{"id":851,"date":"2025-10-17T02:29:46","date_gmt":"2025-10-16T18:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=851"},"modified":"2025-10-17T02:29:46","modified_gmt":"2025-10-16T18:29:46","slug":"os-manchus-e-o-governante-ideal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/17\/os-manchus-e-o-governante-ideal\/","title":{"rendered":"Os manchus e o governante ideal"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"s1\"><i>\u201cQuase diariamente, levava os meus filhos a praticar tiro ao alvo com a minha guarda pessoal. Dizia-lhes que n\u00e3o perdessem as suas tradi\u00e7\u00f5es manchus mesmo em coisas como o vestir, a comida, os utens\u00edlios, que n\u00e3o se deixassem tingir demasiado pelos h\u00e1bitos Chineses como sucedeu com os \u00faltimos governantes Jin e Yuan. <\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"s1\"><i>Dizia-lhes que procurassem os seus prazeres numa vida em espa\u00e7os abertos, que n\u00e3o se enclausurassem atr\u00e1s de tabiques e em salas cont\u00edguas, como os Chineses consideram adequado\u201d.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"s1\">Kangxi<\/span><i> <\/i><i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Q<\/span><span class=\"s4\">uem eram<\/span><span class=\"s3\">, afinal, esses \u201cestrangeiros\u201d que conquistaram a China no s\u00e9culo XVII? N\u00e3o se tratavam propriamente de ilustres desconhecidos. Contactos entre Manchus e Han existiam, pelo menos, h\u00e1 mais de mil e quinhentos anos. A invas\u00e3o dos Qing n\u00e3o abria um precedente; pelo contr\u00e1rio, confirmava o receio que os Han sempre mantiveram relativamente \u00e0s tribos que habitavam o norte do imp\u00e9rio e que levara no passado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Grande Muralha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\"><b>Tungus, Ruzhen e a dinastia Jin<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Os Manchus descendem dos Tungus, uma etnia que ocupou a \u00e1rea conhecida por Manch\u00faria, no nordeste da China, pelo menos desde o s\u00e9culo III A.C., resultante da fus\u00e3o de v\u00e1rias tribos locais como os Sushen e os Ilu, bem como de outros povos de origem turca e mongol. Essencialmente, dedicavam-se \u00e0 ca\u00e7a, \u00e0 pesca e \u00e0 recolec\u00e7\u00e3o, tendo posteriormente desenvolvido formas primitivas de agricultura e pecu\u00e1ria. Em registos chineses da \u00e9poca s\u00e3o descritos como Donghu (b\u00e1rbaros de leste). A sua l\u00edngua pertence a um ramo das l\u00ednguas Altaicas, da fam\u00edlia lingu\u00edstica Uralo-Altaica, e distinguia-se de linguagens vizinhas, por exemplo, pela peculiar distin\u00e7\u00e3o entre masculino e feminino atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o das vogais \u2018a\u2019 e \u2018e\u2019, como nas palavras ama ,\u2018pai\u2019, que se torna eme \u2018m\u00e3e\u2019. Tal como em chin\u00eas, os verbos manchus n\u00e3o distinguem pessoa nem n\u00famero. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">No s\u00e9culo X, os historiadores chineses referem-se a estas tribos como Nuzhi ou Juzhi, uma translitera\u00e7\u00e3o do termo nativo Ruzhen. Nesta altura estamos j\u00e1 longe de uma organiza\u00e7\u00e3o puramente tribal e desordenada. Os Ruzhen s\u00e3o senhores de um reino de alguma dimens\u00e3o e import\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">No s\u00e9culo XII, mais concretamente em 1115, os Ruzhen afastam do poder os Liao (originariamente Kitan, de onde deriva o nome Cataio), cuja dinastia tinha, pela primeira vez, tornado Pequim (ent\u00e3o Yenjing) na capital do imp\u00e9rio e que se diziam os verdadeiros sucessores da dinastia Tang (618-907). <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Vindos do norte da Manch\u00faria, os Ruzhen fundam a dinastia Jin que duraria at\u00e9 1234, quando foram depostos pelos Mong\u00f3is. Os Jin caracterizaram-se, numa primeira fase, pela r\u00edgida manuten\u00e7\u00e3o da sua estrutura social e militar, proibindo o uso da l\u00edngua, dos nomes, do vestu\u00e1rio e dos costumes Han, pelo menos durante a pr\u00e1tica do servi\u00e7o militar, a que todos os Ruzhen eram obrigados. Neste sentido procuravam manter a sua superioridade militar, j\u00e1 que noutros campos eram claramente inferiores, nomeadamente no que concerne as t\u00e9cnicas agr\u00edcolas e a pr\u00f3pria arte de governar. A sua sinifica\u00e7\u00e3o era praticamente inevit\u00e1vel, at\u00e9 porque constitu\u00edam um grupo minorit\u00e1rio numa regi\u00e3o densamente povoada e que at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinha sido invadida por povos semin\u00f3madas. Um longo per\u00edodo de paz logicamente assegurou, em grande parte, a sua absor\u00e7\u00e3o pela maioria Han. Antes da invas\u00e3o mongol, os governantes Jin tinham entrado em franca decad\u00eancia preferindo os estudos confucianos e a poesia Han da dinastia Tang aos cuidados da arte da governar, para al\u00e9m de verem os seus recursos esgotados por uma guerra intermin\u00e1vel com os seus rivais do Sul, os Sung. Por outro lado, Han e Kitan, pouco satisfeitos com o governo dos Jin, aliaram-se aos invasores mong\u00f3is, proporcionando-lhes os seus conhecimentos sobre o ex\u00e9rcito Jin e as caracter\u00edsticas do terreno.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Em 1211, os Mong\u00f3is lan\u00e7aram os seus primeiros ataques, liderados pelo pr\u00f3prio Gengis Khan, efectuando pilhagens por onde passavam. S\u00f3 em 1214 se propuseram conquistar Pequim. No entanto, a cidade encontrava-se extremamente bem fortificada e a paz acabou por ser assinada levando \u00e0 retirada das tropas atacantes. No ano seguinte, Gengis Khan quebrou o armist\u00edcio e acabou mesmo por conquistar a capital. O \u00faltimo imperador Jin viria a suicidar-se em 1234, quando o seu imp\u00e9rio j\u00e1 n\u00e3o existia e se encontrava cercado no Hunan. Os Ruzhen, na sua grande maioria, retiraram-se para as suas terras de origem, no norte da Manch\u00faria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\"><b>Os Qing<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Os Mong\u00f3is acabariam por conquistar toda a China, em 1280, incluindo a Manch\u00faria, que transformaram numa prov\u00edncia a que deram o nome de Liaoyang, e estabeleceram a dinastia Yuan. No entanto, os Han nunca se conformaram com o dom\u00ednio mongol tendo-se sucedido numerosas revoltas e rebeli\u00f5es. Finalmente, os Yuan viriam a ser derrubados em 1380, sucedendo-lhes a dinastia Ming, que retomou o controlo chin\u00eas sobre a Manch\u00faria. Nesta altura, os Ruzhen habitavam o norte da prov\u00edncia e encontravam-se divididos em cinco cl\u00e3s independentes, mas tribut\u00e1rios do poder Ming.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">Em meados do s\u00e9culo XVI os Mong\u00f3is tinham, de algum modo, recuperado parte do seu poderio militar e amea\u00e7avam de novo as fronteiras do imp\u00e9rio chin\u00eas. Este facto provocou uma diminui\u00e7\u00e3o do controlo da Manch\u00faria, levando a um aumento de poder por parte dos Ruzhen. At\u00e9 ent\u00e3o os chineses tinham seguido uma pol\u00edtica de \u201cdividir para reinar\u201d, incentivando as escaramu\u00e7as entre os cl\u00e3s e mesmo no seu interior. Entre os Chien-chou Ruzhen nascera, em 1559, Nurhachi que tomaria o poder no seu cl\u00e3 com cerca de vinte anos de idade, dando in\u00edcio a uma era nova para os Manchus. Em 1586 derrotou um advers\u00e1rio dentro da sua pr\u00f3pria tribo, apoiado pelos Chineses, consolidando definitivamente o seu comando. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Em seguida, tratou de construir um Estado Manchu, come\u00e7ando pela escrita e pela organiza\u00e7\u00e3o militar e administrativa. Para tal, em 1599, incumbiu o letrado Erdeni de criar um sistema de escrita, cuja origem se pode remeter ao sistema mongol, que deu origem a uma literatura nacional. Em 1601, criou o sistema dos estandartes, uma forma de organiza\u00e7\u00e3o militar que se desdobrava em administra\u00e7\u00e3o e recolha de impostos. Esta imposi\u00e7\u00e3o de Nurhachi foi determinante para transformar uma sociedade tribal num Estado organizado. Provavelmente, esta transforma\u00e7\u00e3o dos cl\u00e3s num burocracia militar ter\u00e1 sido inspirada na estrutura pol\u00edtico-militar chinesa, em vigor nas fronteiras do imp\u00e9rio. Ao mesmo tempo, conseguiu dominar todos os cl\u00e3s Ruzhen sob a sua bandeira. Em 1615, os originais quatro estandartes, que Nurhachi colocara sob um estrito controlo familiar, foram transformados em oito, igualmente entregues a familiares de confian\u00e7a. Entretanto, Nurhachi tratou de conquistar os outros cl\u00e3s Ruzhen e de os organizar, agora, segundo uma l\u00f3gica totalmente diferente, formando um Estado consideravelmente poderoso.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">Este poder manchu viria a crescer desmesuradamente, tamb\u00e9m do ponto de vista econ\u00f3mico, com o estabelecimento de v\u00e1rios monop\u00f3lios, nomeadamente das minas, riqu\u00edssimas na regi\u00e3o, e do tr\u00e1fico de peles, p\u00e9rolas e ginseng. Em 1616, Nurhachi proclamou-se khan (imperador), usando igualmente a express\u00e3o chinesa Tian Ming (Mandato Celestial), inaugurando uma dinastia a que chamou Jin, assumindo-se herdeiro da casa din\u00e1stica do mesmo nome que os Ruzhen tinham fundado no s\u00e9culo XII.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Quando se sentiu definitivamente preparado, em 1618, Nurhachi lan\u00e7ou o seu primeiro ataque contra a China, na cidade fronteiri\u00e7a de Fushun, alegando que este acto se justificava, inclusivamente, porque os Chineses teriam estado por detr\u00e1s do assass\u00ednio de seu pai e de seu av\u00f4. O \u00eaxito desta expedi\u00e7\u00e3o ficou-se a dever ao facto do comandante da cidade se ter passado para o lado manchu. Facto que se veio a repetir posteriormente, porque os Chineses reconheciam que, mesmo sob o poder manchu, tinham acesso \u00e0 administra\u00e7\u00e3o e era at\u00e9 reconhecida a validade da manuten\u00e7\u00e3o das estruturas pol\u00edticas e culturais chinesas.<\/p>\n<p class=\"p7\">Em 1625, mudou a sua capital para Mukden, preparando-se para defrontar os ex\u00e9rcitos chineses que guardavam a entrada da China propriamente dita. Contudo, no ano seguinte, perdeu a sua primeira batalha contra as for\u00e7as Ming, em Ningyuan, vindo a falecer dos ferimentos, em 30 de Setembro de 1626.<\/p>\n<p class=\"p7\">Sucedeu-lhe o seu oitavo filho Hung Taiji, que conseguiu eliminar os seus irm\u00e3os rivais, muito gra\u00e7as \u00e0s suas capacidades de l\u00edder militar. No seu reinado os Manchus conquistaram a Mong\u00f3lia Interior e a Coreia, aproveitando ao m\u00e1ximo as riquezas destes pa\u00edses. Gra\u00e7as aos soldados e cavalos mong\u00f3is e ao dinheiro e mantimentos que lhe vinham da Coreia, Hung Taiji aperfei\u00e7oou o sistema dos Oito Estandartes organizando os primeiros raides para l\u00e1 da Grande Muralha. Os Manchus ofereciam grandes privil\u00e9gios aos Chineses que se lhes juntassem, o que provocou uma galopante influ\u00eancia chinesa na administra\u00e7\u00e3o manchu. Este facto contribuiu decisivamente para a consolida\u00e7\u00e3o do poder administrativo e militar do descendente de Nurhachi. Sob este est\u00edmulo e a conselho dos seus conselheiros chineses, Hung Taiji resolveu, em 1636, mudar o nome da sua dinastia de Jin para Qing (Pura) e lan\u00e7ar-se definitivamente na conquista da China. Isto depois de conquistar parte da Mong\u00f3lia e ter-se apoderado do Grande Selo do Khan, o que lhe conferiu simbolicamente o t\u00edtulo de Filho do C\u00e9u. Morreu exactamente um ano antes das suas tropas entrarem em Pequim, em Junho de 1644.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">A sua morte lan\u00e7ou alguma confus\u00e3o sobre a sucess\u00e3o din\u00e1stica. Dorgon, o d\u00e9cimo quarto filho de Nurhachi, seria o mais prov\u00e1vel e desejado sucessor, mas o pr\u00edncipe recusou o cargo, nomeando para o lugar o filho de Hung Taiji, Fulin, de cinco anos de idade, que viria a chamar-se Shunzhi. Para si e para seu irm\u00e3o Jirgalang reservou os lugares de regentes do imp\u00e9rio. Foi ele que, com a ajuda do general chin\u00eas Wu Sankuei, retirou Pequim das m\u00e3os dos rebeldes que tinham destronado o \u00faltimo imperador Ming. Mas se os Han pensavam que os Manchus retirariam depois da conquista da capital estavam bem enganados. Shunzhi foi levado para Pequim a 19 de Outubro de 1644 e onze dias mais tarde proclamado imperador. No mesmo ano, Dorgon conseguiu submeter as prov\u00edncias de Shensi, Hunan e Shandong; no ano seguinte, seguiram-se Kiangnan, Jiangxi, Hebei e parte de Zheijiang; sendo as prov\u00edncias de Sichuan e Fujian conquistadas em 1646. Com o tempo foi concentrando o poder nas suas m\u00e3os, relegando o seu irm\u00e3o para a mera fun\u00e7\u00e3o de assistente do imperador. Quando morreu, em 1650, numa ca\u00e7ada perto da Grande Muralha, todo o norte da China tinha sido dominado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">O imperador Shunzhi expandiu o imp\u00e9rio por toda a China, for\u00e7ando as \u00faltimas tropas Ming a refugiarem-se em Taiwan, de onde expulsaram os Holandeses, em 1659. Encarado como uma pessoa extremamente af\u00e1vel, Shunzhi foi grandemente influenciado pelos eunucos da corte e pelos monges budistas. Faleceu muito novo, de varicela, aos 23 anos de idade. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">No entanto, existe uma outra vers\u00e3o: reza a lenda que, por amor a uma bela consorte<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>prematuramente falecida, ter\u00e1 entrado para um templo chan (zen), descuidando os assuntos de Estado. Anos mais tarde, o seu filho e sucessor Kangxi ter\u00e1, debalde, tentado encontr\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\"><b>Os Estandartes<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">O sistema dos Estandartes constituiu a principal forma de organiza\u00e7\u00e3o do jovem Estado manchu fundado por Nurhachi. Foi em 1601 que, pela primeira vez, o ex\u00e9rcito manchu foi dividido em quatro companhias de 300 homens cada. Cada uma ostentava um estandarte de cor diferente: amarelo, vermelho, branco e azul. Em 1915 foram acrescentados mais quatro estandartes, sendo que as cores se mantiveram as mesmas com a particularidade dos novos estandartes apresentarem uma margem bordada a vermelho e o estandarte vermelho uma margem bordada a branco. \u00c0 medida que os Manchus progrediam nas suas conquistas e simultaneamente iam recrutando e arregimentando mais soldados, o n\u00famero de elementos dos estandartes ia tamb\u00e9m aumentando, chegando a atingir os 7500 homens por cada um, divididos em cinco regimentos que, por sua vez, se subdividiam em quatro companhias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">Mais do que uma mera forma de organiza\u00e7\u00e3o militar, o sistema dos estandartes lan\u00e7ou as bases para uma burocracia estatal que se revelou ser a pedra de toque dos manchus nos primeiros anos do seu crescimento e uma das raz\u00f5es do seu sucesso, nomeadamente junto das tribos n\u00f3madas do pa\u00eds. Era atrav\u00e9s deste sistema que se cobravam os impostos, organizava o recrutamento e recenseava a popula\u00e7\u00e3o, permitindo assim aos governantes uma no\u00e7\u00e3o muito aproximada da realidade do seu Estado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">O sistema dos estandartes servia assim de mediador entre o Estado e a popula\u00e7\u00e3o, o que demonstra bem o car\u00e1cter militarista da dinastia Qing, pelo menos durante as primeiras d\u00e9cadas do seu reinado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">Durante a conquista da Mong\u00f3lia e da China, os cativos eram obrigados a servir no ex\u00e9rcito pelo que, em 1634, foram criados oito estandartes mong\u00f3is e em 1642 mais oito, desta vez chineses, num total de 24, que se mantiveram durante toda a dinastia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Os membros dos estandartes eram considerados uma esp\u00e9cie de nobreza e tinham direito a um tratamento preferencial em termos de pens\u00f5es anuais, terra e distribui\u00e7\u00e3o de arroz. Os que pertenciam aos estandartes manch\u00fas eram certamente mais bem tratados que os seus colegas chineses e mong\u00f3is, mas nenhum deles podia fazer com\u00e9rcio ou qualquer trabalho manual sem primeiro pedir para ser retirado das suas fun\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m disso, os que violassem a lei n\u00e3o eram julgados por um qualquer magistrado civil, mas por um general manch\u00fa designado para o efeito.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Depois de um s\u00e9culo e meio de paz, as qualidades guerreiras dos homens dos estandartes tinham-se deteriorado e o seu treino considerado com algum desleixo. Quando da Rebeli\u00e3o do L\u00f3tus Branco (1796-1804) e da Revolu\u00e7\u00e3o Taiping (1850-54), o sistema dos estandartes revelou-se incapaz de proteger a dinastia que se viu obrigada a reunir outro tipo de for\u00e7as militares. No princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, o sistema estava perfeitamente obsoleto. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\"><b>Kangxi e o governante ideal <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Filho de Sunzhi e feito imperador aos sete anos de idade, em 1661, s\u00f3 oito anos mais tarde Kangxi controlou, de facto, o trono do Imp\u00e9rio do Meio. Durante este per\u00edodo o governo foi exercido por quatro conselheiros manchus, herdados da corte de seu pai: Suoni, Sukeshaha, Ebilong e Aoboi. Estes homens, de tend\u00eancia conservadora, demonstravam algum desd\u00e9m pela crescente influ\u00eancia chinesa, que o imperador Shunzhi apadrinhara. Agora que se encontravam no poder iam tomar medidas dr\u00e1sticas para combater o que consideravam elementos perniciosos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">E come\u00e7aram logo pela institui\u00e7\u00e3o que mais os irritava: os Treze Of\u00edcios que, constitu\u00edda por eunucos, era respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio Imperial. Tratava-se de uma tarefa de grande responsabilidade e influ\u00eancia, porque<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>supervisionavam a administra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica e controlavam os pagamentos de todos os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Recuperada por Shunzhi, esta institui\u00e7\u00e3o de origem Ming horrorizava os manchus que a substitu\u00edram pelo Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio, formado apenas com elementos da sua etnia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">A partir de 1667, Kangxi come\u00e7ou a interessar-se pelos assuntos de Estado. J\u00e1 com treze anos, frequentava as audi\u00eancias e participava nas reuni\u00f5es, mas o poder encontrava-se ainda nas m\u00e3os dos seus ministros. Com a morte de Suoni, Aoboi tornou-se um virtual ditador, mandando matar Sukeshaha e dominando Elibong. Mas Kangxi estava precavido contra as suas inten\u00e7\u00f5es. H\u00e1 j\u00e1 muito tempo que homens fi\u00e9is a Aoboi controlavam parte do Pal\u00e1cio Imperial e o informavam sobre os movimentos do imperador. O jovem imperador resolveu recrutar cem jovens guerreiros dos Estandartes, sob o pretexto de praticar com eles a arte marcial \u201cbuku\u201d, de origem manchu. Na pr\u00e1tica serviam-lhe de guarda-costas contra as eventuais conspira\u00e7\u00f5es de Aoboi. O clima entre ambos deteriorou-se progressivamente at\u00e9 ao dia em que Kangxi resolveu por um ponto final na situa\u00e7\u00e3o. Aoboi recebeu um convite para uma bebida no Pal\u00e1cio. Quando o ministro chegou o imperador praticava artes marciais com os seus habituais companheiros e n\u00e3o lhe ligou import\u00e2ncia. Somente deu ordens para lhe darem uma cadeira. Uma das pernas do m\u00f3vel fora serrada e Aoboi deu por si esparramado no ch\u00e3o. Segundo as regras da corte imperial Qing, uma quebra de etiqueta por parte de um ministro diante do imperador era considerada um crime. Irado, Kangxi ordenou a sua pris\u00e3o, imediatamente executada pelos seus jovens guerreiros. Aoboi foi julgado, considerado culpado de v\u00e1rios crimes e executado. Kangxi tinha, ent\u00e3o, quinze anos.<\/p>\n<p class=\"p7\">A primeira grande tarefa que se erguia diante do jovem imperador era a unifica\u00e7\u00e3o e pacifica\u00e7\u00e3o de todo o territ\u00f3rio chin\u00eas. Basicamente, dois problemas se levantavam: o rebelde Coxinga, que se refugiara em 1661 na ilha de Taiwan, expulsando os Holandeses e dominando com os seus barcos quase toda a costa da China; e a revolta dos tr\u00eas reinos vassalos do Sul, a Guerra San-fan.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>A guerra San-Fan<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Quando da conquista do poder, os Qing contaram com o apoio de alguns generais Ming no dom\u00ednio de territ\u00f3rios rebeldes no Sul. Estes homens permaneceram \u00e0 frente dos governos das prov\u00edncias submetidas, dotadas de um regime de larga autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao poder central de Pequim. Inclusivamente, beneficiavam de ajudas do governo para a manuten\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p7\">O mais poderoso era o general Wu San-kuei, que participara na tomada de Pequim aos rebeldes, respons\u00e1vel pela derrota dos \u00faltimos aristocratas leais aos Ming, refugiados no Yunnan. Wu, agora \u201cpr\u00edncipe\u201d e governador militar das prov\u00edncias de Yunan e Kweichow, controlava tamb\u00e9m Hunan, Shensi e Gansu. N\u00e3o desmantelara nunca o ex\u00e9rcito que lhe permitira controlar t\u00e3o vastas regi\u00f5es em 1661, quando Kangxi tinha apenas sete anos. Agora, dez anos mais tarde, o seu reino prosperara significativamente.<\/p>\n<p class=\"p7\">Para al\u00e9m de Wu San-kuei, existiam tamb\u00e9m os governadores de Guangdong, Shan Ko-hsi, e de Fujian, Keng-Ching-chung. Foi natural que estes tr\u00eas homens, gra\u00e7as ao seu poderio militar e dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 corte, come\u00e7assem a ser considerados uma amea\u00e7a cada vez mais real por Kangxi. A quest\u00e3o resolveu-se quando, em 1673, Shang Ko-hsi, de Cant\u00e3o, entregou o comando do seu ex\u00e9rcito ao governo central e de bom grado se retirou da vida p\u00fablica. A corte reuniu em conselho para decidir se havia de exigir a mesma atitude aos seus outros reinos vassalos. A maior parte dos conselheiros mostrou temer o bem equipado e treinado ex\u00e9rcito de Wu San-kuei, mas o jovem Kangxi insistiu na ideia de tentar subtrair o ex\u00e9rcito ao general, argumentando que, cedo ou tarde, os reinos finalmente se revoltariam, sendo portanto mais avisado aproveitar a oportunidade para preveni-los da sua determina\u00e7\u00e3o. A guerra foi declarada. Mais tarde, apesar da vit\u00f3ria, vir-se-ia a arrepender da sua decis\u00e3o e escreve: \u201cApesar do Conselho de Pr\u00edncipes e Altos Oficiais n\u00e3o ter concordado comigo em 1673, decidira avan\u00e7ar. Parecera poss\u00edvel, se fossemos suficientemente exaustivos e mostr\u00e1ssemos as nossas boas inten\u00e7\u00f5es na transfer\u00eancia dos tr\u00eas pr\u00edncipes do sul, que a sua \u00fanica alternativa seria aceitar as nossas determina\u00e7\u00f5es\u201d. E vai mais longe na demonstra\u00e7\u00e3o dos seus erros: \u201cUma audi\u00eancia da corte tem a importante fun\u00e7\u00e3o de reduzir a arrog\u00e2ncia. (&#8230;) A exist\u00eancia de audi\u00eancias regulares \u00e9 crucial com os militares, especialmente quando det\u00eam o poder h\u00e1 muito tempo. A rebeli\u00e3o podia n\u00e3o ter acontecido se Wu San-kuei, Keng Ching e Shang Chih-hsin tivessem sido convocados para audi\u00eancias regulares e devidamente atemorizados. Os oficiais da fronteiras tendem a obedecer apenas aos seus pr\u00f3prios comandantes, reconhecendo-os como quem governa\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\">A guerra durar\u00e1 at\u00e9 1681, mesmo para al\u00e9m da morte de Wu San-kuei, que ocorreu em 1678. S\u00f3 depois de liquidadas todas as erup\u00e7\u00f5es de autonomia a sul do Yangtse, se pode falar de um regime Qing, centralizado, equilibrado, que dar\u00e1 origem a um longo per\u00edodo de estabilidade interna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Do outro lado do estreito<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Para completar o puzzle \u2014 sobretudo para controlar a costa chinesa infestada de piratas \u2014 urgia conquistar Taiwan ao rebelde Coxinga. Empurrado para fora do continente chin\u00eas em 1661, Coxinga atacou os Holandeses em Taiwan, com uma armada de novecentos barcos e vinte cinco mil homens, ocupando a ilha e expulsando os estrangeiros. A partir da\u00ed desenvolveu as suas actividades, controlando recursos importantes.<\/p>\n<p class=\"p7\">A mistura explosiva de pirataria e com\u00e9rcio ao longo da costa chinesa atingiu tais propor\u00e7\u00f5es que levou a corte a decretar, em 1662, o encerramento de todas as actividades costeiras de Shandong a Guangdong. Os habitantes deviam ser evacuados, \u00e0 for\u00e7a se necess\u00e1rio, o que provocou grande consterna\u00e7\u00e3o. Pensavam assim diminuir o poder de Coxinga e cortar-lhe as principais fontes de rendimento.<\/p>\n<p class=\"p7\">O rebelde morreu em 1662, mas o filho que lhe sucedeu no trono imediatamente apoiou a revolta do governador de Fujian, quando da Guerra San-Fan, continuando a criar problemas nas orlas costeiras.<\/p>\n<p class=\"p7\">Finalmente, depois da vit\u00f3ria na Guerra San-Fan, havia disponibilidade para pensar em Taiwan. Vale a pena ouvir o pr\u00f3prio imperador sobre os dilemas da expedi\u00e7\u00e3o de 1683:<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cDe novo me avisaram a n\u00e3o nomear o Almirante Shih Lang para liderar a campanha contra Taiwan por ter servido antes a Dinastia Ming e tamb\u00e9m a soldo do rebelde Coxinga e, logo, poder revoltar-se ele pr\u00f3prio se lhe desse navios e tropas. Mas uma vez que os restantes almirantes Chineses asseguravam que Taiwan nunca seria tomada, chamei Shih Lang para uma audi\u00eancia e disse-lhe pessoalmente: \u2018Na corte dizem que vos revoltar\u00e1s quando chegares a Taiwan. \u00c9 minha opini\u00e3o que enquanto n\u00e3o fores enviado a Taiwan a ilha n\u00e3o ser\u00e1 pacificada. N\u00e3o te revoltar\u00e1s, garanto-te.\u2019 Shih Lang capturou Taiwan num \u00e1pice e provou ser um oficial leal. Mesmo desprovido de instru\u00e7\u00e3o e arrogante, compensam-no as suas ferozes capacidades militares e os seus dois filhos t\u00eam-me servido com distin\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>O fim dos conflitos<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">As guerras terminavam e havia tempo para construir a paz mas, curiosamente, o imperador continuava a interrogar-se e a sentir-se culpado pela sua decis\u00e3o abrupta, que precipitara o conflito:<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cTinham decorrido oito anos de amarga guerra e, apesar da paz ter chegado, as feridas estavam por cicatrizar. Eu recusei, e continuei a recusar, todos os pedidos para que me fossem atribu\u00eddos novos t\u00edtulos honor\u00edficos de vencedor porque esta guerra resultara dos meus pr\u00f3prios erros de c\u00e1lculo e a responsabilidade pelo sucedido \u2013 por tudo o que sucedeu \u2013 era minha. Nunca esperei que Wu San-kuei se revoltasse em 1673 quando aceitei os seus pedidos de reforma. Nunca esperei que tantos seguissem Wu quando de facto se revoltou.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">O jovem Kangxi aprendia sobre os trabalhos da Espada, sobre a sua ac\u00e7\u00e3o terr\u00edvel ou sobre o seu poder regenerador. A Espada tanto mata na Guerra como cura na Paz. Como o grande rei Wu, da dinastia Zhou, parecia ter o Mandato do C\u00e9u para usar a for\u00e7a e a estrat\u00e9gia militar para dominar as revoltas internas e expandir as fronteiras do imp\u00e9rio. Agora a tarefa parecia terminada.Unificado o territ\u00f3rio, a aten\u00e7\u00e3o do imperador recai na administra\u00e7\u00e3o do Estado. Seguiam-se os trabalhos do Livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Do conhecimento e da seriedade<\/b><b><\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\"><i>Quando os antigos desejaram difundir a virtude pelo Reino, cuidaram primeiro de ordenar os seus pr\u00f3prios estados. Desejando a boa ordem dos seus estados, primeiro ordenaram as suas pr\u00f3prias fam\u00edlias. Desejando ordenar as suas fam\u00edlias, cultivaram-se primeiro a si pr\u00f3prios. Desejando cultivar-se a si pr\u00f3prios, rectificaram primeiro os seus cora\u00e7\u00f5es. Desejando rectificar os seus cora\u00e7\u00f5es, procuraram primeiro o pensar sincero. Desejando um pensar sincero, ampliaram ao m\u00e1ximo o seu conhecimento. Tal ampliar do conhecimento reside na investiga\u00e7\u00e3o das coisas.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: right;\">Estudo Maior<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p7\">Este par\u00e1grafo, atribu\u00eddo a Conf\u00facio, denota bem da import\u00e2ncia prestada pelo fil\u00f3sofo \u00e0 necessidade de conhecer e de como o conhecimento deve ser um dos objectivos principais dos governantes. Este imperativo foi seguido de muito perto pelo imperador Kangxi, sobretudo atrav\u00e9s da influ\u00eancia que nele exerceram as obras do fil\u00f3sofo confuciano Zhu Xi (1130-1200), cujo pensamento se tornou numa esp\u00e9cie de ortodoxia oficial do regime.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">Um conceito de Zhu Xi agradava particularmente ao imperador: o respeito pela seriedade. Mas, enquanto o fil\u00f3sofo da dinastia Song o aplicava fundamentalmente a um estado mental do indiv\u00edduo, o imperador entendia que devia ser alargado ao dom\u00ednio do pol\u00edtico, isto \u00e9, aplicado na pr\u00e1tica quotidiana. Da\u00ed que tenha criticado com ardor os letrados que n\u00e3o conseguiam conciliar doutrina e ac\u00e7\u00e3o. O imperador considerava que o conceito de seriedade era o mais elevado princ\u00edpio da pr\u00e1tica pol\u00edtica. A sua devo\u00e7\u00e3o a Zhu Xi era tal que mandou compilar as suas obras completas, confessando depois que o tinha feito por sentir uma extrema admira\u00e7\u00e3o pela vida e obra do fil\u00f3sofo. Um pormenor da pedagogia de Zhu Xi agradava particularmente ao imperador: o facto de sublinhar a import\u00e2ncia da aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos atrav\u00e9s dos livros. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Da import\u00e2ncia da leitura<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Desde a inf\u00e2ncia que Kangxi se mostrara apreciador da leitura e da discuss\u00e3o dos grandes temas do saber chin\u00eas. Aos oito anos, interrogava a sua entourage sobre as interpreta\u00e7\u00f5es dos cl\u00e1ssicos confucianos \u201cEstudo Maior\u201d (<i>Da Xue<\/i>) e de \u201cPr\u00e1tica do Meio\u201d (<i>Zhong Yong<\/i>). Mostrava interesse e preocupa\u00e7\u00e3o em perceber a fundo os textos e n\u00e3o apenas cumprir o dever da leitura.<\/p>\n<p class=\"p7\">Outro facto que refor\u00e7a esta ideia \u00e9 a import\u00e2ncia atribu\u00edda por Kangxi ao ching-yen, uma institui\u00e7\u00e3o da corte imperial que consistia em palestras conduzidas por letrados cuidadosamente escolhidos sobre os mesmos cl\u00e1ssicos. O imperador, n\u00e3o somente as impunha numa base di\u00e1ria (ao contr\u00e1rio de outros imperadores que as evitavam como ma\u00e7adoras), como as marcou para as primeiras horas da madrugada, isto \u00e9, antes da sua habitual audi\u00eancia. Findos os deveres de Estado, retomava as discuss\u00f5es que s\u00f3 abandonava quando tinha a certeza de tudo ter correctamente compreendido. Estas palestras n\u00e3o eram suspensas, nem no seu anivers\u00e1rio nem durante as suas expedi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>O ideal de governa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Esta preocupa\u00e7\u00e3o derivava da cren\u00e7a segundo a qual a aprendizagem e a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos est\u00e3o na origem de toda a sabedoria e que esta \u00e9 indispens\u00e1vel ao governante. Os imperadores s\u00e1bios Yao e Shun s\u00e3o os modelos seguidos por Kangxi que deles afirma ser \u201co sucesso da sua governa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais que o resultado da sua sabedoria\u201d. Ora esta sabedoria n\u00e3o podia advir que do \u201cm\u00e9todo de desenvolvimento da mente\u201d (<i>xin-fa<\/i>), o que num sentido alargado se refere ao conhecimento da mente e da natureza como um todo, ou seja, ao conhecimento do <i>Dao<\/i> (Via), algo que s\u00f3 pode ser compreendido pela pr\u00f3pria mente.<\/p>\n<p class=\"p7\">Pode ser atribu\u00edda a Kangxi uma certa obsess\u00e3o pelo conceito de governante ideal. Este ser\u00e1 aquele que consegue conjugar a tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o do Dao, tal como Yao e Shun. Ali\u00e1s, este tinha sido um desejo h\u00e1 muito acalentado pelos letrados confucianos, que no duque de Zhou viam a sua \u00faltima realiza\u00e7\u00e3o. Para estes homens o \u00fanico problema que agora se levantava era o facto de Kangxi ser manch\u00fa, o que de certo modo era contradit\u00f3rio com a expectativa do regresso ao poder dos Han. O fil\u00f3sofo Li Fu (1675-1750) sente esta mesma contradi\u00e7\u00e3o e resolve-a com a seguinte pergunta: \u201cOs imperadores s\u00e1bios Yao e Shun n\u00e3o vieram tamb\u00e9m de terras b\u00e1rbaras?\u201d Parece que a determina\u00e7\u00e3o de Kangxi em juntar na sua pessoa a tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o do Dao, juntamente com a sua grande preocupa\u00e7\u00e3o pelo estudo e observa\u00e7\u00e3o dos ideais de Conf\u00facio, convenceram os letrados chineses da sua \u00e9poca que estavam perante uma nova idade de ouro.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">O imperador criou, em 1686, o \u00c1trio da Transmiss\u00e3o de Sabedoria, um espa\u00e7o destinado ao estudo e venera\u00e7\u00e3o de s\u00e1bios como Conf\u00facio, M\u00eancio e dos nove s\u00e1bios imperadores, isto \u00e9, Fu Xi, Sheng Nung, Hsuan Yuan, Yao, Shun, Yu, Tang, Wen e Wu. Assim praticava o que j\u00e1 antes teorizara: a tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o s\u00f3 podia ganhar legitimidade atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o do Dao.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">O pr\u00f3prio Kangxi escreveria: \u201cPenso que a raz\u00e3o pela qual o C\u00e9u gera s\u00e1bios \u00e9 para os tornar governantes e educadores do povo. A tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o esteve sempre ligada \u00e0 transmiss\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o do Dao. Conf\u00facio, Zeng Zi, Xun Zi e M\u00eancio nasceram depois dos imperadores s\u00e1bios Yao, Shun, Yu e Tang e depois dos reis s\u00e1bios Wen e Wu\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Da autocracia<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Contudo, como em tudo na vida, existe sempre o reverso da medalha. \u00c9 que a separa\u00e7\u00e3o entre a tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o do Dao, bem como o desinteresse dos imperadores por esta \u00faltima, permitira que o seu desenvolvimento se tivesse feito de forma relativamente independente do pr\u00f3prio poder. Agora, com Kangxi, esta independ\u00eancia via-se algo amea\u00e7ada.<\/p>\n<p class=\"p7\">Ao absorver a tradi\u00e7\u00e3o do Dao, o governante pouco espa\u00e7o deixava aos letrados confucianos para que estes, de algum modo, como tinham feito no tempo dos Song e dos Ming, se opusessem ao poder pol\u00edtico. Este aspecto surge muito claramente na cr\u00edtica feita aos letrados daquelas dinastias, segundo a qual a separa\u00e7\u00e3o das duas tradi\u00e7\u00f5es esvaziara o pensamento de uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Indo mesmo mais longe, o fil\u00f3sofo Fei Mi (1625-1701) preconizava que s\u00f3 o detentor do poder poderia transmitir a tradi\u00e7\u00e3o do Dao. Se assim n\u00e3o fosse ent\u00e3o tornava-se numa metaf\u00edsica in\u00fatil e sem aplica\u00e7\u00e3o concreta. Compreende-se que ficam ent\u00e3o lan\u00e7adas as funda\u00e7\u00f5es de Estado autocr\u00e1tico em que poder e saber encontram a sua express\u00e3o m\u00e1xima na pessoa do Soberano.<\/p>\n<p class=\"p7\">Kangxi criou uma inquisi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mas que sempre se mostrou bastante moderada, se a compararmos a outras \u00e9pocas da hist\u00f3ria da China. Sobre a sua ac\u00e7\u00e3o punitiva dos letrados que o hostilizavam, escreveu o imperador:<\/p>\n<p class=\"p9\">\u201cE ainda assim, durante todo o meu reinado apenas mandei executar um acad\u00e9mico por escritos sediciosos, o que foi o caso de Dai Mingshi (<span class=\"s5\">\u6234\u540d\u4e16<\/span>). N\u00e3o s\u00f3 havia escrito e publicado trabalhos estranhos e impertinentes enquanto estudante como mantinha liga\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia Fang, que em tempos havia colaborado com o rebelde Wu Sangui. Ao entrar para a Academia de Hanlin recusara-se a queimar os blocos dos seus trabalhos anteriores. No seu livro <i>Nanshan Ji<\/i>, Dai Mingshi publicara os t\u00edtulos de nobreza dos tr\u00eas pretendentes Ming que haviam prosseguido a luta depois dos Manch\u00fa terem fundado a nova dinastia. Defendia que, se segu\u00edssemos os princ\u00edpios historiogr\u00e1ficos de Conf\u00facio, o reino de Hung-kuang em Nanquim e o reino de Lung-wu em Fukien, e o reino de Yung-li, primeiro em Kwangtung e depois em Yunnan e Kweichow, deveriam ser todos adequadamente registados. Afirmava que o nosso governo tinha imposto a censura, que as pessoas encaravam o tema da queda dos Ming como um assunto proibido, que as provas acerca da conquista estavam a ser gradualmente destru\u00eddas e adulteradas. Afirmava haver toda a esp\u00e9cie de livros do seu conhecimento que n\u00e3o haviam sido entregues \u00e0 Corte \u2013 mesmo t\u00edtulos que o Gabinete de Hist\u00f3ria havia abertamente manifestado interesse em adquirir \u2013 e que sabia de trabalhos por acad\u00e9micos reformados que tinha sido mantidos em segredo. O Conselho de Castigos recomendou que Dai Minshi fosse submetido \u00e0 pena de morte lenta, que todos os seus conhecidos acima de dezasseis anos fossem executados, e todos os parentes do sexo feminino juntamente com as crian\u00e7as fossem escravizados. No entanto, fui misericordioso reduzindo a pena para decapita\u00e7\u00e3o e poupando os seus parentes\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\">\u00c9 verdade que, ao contr\u00e1rio dos seus antecessores e predecessores, Kangxi foi extremamente benevolente mesmo para os letrados que se recusavam a aceitar o dom\u00ednio Qing.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>As Grandes Enciclop\u00e9dias<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">A sua paix\u00e3o pelos livros levou-o a promover a edi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios cl\u00e1ssicos da cultura chinesa. Mas a sua ac\u00e7\u00e3o mais importante foi a encomenda de v\u00e1rias enciclop\u00e9dias que se tornaram no maior reposit\u00f3rio de sempre da cultura chinesa tradicional, desde ent\u00e3o at\u00e9 aos nossos dias. Sem este trabalho cicl\u00f3pico certamente que muito do saber Han se teria perdido para sempre.<\/p>\n<p class=\"p7\">A mais extraordin\u00e1ria destas enciclop\u00e9dias, a <i>Gujin Tushu jicheng<\/i> (<i>Cole\u00e7\u00e7\u00e3o Completa de Escritos e Ilustra\u00e7\u00f5es do Passado e do Presente<\/i>), foi encomendada a Chen Menglei, que tinha sido um opositor dos Qing. S\u00f3 viria a ser publicada em 1726, j\u00e1 no reinado de Yongzhen, que baniu o compilador em 1723, quando da sua subida ao trono.<\/p>\n<p class=\"p7\">A <i>Gujin Tushu jicheng<\/i> \u00e9 composta por seis divis\u00f5es principais, 32 subdivis\u00f5es e compreende 6109 sec\u00e7\u00f5es. Cada uma destas sec\u00e7\u00f5es encontra-se, por sua vez, ordenada em oito tipo de escritos ou fontes liter\u00e1rias: cita\u00e7\u00f5es de fontes cl\u00e1ssicas, ordenadas cronologicamente, quando dat\u00e1veis, ou na ordem tradicional de cl\u00e1ssicos, historiadores, fil\u00f3sofos e literatos; coment\u00e1rios de natureza ortodoxa destes quatro g\u00e9neros liter\u00e1rios; biografias; composi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias; frases seleccionadas pelo seu valor liter\u00e1rio; relatos factuais ou aned\u00f3ticos de menor import\u00e2ncia; cita\u00e7\u00f5es variadas; e, finalmente, materiais menos ortodoxos como fic\u00e7\u00f5es e cita\u00e7\u00f5es de fontes tao\u00edstas e budistas. As suas seis principais divis\u00f5es referem-se, por ordem de import\u00e2ncia a rela\u00e7\u00f5es humanas, geografia, economia pol\u00edtica, artes e ci\u00eancias, literatura e fen\u00f3menos celestes. As subdivis\u00f5es s\u00e3o extensas e abrangem praticamente todas as vertentes do saber humano.<\/p>\n<p class=\"p7\">Para dar uma ideia da sua dimens\u00e3o podemos citar a <i>Encyclopaedia Sinica<\/i>, de Samuel Couling, que em 1917 lhe atribu\u00eda uma dimens\u00e3o quatro vezes superior \u00e0 da Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica. Segundo a mesma fonte, somente o British Museum possui uma edi\u00e7\u00e3o completa, em 745 volumes, certamente sonegada no s\u00e9culo XIX. Ao todo, a <i>Tushu jicheng<\/i> tem cerca de cem milh\u00f5es de caracteres, tendo sido considerada j\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo XX como a maior e mais \u00fatil enciclop\u00e9dia alguma vez compilada na China.<\/p>\n<p class=\"p7\">Para al\u00e9m deste trabalho monumental, Kangxi ordenou ainda a produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias colec\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, de ensaios, de frases c\u00e9lebres ou de grandes autores, dicion\u00e1rios, etc. A sua contribui\u00e7\u00e3o para a preserva\u00e7\u00e3o e dinamismo da cultura chinesa \u00e9 fundamental e incalcul\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Homenagem a Conf\u00facio<\/b><b><\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p11\" style=\"text-align: left;\"><i>Chegado ao Lu de Leste,<br \/>\n<\/i><i>ascendo ao \u00e1trio do Mestre,<br \/>\n<\/i><i>presto liba\u00e7\u00f5es entre as duas colunas.<br \/>\n<\/i><i>Cruzando a alt\u00edssima parede,<br \/>\n<\/i><i>encontro o profundo ensinamento do Mestre,<br \/>\n<\/i><i>que perpetua a tradi\u00e7\u00e3o da Via de Yao e Shun<br \/>\n<\/i><i>e como os rios Chu e Ssu se estende.<br \/>\n<\/i><i>Na floresta toco os leves pinheiros e abetos.<br \/>\n<\/i><i>Solenemente me curvo.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p11\" style=\"text-align: left;\">Kangxi<br \/>\nin Kung Shang-jen, <i>Mem\u00f3ria sobre a visita <\/i><i>do imperador Kangxi ao templo de Conf\u00facio<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p7\">Kangxi visitou Qufu, a cidade de Conf\u00facio, em 1684. Esta visita revestiu-se de um imenso significado, porque constitui o momento em que o imperador definitivamente demonstrou o seu apre\u00e7o e respeito pelo Vener\u00e1vel Mestre. Mas, mais que o homem, Kangxi homenageava as ideias e princ\u00edpios que eram os fundamentos da cultura Han e que haviam de nortear todo o seu reinado.<\/p>\n<p class=\"p7\">Mal chegou ao templo de Conf\u00facio, o imperador desceu da sua liteira e entrou a p\u00e9 no \u00e1trio principal. Nessa entrada, ter\u00e1 escrito que \u201cImperador ou homem do povo todos aqui desmontam do seu cavalo\u201d. A\u00ed inaugurou uma nova vers\u00e3o do ritual normalmente executado pelos governantes: \u201cajoelhou-se tr\u00eas vezes e curvou-se nove, em vez de se ajoelhar duas vezes e se curvar seis\u201d, relata o descendente da fam\u00edlia de Conf\u00facio, Kong Shangren. Nunca um imperador prestara ao S\u00e1bio uma t\u00e3o reverente homenagem. Este facto impressionou grandemente a fam\u00edlia Kong.<\/p>\n<p class=\"p7\">Ao contr\u00e1rio de outros imperadores, que doavam ao templo objectos de prata ou de ouro, Kangxi doou o seu p\u00e1ra-sol dourado e escreveu em louvor a Conf\u00facio uma t\u00e1bua onde se pode ler: \u201cMestre de Dez Mil Gera\u00e7\u00f5es\u201d. O seu objectivo, segundo ele mesmo confessou, era valorizar significativamente os ritos de homenagem a Conf\u00facio. Neste aspecto o comportamento de Kangxi afastava-se significativamente do de outros imperadores que o precederam. Na verdade, foi quase sempre algo tensa a rela\u00e7\u00e3o entre os detentores do poder e os ensinamentos e a pr\u00f3pria fam\u00edlia do Vener\u00e1vel Mestre. A come\u00e7ar por Qin Shi Huang, o fundador da dinastia Qin (221-206 a.C.), que mandou queimar todos os cl\u00e1ssicos confucianos. Os livros s\u00f3 se salvaram porque foram escondidos por um dos membros da nona gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia na Parede Lu, hoje situada em pleno templo, exactamente no local onde dantes ficava a casa de Conf\u00facio. J\u00e1 na dinastia Ming, mais concretamente em 1372, o fundador Ming Tai-tzu proibiu a realiza\u00e7\u00e3o dos sacrif\u00edcios da Primavera e do Outono nos templos confucianos, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o do templo de Qufu. Assim tentava reduzir o culto do Mestre e o seu simbolismo a um local espec\u00edfico, enquanto o seu pr\u00f3prio poder se estendia universal. No entanto, esta proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o durou mais que dez anos.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s6\">\u00c9 preciso compreender o extremo poder e influ\u00eancia que a fam\u00edlia de Conf\u00facio exerceu sempre na China. A cidade de Qufu constitu\u00eda um Estado dentro do pr\u00f3prio Estado, no qual se cobrava uma taxa espec\u00edfica destinada \u00e0 fam\u00edlia Kong. Ainda hoje, j\u00e1 na septuag\u00e9sima sexta gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 talvez a mais antiga fam\u00edlia do mundo, na medida em que pode estabelecer a sua linhagem directa at\u00e9 ao ano 550 a.E.C.. Todos os imperadores sentiam a necessidade de ser reconhecidos pelos Kong como meio de legitimar o seu poder. Este facto era ainda mais verdadeiro para os fundadores das dinastias. Kangxi n\u00e3o foi excep\u00e7\u00e3o mas excepcional foi sem d\u00favida o seu comportamento e o reconhecimento dos Kong. Basta comparar dois tipos de tratamento. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">No ano 85 o imperador Han Changdi visitou Qufu. Depois de cumprir os ritos perguntou a um descendente de Conf\u00facio \u201ca minha visita glorifica o vosso cl\u00e3, n\u00e3o \u00e9 verdade?\u201d, ao que este respondeu \u201caprendemos que nenhum dos nossos s\u00e1bios governantes deixou de respeitar o Mestre e os seus ensinamentos. A visita de Vossa Majestade a este lugar \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de rever\u00eancia pelo Mestre e sem d\u00favida que aumentar\u00e1 a vossa virtude. Quanto \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o do nosso cl\u00e3, n\u00e3o nos atrevemos a aceitar tal honra\u201d. Changdi riu-se e comentou: \u201cS\u00f3 um descendente do S\u00e1bio poderia formular uma t\u00e3o boa resposta\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\">Quando em 1684 Kangxi dirigiu algumas perguntas a Kong Shanren sobre a conserva\u00e7\u00e3o do templo este respondeu: \u201cA maior parte das rel\u00edquias do S\u00e1bio encontram-se em ru\u00ednas. N\u00e3o s\u00e3o merecedoras do olhar e aten\u00e7\u00e3o de Vossa Majestade. No entanto, depois de as olhardes, todas as coisas do templo se tornar\u00e3o instantaneamente preciosas e magn\u00edficas\u201d. Compreende-se a diferen\u00e7a das respostas: a visita imperial conferiu ao imperador Han um acr\u00e9scimo de virtude, enquanto a visita de Kangxi conferia gl\u00f3ria ao pr\u00f3prio templo.<\/p>\n<p class=\"p7\">De notar ainda a visita de Kangxi a Qufu ocorre exactamente um ano depois de ter assegurado a integridade do territ\u00f3rio com a conquista de Taiwan. Chegara o tempo de mostrar aos chineses que estavam no limiar de um per\u00edodo que se pretendia pac\u00edfico e de desenvolvimento. A ida a Qufu acontece no regresso da sua primeira viagem ao Sul, ou seja, depois de ter estado em Suzhou e Nanjing. Na antiga capital, Kangxi realizou um sacrif\u00edcio no t\u00famulo de Taizi, o fundador da dinastia Ming, o que muito surpreendeu os oficiais locais.<\/p>\n<p class=\"p7\">Mas em Suzhou ocorreu um facto ainda mais espantoso: quando da visita a um templo budista, um grupo de monges recebeu o imperador com m\u00fasica; este pegou num instrumento e participou no entretenimento da multid\u00e3o. O povo extremamente espantado irrompeu em vivas ao imperador, que lhes retribuiu os seus cumprimentos.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s6\">Ali\u00e1s, M\u00eancio refere no seu livro (Livro I, Parte B) que \u201cse partilhares os teus divertimentos com o povo, ent\u00e3o ser\u00e1s um verdadeiro Rei\u201d. Compreende-se que Kangxi, com somente trinta anos, conhecia profundamente os ditames confucionistas e, nomeadamente, a import\u00e2ncia que o Vener\u00e1vel Mestre dava ao dom\u00ednio da m\u00fasica. O imperador recorria ao simbolismo confuciano para legitimar a sua dinastia e a si pr\u00f3prio, exibindo uma extraordin\u00e1ria percep\u00e7\u00e3o da cultura Han, se bem que, na realidade nunca tenha perdido a sua identidade manchu. Ao sacrificar junto ao t\u00famulo de Taizi, demonstrava ser herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o, ao reverenciar como nenhum outro Conf\u00facio, assumia-se como herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o da Via.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">O sucesso da presen\u00e7a de Kangxi em Qufu tem como consequ\u00eancias por um lado, o reconhecimento por parte de um governante de origem b\u00e1rbara da import\u00e2ncia do Grande Mestre e da sua absor\u00e7\u00e3o da cultura Han, e por outro, a uni\u00e3o na pessoa do imperador das duas tradi\u00e7\u00f5es normalmente separadas, a tradi\u00e7\u00e3o da Via e a tradi\u00e7\u00e3o da governa\u00e7\u00e3o, o que fez de Kangxi o soberano-s\u00e1bio, h\u00e1 muito esperado por todos os letrados confucianos. Tal como aconteceu quando a m\u00e3e de Conf\u00facio se encontrava gr\u00e1vida do S\u00e1bio, era tempo de surgir um unic\u00f3rnio, o animal m\u00edtico cuja apari\u00e7\u00e3o anuncia a chegada de um s\u00e1bio governante.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">O corvo e as origens mitol\u00f3gicas do povo manchu<br \/>\n<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">H<\/span><span class=\"s2\">\u00e1 muito<\/span>, muito, tempo tr\u00eas irm\u00e3s levavam uma vida muito apraz\u00edvel e confort\u00e1vel no Pal\u00e1cio Celestial. No entanto, sentiam-se muito sozinhas. Um dia que os pais tinham sa\u00eddo do pal\u00e1cio, a mais nova, de seu nome Fu Kulun, disse \u00e0s outras duas: \u201cMinhas irm\u00e3s, os nossos queridos e reais progenitores deixaram-nos aqui para participarem nas Festividades do P\u00eassego. Porque havemos n\u00f3s de ficar para aqui abandonadas? E se tamb\u00e9m sa\u00edssemos?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">As outras duas apressaram-se a concordar. Rapidamente mudaram de roupa e sa\u00edram do Pal\u00e1cio Celestial, montando nas nuvens e deslizando pela neblina. Estavam muito felizes com a beleza de tudo quanto viam \u00e0 sua volta. Em breve passavam por cima de uma cadeia de montanhas cobertas de neve, t\u00e3o resplandecentes que elas tinham dificuldade em manter os olhos abertos. Entre dois picos luzia um enorme lago, de \u00e1gua muito azul, que reflectia o c\u00e9u como um espelho.<\/p>\n<p class=\"p3\">As tr\u00eas irm\u00e3s nunca tinham visto nada que se assemelhasse e muito excitadas n\u00e3o resistiram a banhar-se naquelas \u00e1guas puras. \u201cQual \u00e9 o nome deste lugar e como vamos encontr\u00e1-lo da pr\u00f3xima vez que aqui quisermos voltar?\u201d, perguntou a segunda irm\u00e3 n\u00e3o cabendo em si de alegria.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">\u201cVamos dar-lhes um nome\u201d, respondeu a mais velha, \u201creparem na neve das montanhas, t\u00e3o branca. Vamos chamar-lhes Chang Bei Shan (Montanhas da Brancura Eterna) e j\u00e1 que n\u00f3s vimos do C\u00e9u e nos banh\u00e1mos neste lago vamos por-lhe o nome de Tian Chi (Piscina Celestial). O que pensam disto?\u201d As outras concordaram alegremente e, desde ent\u00e3o, as montanhas e o lago s\u00e3o conhecidos por estes nomes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Entretanto, a irm\u00e3 mais nova come\u00e7ou a sentir-se cansada e com fome, talvez por ter nadado demasiado. Quando procurava algo para comer, viu um grande p\u00e1ssaro negro que voava na sua direc\u00e7\u00e3o com um fruto vermelho no bico. Quando passou por cima dela, o p\u00e1ssaro emitiu um grasnido muito agudo e nesse momento deixou cair o fruto no vestido da rapariga que ainda se encontrava pelo ch\u00e3o. Esta deu uma pequena corrida e apanhou-o. Cheirava deliciosamente. Primeiro, mordeu-o com algum temor, mas depois, devido ao seu sabor inebriante, comeu-o o mais depressa que p\u00f4de. Quase em seguida sentiu-se pesada e muito quente. Em breve experimentou uma grande ternura pelo mundo humano e um estranho desinteresse pelo mundo celestial, que lhe surgia agora muito distante e sem import\u00e2ncia. \u201cIrm\u00e3, veste-te depressa que temos de voltar ao nosso pal\u00e1cio\u201d, disse-lhe a mais velha, arrancando-a aos seus devaneios. Mas ela respondeu que n\u00e3o tinha o menor desejo de voltar a casa.<\/p>\n<p class=\"p3\">As outras duas irm\u00e3s ficaram espantadas e advertiram-na de que se n\u00e3o voltasse o pai ia ficar muito zangado. \u201cMinhas irm\u00e3s, percebi que as minhas ra\u00edzes s\u00e3o aqui e aqui perten\u00e7o. Este lugar pode-me dar tudo aquilo de que preciso. N\u00e3o me interessa se nosso pai ficar zangado\u201d. \u201cMas o que \u00e9 que te fez ter essa opini\u00e3o? \u00c9, de facto, surpreendente\u201d, retorquiu a irm\u00e3o do meio. A outra n\u00e3o respondeu, mas abanou a cabe\u00e7a em sil\u00eancio. S\u00f3 depois de muito instada pelas irm\u00e3s \u00e9 que lhes contou a hist\u00f3ria do fruto e confessou-lhes que tinha a sensa\u00e7\u00e3o de estar gr\u00e1vida.<\/p>\n<p class=\"p3\">As irm\u00e3s ficaram aborrecidas com a hist\u00f3ria e compreenderam que ela n\u00e3o tinha outra alternativa sen\u00e3o permanecer no mundo dos humanos. Mas como poderia sobreviver sozinha naquelas montanhas long\u00ednquas?<\/p>\n<p class=\"p3\">Subiram ao cimo de um pico e viram do outro lado, para al\u00e9m de uma densa floresta, campos de trigo, carneiros, porcos e muito peixe no rio. Assim decidiram lev\u00e1-la para um campo perto das montanhas onde lhe constru\u00edram uma casa numa \u00e1rvore. Logo que tudo ficou preparado, as duas irm\u00e3s mais velhas despediram-se em grande pranto.<\/p>\n<p class=\"p3\">O tempo passou e Fu Kulun deu \u00e0 luz um rapaz. Este era estranhamente forte e, pouco tempo depois de nascer, j\u00e1 sabia falar. Passados alguns anos transformou-se num belo rapaz, muito habilidoso na ca\u00e7a e na pesca. A sua m\u00e3e deu o nome manchu de Aisin Gioro Bukuli Yongshun<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e explicou-lhe que estava fadado pelo deuses a p\u00f4r em ordem o mundo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em seguida, ela arranjou-lhe um pequeno barco e mandou-o rio abaixo, para que encontrasse o seu pr\u00f3prio caminho, e desapareceu. O rapaz, mal se viu sozinho, seguiu as instru\u00e7\u00f5es da m\u00e3e e desceu a correnteza at\u00e9 chegar a um local onde construiu um abrigo com ramos de salgueiro e um colch\u00e3o com as folhas inebriantes do absinto.<\/p>\n<p class=\"p3\">Nesse tempo existiam tr\u00eas tribos que disputavam a terra, lutando ferozmente entre si. Um dia algu\u00e9m foi buscar \u00e1gua ao rio e deparou com Yongshun. Quando voltou \u00e0 aldeia contou o seu encontro aos chefes. Os chefes foram \u00e0 sua procura e assim conheceram esse rapaz t\u00e3o estranho mas de fisionomia agrad\u00e1vel. Ele era t\u00e3o forte e inteligente que as tr\u00eas tribos resolveram cessar os seus combates e nome\u00e1-lo seu chefe. E assim Yongshun tornou-se no primeiro antepassado dos Manchus, cujos descendentes s\u00e3o, por isso, excelentes ca\u00e7adores e pescadores. Os carneiros, os porcos e o trigo que a sua m\u00e3e vira do cimo da Montanha da Brancura Eterna tornaram-se nos seus meios de subsist\u00eancia, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">A pesca e a ca\u00e7a contribu\u00edram para formar o car\u00e1cter duro e corajoso dos Manchus, mas tamb\u00e9m os tornaram gente impiedosa. Anos mais tarde, quando as tribos j\u00e1 n\u00e3o podiam suportar mais os desvarios dos descendentes de Yongshun, revoltaram-se e a sua vingan\u00e7a foi brutal.<\/p>\n<p class=\"p3\">A revolta e outras que seguiram deixaram apenas um rapaz manchu vivo que se lan\u00e7ou numa fuga desesperada, perseguido por tropas a cavalo. Numa curva da estrada, o rapaz tentou esconder-se, mas os seus inimigos estavam muito perto. Quando estes estavam prestes a chegar, um enorme corvo desceu dos c\u00e9us e escondeu-o sob as suas gigantescas asas. Os soldados passaram e n\u00e3o o descobriram. O rapaz salvou-se e com o tempo recuperou o seu poder e prosperidade. Desde ent\u00e3o, os Manchus t\u00eam grande respeito ao Corvo e prestam-lhe homenagem, porque foi ele, esse grande p\u00e1ssaro negro, que salvou o seu antepassado.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] \u201cQuase diariamente, levava os meus filhos a praticar tiro ao alvo com a minha guarda pessoal. Dizia-lhes que n\u00e3o perdessem as suas tradi\u00e7\u00f5es manchus mesmo em coisas como o vestir, a comida, os utens\u00edlios, que n\u00e3o se deixassem tingir demasiado pelos h\u00e1bitos Chineses como sucedeu com os \u00faltimos governantes Jin e Yuan. 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