{"id":86,"date":"2025-05-13T10:18:27","date_gmt":"2025-05-13T02:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=86"},"modified":"2025-05-14T14:39:03","modified_gmt":"2025-05-14T06:39:03","slug":"du-fu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/05\/13\/du-fu\/","title":{"rendered":"\u675c\u752b"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]Natural de prov\u00edncia de Henan, Du Fu (712-770) \u00e9 com Li Bai, de quem foi amigo, o representante da mais depurada e genial poesia chinesa de sempre. Teve uma passagem c\u00e9lere pela corte mas, nos \u00faltimos trinta anos da sua vida, viveu quase na mis\u00e9ria, pobre e doente. De tudo isso e das guerras cru\u00e9is que na \u00e9poca assolaram o Imp\u00e9rio, deu testemunho na sua poesia. Du Fu trabalhava incessantemente os seus poemas, procurando rebuscadas e complicad\u00edssimas rimas tonais e internas, \u00e0 mistura com a utiliza\u00e7\u00e3o de um vocabul\u00e1rio soberbo\u00a0e original. Deixou-nos 1.400 poemas.\u00a0Morreu aos 58 anos, na\u00a0mais absoluta pobreza,\u00a0na companhia da\u00a0mulher e dos filhos\u00a0na barca onde\u00a0descia o rio Xiang,\u00a0na prov\u00edncia\u00a0de Hunan.\u00a0Aqui apresentamos v\u00e1rios poemas traduzidos para l\u00edngua portuguesa, por ilustres poetas e tradutores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Para Li Bai<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tu escreves como o p\u00e1ssaro canta.<\/p>\n<p>Teu gorjeio? Versos.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o cantasses, as madrugadas seriam menos rubras<\/p>\n<p>E os crep\u00fasculos menos azuis.<\/p>\n<p>Quando a embriagu\u00eas te inspira<\/p>\n<p>Os Imortais inclinam-se das nuvens para te escutar,<\/p>\n<p>O tempo suspende seu voo,<\/p>\n<p>O amante esquece a sua amada<\/p>\n<p>Tu \u00e9s o sol e n\u00f3s, os outros poetas,<\/p>\n<p>Somos apenas estrelas.<\/p>\n<p>Acolhe, \u00f3 meu amigo,<\/p>\n<p>O balbucio do meu respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Cec\u00edlia Meireles<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O imperador<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Olha. O Filho do C\u00e9u, em trono de ouro,<\/p>\n<p>E adornado com ricas pedrarias,<\/p>\n<p>Os mandarins escuta: \u2013 um sol parece<\/p>\n<p>De estrelas rodeado.<\/p>\n<p>Os mandarins discutem gravemente<\/p>\n<p>Coisas muito mais graves. E ele? Foge-lhe<\/p>\n<p>O pensamento inquieto e distra\u00eddo<\/p>\n<p>Pela janela aberta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m, no pavilh\u00e3o de porcelana,<\/p>\n<p>Entre donas gentis est\u00e1 sentada<\/p>\n<p>A imperatriz, qual flor radiante e pura<\/p>\n<p>Entre vi\u00e7osas folhas.<\/p>\n<p>Pensa no amado esposo, arde por v\u00ea-lo,<\/p>\n<p>Prolonga-se-lhe a aus\u00eancia, agita o leque&#8230;<\/p>\n<p>Do imperador ao rosto um sopro chega<\/p>\n<p>De rescendente brisa.<\/p>\n<p>\u201cVem dela este perfume\u201d, diz, e abrindo<\/p>\n<p>Caminho ao pavilh\u00e3o da amada esposa,<\/p>\n<p>Deixa na sala olhando-se em sil\u00eancio<\/p>\n<p>Os mandarins pasmados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Machado de Assis<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Reflexos<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou rio abaixo vogando<\/p>\n<p>No meu batel e ao luar;<\/p>\n<p>Nas claras \u00e1guas fitando,<\/p>\n<p>Fitando o olhar.<\/p>\n<p>Das \u00e1guas vejo no fundo,<\/p>\n<p>Como por um branco v\u00e9u,<\/p>\n<p>Intenso, calmo, profundo,<\/p>\n<p>O azul do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Nuvem que no c\u00e9u flutua,<\/p>\n<p>Flutua n\u2019\u00e1gua tamb\u00e9m;<\/p>\n<p>Se a lua cobre, \u00e0 outra lua<\/p>\n<p>Cobri-la vem.<\/p>\n<p>Da amante que me extasia,<\/p>\n<p>Assim, na ardente paix\u00e3o,<\/p>\n<p>As raras gra\u00e7as copia<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Machado de Assis<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A calma<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embala o Nan-Tsin uma lua d\u2019Outono<\/p>\n<p>Que, arg\u00eantea, reflecte a cristalina \u00e1gua.<\/p>\n<p>Remo mais devagar: que me toma essa m\u00e1goa,<\/p>\n<p>Vou vogando ao luar, em meu triste abandono\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Mattos Sobral Cid<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Ode aos Oito Imortais do Vinho<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>He Zhizhang, a cavalo, oscila como um barco,<\/p>\n<p>os olhos brilham, se cair num po\u00e7o continuar\u00e1<\/p>\n<p>a dormir.<\/p>\n<p>Ru Yang, um nobre a caminho da corte,<\/p>\n<p>ap\u00f3s tr\u00eas potes de aguardente, se chocar<\/p>\n<p>com uma carro\u00e7a de vinho,<\/p>\n<p>a baba vai escorrer-lhe da boca.<\/p>\n<p>Ambiciona ser pr\u00edncipe nas nascentes do vinho.<\/p>\n<p>Li Shizhi, o antigo primeiro-ministro,<\/p>\n<p>Num s\u00f3 dia esbanja dez mil moedas em vinho,<\/p>\n<p>emborca como uma baleia,<\/p>\n<p>\u00e9 capaz de beber n\u00e9ctares de cem rios,<\/p>\n<p>ta\u00e7a nos l\u00e1bios, prefere o vinho claro ao vinho turvo,<\/p>\n<p>transformando-se, diz ele, num homem melhor.<\/p>\n<p>Cui Zhongzhi, despreocupado, t\u00e3o jovem, t\u00e3o bonito,<\/p>\n<p>ergue a ta\u00e7a, o branco dos olhos no azul do c\u00e9u,<\/p>\n<p>puro, iluminado com uma \u00e1rvore de jade ao vento.<\/p>\n<p>Su Jin jurou sdiante de Buda n\u00e3o mais comer carne, nem peixe.<\/p>\n<p>Mas b\u00eabado como um cacho, esquece todos os princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Li Bai, um jarro de vinho e nascem cem poemas,<\/p>\n<p>Adormece numa taberna da capital,<\/p>\n<p>O imperador manda-o chamar, recusa comparecer<\/p>\n<p>e diz:<\/p>\n<p>\u201cQue sua Majestade saiba,<\/p>\n<p>este seu s\u00fabito \u00e9 o imortal do vinho!\u201d<\/p>\n<p>Zhang Su, depois de tr\u00eas canecos,<\/p>\n<p>tira o chap\u00e9u, mostra a careca a pr\u00edncipes<\/p>\n<p>e condes,<\/p>\n<p>caligrafa caracteres cursivos como um santo,<\/p>\n<p>o pincel corre no papel como fumo nas nuvens.<\/p>\n<p>Jiao Sui, com cinco jarros de vinho,<\/p>\n<p>Liberta o cora\u00e7\u00e3o, fala como um deus,<\/p>\n<p>A suprema eloqu\u00eancia, o pasmo em todos os<\/p>\n<p>convivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Lamento pela minha cabana destru\u00edda\u00a0<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>pelo vento do Outono<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No oitavo m\u00eas, em pleno Outono, o vento ruge, col\u00e9rico,<\/p>\n<p>E leva num turbilh\u00e3o as tr\u00eas camadas de palha da minha cabana.<\/p>\n<p>O colmo voa, atravessa o rio, espalha-se pela ribanceira,<\/p>\n<p>O que voa alto fica suspenso nos ramos da grande floresta,<\/p>\n<p>O que voa baixo vai girando a cair nas ravinas.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as da aldeia do sul riem-se da fraqueza da minha velhice,<\/p>\n<p>T\u00eam a aud\u00e1cia de me roubar \u00e0s claras,<\/p>\n<p>Abertamente arrancam o colmo e fogem por entre os bambus.<\/p>\n<p>Grito at\u00e9 ficar com a boca seca, n\u00e3o adianta nada,<\/p>\n<p>Volto para casa, suspiro apoiado ao meu bast\u00e3o.<\/p>\n<p>O vento cessa bruscamente mas as nuvens continuam negras,<\/p>\n<p>O c\u00e9u de outono \u00e9 silencioso e escurece com o vir da tarde.<\/p>\n<p>Os len\u00e7\u00f3is e cobertas s\u00e3o velhos, frios como ferro,<\/p>\n<p>As crian\u00e7as, sens\u00edveis, rasgaram-nos com pontap\u00e9s,<\/p>\n<p>todos os leitos do aposento s\u00e3o h\u00famidos, n\u00e3o h\u00e1 um lugar seco.<\/p>\n<p>Sinto c\u00e3ibras nas pernas, n\u00e3o as posso estender,<\/p>\n<p>Aflijo-me, lamento-me, durmo muito pouco,<\/p>\n<p>A noite \u00e9 longa e h\u00famida como a poderei passar?<\/p>\n<p>Quem pudesse construir um vasto edif\u00edcio com milhares de pe\u00e7as,<\/p>\n<p>Imenso, que protegesse todos os que t\u00eam frio no mundo,<\/p>\n<p>Deixando-os de rosto feliz!<\/p>\n<p>O vento e a chuva n\u00e3o o poderiam destruir,<\/p>\n<p>seria s\u00f3lido como uma rocha.<\/p>\n<p>Ai de mim, quando chegar\u00e1 o momento<\/p>\n<p>de ver, de repente, essa casa aparecer diante dos meus olhos?<\/p>\n<p>Minha cabana desmoronou-se.<\/p>\n<p>Aqui vou morrer do frio que entra. E tudo estar\u00e1 bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Cec\u00edlia Meireles<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>M\u00fasica celestial<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando soam as flautas em Chincheng,<\/p>\n<p>\u00c9 perturbada a luz do dia claro.<\/p>\n<p>Vai com as nuvens, com a brisa suave,<\/p>\n<p>O som que se difunde pelos ares,<\/p>\n<p>N\u00e3o podem ser ouvidos os seus ecos,<\/p>\n<p>Que ascendem \u00e0s mans\u00f5es celestiais.<\/p>\n<p>\u00c9 m\u00fasica dos C\u00e9us, pertence aos deuses<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser escutada por mortais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Francisco de Carvalho e Rego<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma flauta toca<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Murmura a brisa Noite como esta<\/p>\n<p>me traz o som as hordas b\u00e1rbaras<\/p>\n<p>da flauta clara no Norte entraram.<\/p>\n<p>l\u00e1 na montanha E a melodia<\/p>\n<p>enluarada. me acompanhava<\/p>\n<p>Onde haver\u00e1 na longa via<\/p>\n<p>flauta tocada em que fugia<\/p>\n<p>no cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao Sul.<\/p>\n<p>que me retorne Quando o salgueiro<\/p>\n<p>ao lar? os remos pende<\/p>\n<p>Da brisa o som na noite fria<\/p>\n<p>enche-me as salas nus.<\/p>\n<p>tal como o luar No triste inverno<\/p>\n<p>cobre as montanhas como esperar<\/p>\n<p>e os vales. pelo milagre<\/p>\n<p>de lhe nascerem folhas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Jorge de Sena<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Da guerra<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apeio-me do cavalo num antigo campo de batalha.<\/p>\n<p>Cobrem-no inteiramente as ervas selvagens,<\/p>\n<p>O vento geme, as nuvens deslizam,<\/p>\n<p>em torno de mim tombam as folhas ressequidas.<\/p>\n<p>As formigas correm c\u00e9leres sobre as ossadas.<\/p>\n<p>As plantas trepadeiras enla\u00e7am os cr\u00e2nios vazios.<\/p>\n<p>Caminho longo tempo e suspiro a cada passo<\/p>\n<p>perante o horizonte desolado.<\/p>\n<p>Que sejam malditas as guerras e os combates,<\/p>\n<p>terror dos jovens e dos velhos.<\/p>\n<p>Aqui jazem no mesmo p\u00f3<\/p>\n<p>tanto os generais como os soldados.<\/p>\n<p>Diz-se: tiraremos a desforra<\/p>\n<p>havemos de venc\u00ea-los aman\u00e3.<\/p>\n<p>Mas nos campos desertos vagueiam, s\u00f3s,<\/p>\n<p>velhos cobertos de farrapos e a morrer de fome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Ramos Rosa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Lua Cheia<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Solit\u00e1ria a lua cheia suspensa<\/p>\n<p>sobre uma casa na margem do rio<\/p>\n<p>Debaixo da ponte corre a \u00e1gua nocturna<\/p>\n<p>Est\u00e1 vivo o oiro derramado no rio<\/p>\n<p>O meu cobertor brilha mais que seda preciosa<\/p>\n<p>As montanhas silenciosas sem ningu\u00e9m<\/p>\n<p>O c\u00edrculo sem m\u00e1cula \u2013 a lua<\/p>\n<p>gira entre as constela\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Floresce uma \u00e1rvore<\/p>\n<p>A mesma gl\u00f3ria banha dez mil l\u00e9guas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Jorge Sousa Braga<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Nas margens do rio<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos os dias regresso a b\u00eabado<\/p>\n<p>Mesmo que para isso tenha que empenhar<\/p>\n<p>alguma pe\u00e7a de roupa<\/p>\n<p>ou pedir dinheiro emprestado<\/p>\n<p>Poucos homens lograram atingir a minha idade<\/p>\n<p>Olho as borboletas amarelas<\/p>\n<p>sorvendo o n\u00e9ctar mais \u00edntimo das flores<\/p>\n<p>e as libelinhas a rasarem a superf\u00edcie das \u00e1guas<\/p>\n<p>E grito ao vento da primavera \u00e0 luz<\/p>\n<p>e ao tempo: \u00e9 t\u00e3o curta a vida<\/p>\n<p>Para qu\u00ea desperdi\u00e7\u00e1-la com querelas f\u00fateis<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Jorge Sousa Braga<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Olhando a primavera<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pa\u00eds em ru\u00ednas<\/p>\n<p>Rios e colinas permanecem<\/p>\n<p>Cidades na Primavera<\/p>\n<p>\u00c1rvores e folhas renascem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tempos assim<\/p>\n<p>Tiram l\u00e1grimas das flores.<\/p>\n<p>Separado do seu par<\/p>\n<p>Treme o cora\u00e7\u00e3o da ave.<\/p>\n<p>Os fogos da guerra<\/p>\n<p>J\u00e1 juntaram tr\u00eas luas.<\/p>\n<p>As novas da casa<\/p>\n<p>Valem agora uma fortuna.<\/p>\n<p>Uma cabe\u00e7a grisalha,<\/p>\n<p>A cada infort\u00fanio dilacerada.<\/p>\n<p>E o cabelo que rareia,<\/p>\n<p>J\u00e1 nem o alfinete o segura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Gil de Carvalho<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Pensamentos nocturnos<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ervas rasteiras,<\/p>\n<p>Brisa suave<\/p>\n<p>Sozinho na noite<\/p>\n<p>Sob o mastro alto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As estrelas suispensas<\/p>\n<p>Sob a vasta plan\u00edcie<\/p>\n<p>A lua ondula<\/p>\n<p>Corre o grande rio.<\/p>\n<p>Vem das obras, a fama?<\/p>\n<p>O letrado retira-se velho<\/p>\n<p>E doente, sempre errante<\/p>\n<p>Quem sou eu sen\u00e3o uma<\/p>\n<p>Uma gaivota entre c\u00e9u e terra?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Gil de Carvalho<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A beldade abandonada<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Filha de fam\u00edlia ilustre e poderosa<\/p>\n<p>que o tempo reduziu a erva e p\u00f3,<\/p>\n<p>vive hoje esquecida num vale solit\u00e1rio<\/p>\n<p>e n\u00e3o havia mulher mais bonita do que ela!<\/p>\n<p>Mortos os irm\u00e3os nas rebeli\u00f5es do imp\u00e9rio,<\/p>\n<p>cargos, honrarias n\u00e3o lhes salvaram a vida,<\/p>\n<p>ningu\u00e9m encontrou os seus corpos.<\/p>\n<p>O mundo n\u00e3o se ocupa de quem passa,<\/p>\n<p>a fortuna \u00e9 chama de uma vela ao vento.<\/p>\n<p>Seu marido, o cora\u00e7\u00e3o em viagem,<\/p>\n<p>procurou nova mulher, bela como jade.<\/p>\n<p>As flores sabem quando desce a noite,<\/p>\n<p>quando os patos-mandarins nadam lado a lado.<\/p>\n<p>Ele s\u00f3 v\u00ea o sorriso da jovem concubina,<\/p>\n<p>n\u00e3o ouve o pranto da antiga esposa.<\/p>\n<p>Puras as \u00e1guas dos regatos na montanha,<\/p>\n<p>lamacentas, sujas ao chegar \u00e0 plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Ela mandou a criada vender algumas p\u00e9rolas,<\/p>\n<p>comprou comida e colmo para cobrir o telhado.<\/p>\n<p>Agora colhe flores, n\u00e3o para enfeitar os cabelos,<\/p>\n<p>nos dedos, j\u00e1 se soltam os an\u00e9is.<\/p>\n<p>Esquecendo o ar g\u00e9lido nas mangas de seda,<\/p>\n<p>encosta-se aos bambus e olha o p\u00f4r-do-sol.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>\u00c9brio, uma can\u00e7\u00e3o<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos ascenderam ao topo da hierarquia,<\/p>\n<p>tu, meu amigo, continuas a padecer ao frio.<\/p>\n<p>Nas grandes mans\u00f5es, empanturrados com iguarias,<\/p>\n<p>tu, meu amigo, mal consegues uma malga de arroz.<\/p>\n<p>A tua filosofia, um cora\u00e7\u00e3o cristalino, pouca ambi\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>o teu talento, superior ao dos letrados do passado.<\/p>\n<p>Respeitado pela tua virtude, condenado, sem gl\u00f3ria,<\/p>\n<p>a deixar o teu nome para al\u00e9m dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>\u00c9s um r\u00fastico que n\u00e3o \u00e9 desta terra,<\/p>\n<p>de cabelos finos, motivo de mofa e zombaria.<\/p>\n<p>Queres arroz, vais ao celeiro imperial,<\/p>\n<p>obt\u00e9ns ainda cinco colheres por dia,<\/p>\n<p>mas se queres abrir o cora\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>vem ter comigo, meu amigo.<\/p>\n<p>Quando ganho umas tantas moedas,<\/p>\n<p>cuido de ti, vamos gast\u00e1-las em vinho.<\/p>\n<p>Que nos interessa a pompa, o luxo, as cortesias,<\/p>\n<p>somos gente simples, descuidada e livre!&#8230;<\/p>\n<p>Meu mestre, enchemos, bebemos as ta\u00e7as at\u00e9 ao fim,<\/p>\n<p>em sil\u00eancio na noite da Primavera.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, a chuva fina como flores<\/p>\n<p>caindo dos telhados, apagando as lanternas.<\/p>\n<p>Entoamos c\u00e2nticos, animados, iluminados<\/p>\n<p>por esp\u00edritos a montante, a jusante do rio.<\/p>\n<p>Para qu\u00ea pensar tanto no destino?<\/p>\n<p>Sim, a fome, e por t\u00famulo, uma vala qualquer.<\/p>\n<p>Outrora, um grande poeta lavava canecas de vinho,<\/p>\n<p>um ilustre letrado lan\u00e7ou-se de uma torre.<\/p>\n<p>Quem somos n\u00f3s, no fim de tudo?<\/p>\n<p>Melhor retirarmo-nos cedo, voltar a lavrar a terra,<\/p>\n<p>cuidar dos telhados de colmo, dos caminhos, do musgo.<\/p>\n<p>Os ensinamentos de Conf\u00facio, afinal para que servem?<\/p>\n<p>S\u00e1bio, salteador de estradas, todos regressam ao p\u00f3.<\/p>\n<p>Para qu\u00ea tanta tristeza, tanto queixume?<\/p>\n<p>Estamos vivos, vamos beber umas ta\u00e7as de vinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O recrutador de Shihao<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cheguei esta noite \u00e0 aldeia de Shihao,<\/p>\n<p>veio tamb\u00e9m um oficial para alistar soldados.<\/p>\n<p>Um homem, j\u00e1 idoso, saltou um muro e fugiu<\/p>\n<p>mas a esposa teve de falar com o militar<\/p>\n<p>que gritava, col\u00e9rico, enquanto a mulher chorava.<\/p>\n<p>\u201cTenho tr\u00eas filhos soldados na guarni\u00e7\u00e3o de Yue,<\/p>\n<p>acabei de receber carta de um deles e a not\u00edcia<\/p>\n<p>da morte dos outros dois no campo de batalha.<\/p>\n<p>Os mortos est\u00e3o para sempre mortos,<\/p>\n<p>sentimos vergonha por continuar vivos.<\/p>\n<p>Agora, resta apenas o meu neto,<\/p>\n<p>um beb\u00e9 mamando numa pobre m\u00e3e coberta de farrapos.<\/p>\n<p>Eu, velha, sem for\u00e7as, posso partir convosco,<\/p>\n<p>se necess\u00e1rio esta noite mesmo,<\/p>\n<p>poderei servir em Heyang, cozinharei para as tropas.\u201d<\/p>\n<p>Perderam-se as palavras na escurid\u00e3o da noite,<\/p>\n<p>ouviram-se, de quando em quando, solu\u00e7os confusos.<\/p>\n<p>Ao amanhecer, ao retomar a jornada,<\/p>\n<p>apenas o velho se despediu de mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Subindo \u00e0s alturas<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O vento cortante, o c\u00e9u alto,<\/p>\n<p>o triste guinchar dos macacos,<\/p>\n<p>Na pequena ilha l\u00edmpida de areia branca<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros voam, voltam em c\u00edrculos.<\/p>\n<p>O assobio ilimitado das folhas que caem<\/p>\n<p>O Grande Rio infind\u00e1vel<\/p>\n<p>que se aproxima, rolando.<\/p>\n<p>Sou o viajante da dist\u00e2ncia infinita<\/p>\n<p>do triste Outono.<\/p>\n<p>Cem anos, muito doente, s\u00f3,<\/p>\n<p>subo ao terra\u00e7o.<\/p>\n<p>Na adversidade, no \u00f3dio amargo,<\/p>\n<p>abundam os cabelos brancos,<\/p>\n<p>Infeliz, no pavilh\u00e3o novo,<\/p>\n<p>com um copo de vinho turvo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tradu\u00e7\u00e3o Alexandre Li Ching[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]Natural de prov\u00edncia de Henan, Du Fu (712-770) \u00e9 com Li Bai, de quem foi amigo, o representante da mais depurada e genial poesia chinesa de sempre. 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