopia comum na mente de ambos os poetas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\">Tal como no poema de Tao, a presen\u00e7a do motivo \u201cPara\u00edsos Artificiais\u201d \u00e9 evidente na poesia de Camilo Pessanha. Em vez de um lugar, este \u201cpara\u00edso\u201d est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um estado de esp\u00edrito, compar\u00e1vel \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es budista e hindu\u00edsta. O tema do para\u00edso na sua voz po\u00e9tica liga-se aos temas da retirada e do nirvana, ligando o seu sentimento individual de insatisfa\u00e7\u00e3o com o mundo existente, considerado uma causa de sofrimento. Por exemplo, a melancolia contida nos versos de \u201cClepsydra\u201d &#8211; aparentemente reminiscente do pessimismo de Arthur Schopenhauer<sup>6<\/sup> &#8211; parece reflectir uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica que permite ao leitor aceder a imagens internas vistas por algu\u00e9m durante uma profunda auto-reflex\u00e3o. Aqui est\u00e1 um poema que sugere saudades de casa, um tema constante na tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica chinesa. Nos versos transcritos, Pessanha concentra-se na descri\u00e7\u00e3o de uma paisagem da Primavera, transmitindo assim os seus sentimentos de saudade da esta\u00e7\u00e3o que infelizmente se foi. Trata-se de uma t\u00e9cnica frequentemente utilizada pelos poetas chineses. Em vez de falar directamente sobre sentimentos pessoais, o poeta chin\u00eas prefere personificar a natureza, ou, alternativamente, interiorizar o cosmos natural, transformando cada palavra num c\u00f3digo carregado de significado metaf\u00f3rico ou simb\u00f3lico. Devido \u00e0 influ\u00eancia dos poemas chineses que Pessanha lia enquanto habitava em Macau, tinha uma vis\u00e3o intelectual pouco ortodoxa da m\u00e9trica e da composi\u00e7\u00e3o, se comparada com outros poetas portugueses, quando escrevia sobre o sofrimento e a ilus\u00e3o inerentes ao processo de vida:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\"><i>Imagens que passais pela retina<br \/>\n<\/i><i>Dos meus olhos, porque n\u00e3o vos fixais?<br \/>\n<\/i><i>Que passais como a \u00e1gua cristalina<br \/>\n<\/i><i>Por uma fonte para nunca mais!&#8230; <\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p5\">ou<\/p>\n<p class=\"p5\"><i>Quando voltei encontrei os meus passos<br \/>\n<\/i><i>Ainda frescos sobre a h\u00famida areia,<br \/>\n<\/i><i>A fugitiva hora reevoquei-a,<br \/>\n<\/i><i>T\u00e3o rediviva!, nos meus olhos ba\u00e7os&#8230;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">De facto, os olhos s\u00e3o uma imagem recorrente em \u201cClepsydra\u201d. Em vez de contemplarem qualquer imagem fixa, est\u00e3o centrados na ideia budista de imperman\u00eancia (\u201cAnitya\u201d) (\u201cA hora fugaz\u201d, escreve Pessanha). De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o Mahayana, a f\u00e9 budista seria adaptada na China da forma mais apropriada para expandir a religi\u00e3o. Por exemplo, o monge Hui Yuan usa a filosofia taoista para explicar as concep\u00e7\u00f5es budistas esot\u00e9ricas. Digno de nota que um dos termos chineses para \u201cbudismo\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u50cf \u6559<\/span><span class=\"s3\"> <i>xiang jiao<\/i>) traduz-se literalmente como \u201cDoutrina das Imagens\u201d. Como sin\u00f3logo e escritor de est\u00e9tica e literatura, Pessanha estava ciente de que o caracter para \u201cimagem\u201d em Chin\u00eas<\/span><span class=\"s4\">\u50cf<\/span><span class=\"s3\"> (<i>xiang<\/i>) \u00e9 composto pelo radical \u2018<\/span><span class=\"s4\">\u4eba<\/span><span class=\"s3\">\u2019 para \u201cpessoa\u201d e o composto fon\u00e9tico \u2018<\/span><span class=\"s4\">\u8c61<\/span><span class=\"s3\">\u2019 para \u201celefante\u201d ou \u201capar\u00eancia\u201d, implicando que a imagem se torna uma figura ou pintura percept\u00edvel atrav\u00e9s do racioc\u00ednio subjectivo individual. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Al\u00e9m disso, o livro considerado o mais importante sobre a est\u00e9tica liter\u00e1ria chinesa, \u201cLiteratura e Escultura do Cora\u00e7\u00e3o do Drag\u00e3o\u201d (<span class=\"s6\">\u6587\u5fc3\u96d5\u9f8d<\/span>, <i>Wen Xin Diao Long<\/i>), escrito por Liu Xie cerca de 500, define \u201cimagem\u201d (<span class=\"s6\">\u50cf<\/span>) como uma ideia abstracta internalizada pelo poeta atrav\u00e9s da forma art\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"p4\">N\u00e3o obstante, a hist\u00f3ria do pensamento chin\u00eas n\u00e3o foi a \u00fanica fonte de inspira\u00e7\u00e3o para Pessanha. Os cr\u00edticos liter\u00e1rios assumiram que o termo \u201cClepsydra\u201d, t\u00edtulo do seu \u00fanico livro de poemas, teve provavelmente origem no vers\u00edculo de Charles Baudelaire (1821-1867) \u201cO abismo tem sempre sede; a clepsidra esvazia-se\u201d. No entanto, vale a pena mencionar que o <i>leitmotiv<\/i> do rel\u00f3gio de \u00e1gua \u00e9 tamb\u00e9m comum \u00e0 poesia cl\u00e1ssica chinesa \u2014 e o pr\u00f3prio Baudelaire poderia ter reutilizado este termo devido ao seu interesse oriental.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s7\">Na verdade, o movimento Simbolista, iniciado em Fran\u00e7a e influenciado por estes novos valores origin\u00e1rios do Oriente, reagiu contra o Naturalismo e o Realismo em favor da espiritualidade, imagina\u00e7\u00e3o e devaneios. A rela\u00e7\u00e3o de Pessanha com o movimento Simbolista poderia doravante explicar a presen\u00e7a de um motivo oriental na sua poesia, mesmo antes de ter deixado Portugal para a China em 1893. De facto, os poemas publicados na primeira edi\u00e7\u00e3o de \u201cClepsydra\u201d s\u00e3o todos anteriores \u00e0 sua estadia em Macau, embora os seus restantes manuscritos sugiram que ele possa ter reescrito grande parte da sua poesia depois de se ter mudado para esta col\u00f3nia portuguesa na \u00c1sia, onde o tema do rel\u00f3gio de \u00e1gua pode ter adquirido mais corpo sob a influ\u00eancia chinesa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">\u00c0 semelhan\u00e7a dos poetas chineses, os escritores europeus mencionados consideram a Natureza n\u00e3o apenas como um fen\u00f3meno f\u00edsico, com qualidades sensualmente agrad\u00e1veis, mas tamb\u00e9m como uma alma animada, que est\u00e1 em \u00edntima correspond\u00eancia com a pr\u00f3pria vida. Consequentemente, se Pessanha j\u00e1 estava a receber a inspira\u00e7\u00e3o de outros poetas do seu continente europeu, estes mesmos poetas tinham de facto aprendido com a filosofia asi\u00e1tica as qualidades est\u00e9ticas que traduziram nos seus textos. \u00c9 importante recordar a influ\u00eancia que Emanuel Swedenborg (1688-1772) exerceu na poesia simbolista. N\u00e3o s\u00f3 Baudelaire, mas tamb\u00e9m Thomas Carlyle, Ralph Waldo Emerson, Balzac, Helen Keller e, mais recentemente, Jorge Lu\u00eds Borges, fazem eco das suas obras.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s7\">A doutrina de Swedenborg, baseada no conceito b\u00edblico de que \u201cDeus criou o homem \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem\u201d (G\u00e9nesis 1:27), \u00e9 explicada em pormenor no seu livro \u201cArcana C\u0153lestia\u201d, escrito entre 1746 e 1747. Ele chama \u201ccorrespond\u00eancia\u201d \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre aspectos do dom\u00ednio material e do dom\u00ednio espiritual. Tudo no mundo material teria a sua contraparte na esfera espiritual. As ideias da Swedenborg s\u00e3o semelhantes a alguns preceitos crist\u00e3os esot\u00e9ricos, budistas e v\u00e9dicos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">O escritor pioneiro a usar esta ideia de \u201ccorrespond\u00eancia\u201d na poesia foi, de facto, Baudelaire, que, num dos poemas mais influentes da literatura moderna, afirma que \u201csom, cor e vis\u00f5es respondem uns aos outros\u201d, o que significa que estas tr\u00eas modalidades sensoriais prov\u00eam da mesma intui\u00e7\u00e3o. Ele menciona ainda uma fuga para um mundo distante, de natureza ex\u00f3tica e de para\u00edsos artificiais. Evoca a realiza\u00e7\u00e3o que se faz durante certos estados de esp\u00edrito em que se misturam as percep\u00e7\u00f5es sensoriais.<\/p>\n<p class=\"p7\">Na pintura chinesa, a paisagem adquire um estatuto especial, considerado a forma suprema da pintura. Por esta raz\u00e3o, a ilustra\u00e7\u00e3o \u201c Flor de P\u00eassego na Primavera\u201d retrata v\u00e1rias montanhas, uma vez que as terras altas s\u00e3o vistas como um lugar sagrado pela sua proximidade do c\u00e9u, lar dos imortais, sendo assim um tema de excel\u00eancia nas pinturas chinesas. Em conclus\u00e3o, o interesse filos\u00f3fico na doutrina taoista sobre a natureza contribuiu para transformar a paisagem numa fonte de valores espirituais, algo que tanto Tao como Pessanha absorvem e reutilizam na sua poesia simbolista. Nas rimas de Pessanha, a natureza assume o mesmo uso que no tropo pict\u00f3rico da ilustra\u00e7\u00e3o do poema de Tao. A ren\u00fancia asc\u00e9tica poderia ser transmitida em imagens de dissolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o da dor pelo estado dist\u00f3pico do mundo humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p class=\"p9\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p11\">1 Num discurso proferido na cerim\u00f3nia de homenagem a Camilo Pessanha, a 1 de Mar\u00e7o de 1999, no cemit\u00e9rio onde se encontra o poeta.<\/li>\n<li class=\"p11\">2 Revolta de Dazexiang (Julho &#8211; Dezembro 209 AC) e Insurrei\u00e7\u00e3o de Liu Bang (206 AC).<\/li>\n<li class=\"p11\">3 Esta cena tamb\u00e9m aparece no Pal\u00e1cio de Ver\u00e3o de Pequim e na pintura em forma de leque do pintor chin\u00eas Ding Yunpeng em 1582, a dinastia Ming.<\/li>\n<li class=\"p11\">4 PIMPANEAU, Jacques. \u201cL\u2019\u0153uvre de Tao Yuanming (Tao Qian, 365-427)\u201d, in \u201cAnthologie de la litt\u00e9rature chinoise classique\u201d, Arles, \u00c9ditions Philippe Picquier, 2004, pp. 274-297.<\/li>\n<li class=\"p11\">5 ZHANG, Yinde. \u201cHistoire de la litt\u00e9rature chinoise\u201d, Paris, Ellipses, coll. \u201cLitt\u00e9rature des cinq continents\u201d, 2004, p. 23.<\/li>\n<li class=\"p11\">6 Pode-se tamb\u00e9m descobrir tang\u00eancias entre a concep\u00e7\u00e3o de arte de Shoppenhauer e as ideias que Pessanha expressou sobre a natureza e a fun\u00e7\u00e3o da arte. Ambas conceberam a arte como uma ren\u00fancia ao desejo e ao gozo dos sentidos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Resson\u00e2ncias entre Tao Yuanming \u9676\u6e0a\u660e (365-427) e Camilo Pessanha (1867-1926) &nbsp; Camilo Pessanha nasceu em Coimbra em 1867, no mesmo ano em que Baudelaire morreu. Desde jovem, visitou v\u00e1rias regi\u00f5es com o seu pai que, devido \u00e0 sua carreira de magistrado, levava o seu filho a diferentes territ\u00f3rios, despertando a curiosidade de Camilo por&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":763,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-769","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poesia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/120.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=769"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":771,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions\/771"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}