{"id":795,"date":"2025-10-07T04:02:08","date_gmt":"2025-10-06T20:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=795"},"modified":"2025-10-07T04:02:08","modified_gmt":"2025-10-06T20:02:08","slug":"cronicas-do-estranho-pu-songling","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/cronicas-do-estranho-pu-songling\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nicas do Estranho &#8211; Pu Songling"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o e notas<\/strong><br \/>\n<strong>Rui Cascais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">Quando as pupilas se falam<\/span><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">F<\/span><span class=\"s2\">ang Dong<\/span><span class=\"s1\">, da capital<sup>1<\/sup>, era um letrado de reputado talento mas a sua natureza turbulenta levava-o a negligenciar as conveni\u00eancias. Qualquer rapariga que descobrisse no seu caminho se tornava v\u00edtima da sua aten\u00e7\u00e3o imp\u00fadica. Um dia \u2013 na v\u00e9spera do festival da Pureza e Claridade \u2013 o acaso dos seus passos tinha-o conduzido para l\u00e1 dos arrabaldes, quando viu passar uma pequena liteira de senhora de cortinas vermelhas e estores bordados e escoltada por fileiras de v\u00e1rio pessoal dom\u00e9stico . A comitiva ia a passo travado. No grupo havia uma criada montada num cavalinho \u2013 a rapariga era de uma beleza soberba.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Ao aproximar-se mais para a lograr melhor, reparou que as cortinas da liteira estavam afastadas. L\u00e1 dentro, sentava-se uma jovem donzela<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>de cerca de dezasseis anos, magnificamente vestida<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e de uma beleza resplandecente. Jamais, em toda a sua vida, vira uma criatura t\u00e3o encantadora. Deslumbrado, alterado, fascinado e de olhar completamente fixo, seguiu-a durante v\u00e1rios <i>li<\/i>, tanto galopando \u00e0 sua frente como trotando na sua peugada.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">De s\u00fabito, escutou a jovem donzela chamar a criada e dizer-lhe, quando esta se aproximou da liteira : \u201c Faz-me o favor de baixares o estore! De onde surgiu este louco que n\u00e3o cessa de me espiar?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">A criada assim fez e, voltando-se para o jovem exclamou indignada: \u201c \u00c9 a nova esposa do s\u00e9timo jovem senhor da Cidade dos Hibiscos<sup>2<\/sup> e n\u00e3o uma qualquer menina que um qualquer bacharel se possa permitir afrontar!\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Dito isto, apanhou um punhado de terra e lan\u00e7ou-o sobre a cabe\u00e7a do jovem. Cego, este n\u00e3o conseguia j\u00e1 abrir os olhos. Quando se sacudiu e os abriu, tanto a liteira como os cavalos lhe pareceram distantes, quase indistintos. Voltou, assim, para tr\u00e1s alarmado e perplexo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Como sentia um inc\u00f3modo persistente nos olhos, fez-se examinar: levantada a p\u00e1lpebra descobriu-se uma pequena catarata na pupila. Decorrida a noite, o mal tinha piorado de tal forma que as l\u00e1grimas lhe ca\u00edam sem interrup\u00e7\u00e3o. A catarata aumentava. Em poucos dias atingiu a espessura de uma pequena moeda. Sobre a pupila direita, tinha a forma de uma espiral. Nenhum dos mil rem\u00e9dios experimentados produzia efeito. Consumido pelo remorso, quase esgotado, o jovem sonhava apenas com um meio de se arrepender.<\/p>\n<p class=\"p3\">Tendo ouvido que o Sutra da Claridade<sup>3<\/sup> o poderia livrar do sofrimento, obteve um rolo e convidou algu\u00e9m que lhe ensinasse a r\u00e9cita \u2013 um trabalho que lhe pareceu fastidioso de in\u00edcio mas que acabou por lhe proporcionar um sentimento de paz. Sem outra ocupa\u00e7\u00e3o de manh\u00e3 \u00e0 noite, apenas recitava, manuseando o ros\u00e1rio, sentado em postura de medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao cabo de um ano de pr\u00e1tica ass\u00eddua, e tendo atingido um estado de desapego avan\u00e7ado<sup>4<\/sup>, escutou, de repente, uma vozinha fina como a de uma mosca a sair do seu olho esquerdo: \u201cQue escuro aqui dentro, um negro de laca! Morre-se de t\u00e9dio.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Do olho direito saiu<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>resposta: \u201cPorque n\u00e3o d\u00e1s uma volta comigo para arejar as ideias?<\/p>\n<p class=\"p3\">Fang sentia, em breve, uma agita\u00e7\u00e3o de cada lado da sua passagem nasal, seguida da sensa\u00e7\u00e3o de que algo o deixava saindo pelas narinas. Ao fim de uma aus\u00eancia prolongada, as coisas estavam de regresso e subiam de novo do nariz \u00e0 \u00f3rbita ocular.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cJ\u00e1 h\u00e1 muito que n\u00e3o explorava o jardim, disse a voz, as orqu\u00eddeas perladas est\u00e3o todas secas e murchas\u2026\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">O jovem letrado<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>adorava as orqu\u00eddeas perfumadas e tinha-as plantado em abund\u00e2ncia por todo o jardim. Tinha o h\u00e1bito e as regar ele pr\u00f3prio todos os dias mas, desde que perdera a vista, j\u00e1 n\u00e3o o fazia. Pouco depois de ter surpreendido esta conversa, interrogou a sua esposa: \u201cPorqu\u00ea deixar estoliar e morrer de sede as orqu\u00eddeas?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Como se ela lhe perguntasse onde obtivera a informa\u00e7\u00e3o, o jovem contou-lhe a raz\u00e3o. A mulher foi de imediato verificar e descobriu que, na verdade, as plantas estavam secas. Intrigada ao m\u00e1ximo, escondeu-se no quarto e viu dois pequenos gnomos, n\u00e3o maiores que uma ervilha, sair do nariz do marido e desaparecer pela porta, fora da sua vista. Um pouco depois regressavam de bra\u00e7o dado e voavam para o rosto do jovem como abelhas ou formigas aladas ganhando o ninho. Isto repetiu-se durante dois ou tr\u00eas dias. Depois, Fang, escutou o hom\u00fanculo da esquerda retomar a palavra: <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u2014 Este t\u00fanel sinuoso \u00e9 muito inc\u00f3modo para as nossas idas e vindas! Mais vale abrir uma porta.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">\u2014 Isso n\u00e3o seria f\u00e1cil, a minha parede \u00e9 demasiado espessa, retorquiu o gnomo da direita.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u2014 Vou tentar do meu lado, respondeu<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>o da esquerda, e se conseguir vamos juntos.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">O letrado sentiu uma esp\u00e9cie de arranhar no fundo da \u00f3rbita esquerda seguido de uma impress\u00e3o de que algo se rasgava.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Abrindo o olho no instante seguinte, viu distintamente os objectos postos sobre a mesa baixa e deu a alegre not\u00edcia \u00e0 mulher. Esta examinou-o: uma pequena fissura atravessava a membrana opaca atrav\u00e9s da qual brilhava a pupila como um gr\u00e3o de p\u00f3lvora fendido.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Na manh\u00e3 do dia seguinte a opacidade tinha desaparecido por inteiro. Uma observa\u00e7\u00e3o atenta revelava, na verdade, uma pupila dupla, enquanto que a espiral opaca do olho direito permanecia na mesma. Fang compreendeu que os dois hom\u00fanculos habitavam a mesma \u00f3rbita. Ainda que zarolho, o jovem via agora bastante melhor do que com os dois olhos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Desde ent\u00e3o passou a comportar-se com uma maior dignidade, sendo louvado em todo o cant\u00e3o pela sua eminente virtude.<\/p>\n<p class=\"p3\"><i>O Cronista do Estranho acrescenta:<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\">Um letrado do pa\u00eds passeava-se com dois amigos quando<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>viu passar ao longe uma jovem rapariga que conduzia um asno. \u201c\u00d3 beldade!\u201d, come\u00e7ou ele a cantarolar. Voltando-se para os seus companheiros disse: \u201cVamos persegui-la!\u201d. Rindo puseram-se no encal\u00e7o e alcan\u00e7aram-na num instante, tratava-se da esposa do seu filho! Despistado e vermelho de confus\u00e3o, o letrado estava emudecido, incapaz de articular a m\u00ednima palavra. Fingindo ignor\u00e2ncia, os amigos come\u00e7aram a avaliar os m\u00e9ritos da rapariga nos termos mais crus. Completamente embara\u00e7ado, o genro acabou por balbuciar: \u201c \u00c9 a esposa do meu filho mais velho!\u201d Puseram-se todos a rir \u00e0 socapa. Muitas vezes se p\u00f5e o marialva em situa\u00e7\u00f5es de que se arrepende: n\u00e3o h\u00e1 pior rid\u00edculo.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Quanto \u00e0 cegueira causada pela poeira lan\u00e7ada nos olhos, n\u00e3o ser\u00e1 uma cruel vingan\u00e7a de deuses ou diabos? N\u00e3o sabemos que divindade reinava sobre a Cidade dos Hibiscos \u2013 n\u00e3o seria uma encarna\u00e7\u00e3o de <i>bodhisttava<\/i><sup>5<\/sup>? <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Seja como for, ao abrir uma porta, as pequenas Excel\u00eancias provaram que dem\u00f3nios ou g\u00e9nios, por maus que sejam, nunca impediram ningu\u00e9m de se regenerar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<ul>\n<li class=\"p1\">1 Chang\u2019an, \u201cPaz Perp\u00e9tua\u201d foi a capital da China durante o primeiro mil\u00e9nio e localizava-se pr\u00f3ximo de Xian , no Shaanxi. Aqui trata-se de um termo liter\u00e1rio para designar a capital do momento \u2013 Pequim.<\/li>\n<li class=\"p1\">2 Este nome de Fuyong cheng \u00e9 normalmente atribu\u00eddo a Chengdu, a capital da prov\u00edncia do Sichuan, onde a lenda situa a entrada do Al\u00e9m.<\/li>\n<li class=\"p1\">3 Trata-se do <i>Guanming jing<\/i>, abreviatura de <i>Jinguang ming jing <\/i>(<i>Sutra da Luz do Clar\u00e3o de Ouro<\/i>) uma prov\u00e1vel tradu\u00e7\u00e3o do texto s\u00e2nscrito feita pelo \u201ct\u00e2ntrico\u201d Amoghavajra (705-774) e composto por <i>dh\u00e2r\u00e2ni<\/i> ou encanta\u00e7\u00f5es \u00e0 gl\u00f3ria do Buda para remiss\u00e3o dos pecados.<\/li>\n<li class=\"p1\">4 Literalmente \u201ctendo-se purificado das dez mil causas circunstanciais (<i>pratyaya<\/i> em s\u00e2nscrito).<\/li>\n<li class=\"p2\">5 Pusa, abrevia\u00e7\u00e3o de <i>putisatuo<\/i>, transcri\u00e7\u00e3o do s\u00e2nscrito que significa \u201cess\u00eancia de sabedoria\u201d e designa os budas (despertos) que atrasam o nirvana (extin\u00e7\u00e3o) afim de socorrer a humanidade em sofrimento.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Tradu\u00e7\u00e3o e notas Rui Cascais &nbsp; Quando as pupilas se falam &nbsp; Fang Dong, da capital1, era um letrado de reputado talento mas a sua natureza turbulenta levava-o a negligenciar as conveni\u00eancias. 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