{"id":871,"date":"2025-10-17T21:06:35","date_gmt":"2025-10-17T13:06:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=871"},"modified":"2025-10-17T21:06:44","modified_gmt":"2025-10-17T13:06:44","slug":"preservar-a-identidade-uma-historia-da-cozinha-macaense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/17\/preservar-a-identidade-uma-historia-da-cozinha-macaense\/","title":{"rendered":"Preservar a identidade \u2013 uma hist\u00f3ria da cozinha macaense"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">Q<span class=\"s1\">uando <\/span>se pergunta a um macaense porque \u00e9 que ele ou ela sente macaense, as respostas variam. Alguns dir\u00e3o que se sente parte da vida da comunidade e dos encontros sociais. Outros colocar\u00e3o \u00eanfase nas tradi\u00e7\u00f5es e costumes. Um terceiro grupo reivindicar\u00e1 a influ\u00eancia de uma educa\u00e7\u00e3o religiosa ou de ter estudado em portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\">Apesar destas diferentes raz\u00f5es, os macaenses concordam que a comida macaense com os seus pratos ic\u00f3nicos e representativos, a maioria dos quais receitas centen\u00e1rias, \u00e9 \u00fanica. A cozinha macaense identifica e preserva a hist\u00f3ria dos macaenses, tornando-os um grupo distinto de qualquer outro grupo ou etnia. A gastronomia macaense \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da identidade macaense.<\/p>\n<p class=\"p3\">A cozinha representada pelos pratos da tradicional <i>Sent\u00e1 Mesa<\/i> e <i>Ch\u00e1 Gordo<\/i> s\u00e3o passos numa viagem marcada por s\u00e9culos de hist\u00f3ria e interac\u00e7\u00e3o social entre os macaenses que forjaram e consolidaram a sua identidade.<\/p>\n<p class=\"p3\">Isto levanta a quest\u00e3o de saber porque raz\u00e3o os acontecimentos hist\u00f3ricos por si s\u00f3 n\u00e3o constroem um sentimento de perten\u00e7a nem criam uma mem\u00f3ria colectiva. N\u00e3o houve contribui\u00e7\u00e3o dos portugueses que governaram Macau durante s\u00e9culos? N\u00e3o houve influ\u00eancia dos chineses, japoneses ou outras influ\u00eancias orientais no desenvolvimento da identidade macaense? Obviamente, houve um impacto das culturas portuguesa, chinesa, japonesa e de outras culturas orientais que enriqueceu a identidade macaense. A partir desta interac\u00e7\u00e3o, a cozinha macaense evoluiu, um processo semelhante a outras culin\u00e1rias no mundo. Por exemplo, o esparguete, inquestionavelmente de origem oriental, \u00e9 hoje reconhecido como genuinamente italiano.<\/p>\n<p class=\"p3\">Os pratos da cozinha macaense permitem aos macaenses conhecer a origem hist\u00f3rica por detr\u00e1s de cada prato. Abrem uma janela para revisitar a hist\u00f3ria e examinar a maquilhagem e o desenvolvimento deste grupo \u00e9tnico.<\/p>\n<p class=\"p3\">As receitas da cozinha macaense s\u00e3o extraordinariamente ricas e, como investigador, considero-as um arquivo vivo da hist\u00f3ria macaense.<\/p>\n<p class=\"p3\">Da\u00ed,<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>mi\u00e7\u00f3 crist\u00e3o<\/i> (miso crist\u00e3o) mostra a influ\u00eancia dos crist\u00e3os japoneses e Filhos da terra (descendentes de homens portugueses casados com mulheres locais) de Nagasaki atestando uma identifica\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Galinha di portugu\u00eas<\/i> retrata a associa\u00e7\u00e3o de Filhos da terra e contrabandistas chineses numa guerra contra os holandeses para que Timor pudesse continuar a ser portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Minchi<\/i>, o prato ic\u00f3nico dos crist\u00e3os japoneses exilados e esquecidos e Filhos da terra de Nagasaki e outras cidades do Jap\u00e3o que ajudaram a construir a igreja de S\u00e3o Paulo, hoje um s\u00edmbolo reconhecido de Macau.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Peixe t\u00eampora<\/i>, conhecido entre os macaenses como <i>peixe temp\u2019ra<\/i>, foi levado para o Jap\u00e3o pelos jesu\u00edtas no s\u00e9culo XVI, tornando-se tempura, o prato mais conhecido da cozinha japonesa. <i>Peixe t\u00eamp\u2019ra<\/i> foi tamb\u00e9m levado para a regi\u00e3o portuguesa da Extremadura por marinheiros e monges que regressaram, tornando-se <i>peixinhos da horta<\/i> com feij\u00f5es verdes de forma semelhante aos pequenos peixes, um substituto do biqueir\u00e3o original utilizado em Macau.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">&#8211; <i>Balich\u00e3<\/i> ou <i>balich\u00e3o<\/i>, uma pasta de camar\u00e3o desenvolvida por mulheres macaenses, foi posteriormente adoptada pela cozinha chinesa. Foi descrita por Austin Coates, um historiador brit\u00e2nico, como uma contribui\u00e7\u00e3o importante para a cozinha do Oriente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Alguns pratos macaenses s\u00e3o apresentados por alguns autores como adapta\u00e7\u00f5es de antigas receitas portuguesas utilizando ingredientes locais. Os exemplos seguintes s\u00e3o uma ilustra\u00e7\u00e3o limitada sobre como as semelhan\u00e7as entre pratos podem levar a conclus\u00f5es que a hist\u00f3ria contradiz:<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Sar\u00e3 surabe<\/i>, um bolo macaense \u00e9 apresentado como sendo baseado na receita de fatias da China. <i>Fatias da China<\/i> aparece em Portugal por volta de 1876. O nome foi alterado no final do s\u00e9culo XIX para <i>Fatias de Tomar<\/i>. Vale a pena notar que <i>sar\u00e3 surabe<\/i>, significa ninho de p\u00e1ssaro no bazar malaio. Aparece primeiro em Macau durante a segunda metade do s\u00e9culo XVI, mais tarde levada para a regi\u00e3o da Extremadura em Portugal por monges e tripulantes de navios que regressam. Chamavam ao bolo <i>fatias da China<\/i>, uma lembran\u00e7a da Cidade do Nome de Deus na China, como a cidade de Macau era conhecida em documentos portugueses mais antigos.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Pan pan di mam\u00e3<\/i> (p\u00e3o da m\u00e3e) foi mostrado com base na receita do p\u00e3o de Deus que aparece nas padarias portuguesas no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX. No entanto, o <i>pan di mam\u00e3<\/i> \u00e9 descrito em pormenor em Ou-Mun Kei-Leok (<span class=\"s3\">\u6fb3\u9580\u8a18\u7567<\/span>), o mais importante e completo reposit\u00f3rio chin\u00eas de observa\u00e7\u00e3o factual e costume de Macau publicado em 1775, como um p\u00e3o de origem macaense.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Chau chau parida<\/i> \u00e9 um prato fortificado dado \u00e0s mulheres ap\u00f3s o parto. Uma sopa ou canja \u00e9 mencionada no <i>Col\u00f3quio dos simples e drogas e coisas da \u00cdndia<\/i> de Garcia da Horta, publicado em Goa em 1563. A receita de <i>Chau chau parida<\/i>, contudo, \u00e9 feita com ingredientes indicados na <i>Farmacopeia Chinesa de Mat<\/i>\u00e9<i>ria Medica<\/i> (<span class=\"s3\">\u672c\u8349\u7db1\u76ee<\/span> <i>Pun Ch\u2019ou K\u00f3ng M\u00f4k- Princ\u00edpios e Esp\u00e9cies de Ra\u00edzes e Ervas<\/i>) compilada por Lei Si-Tch\u00e2n entre 1552-1578 e distribu\u00edda pela ervan\u00e1ria em Macau. Embora com o mesmo objectivo, os ingredientes e os m\u00e9todos de cozedura s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; <i>Arroz doce<\/i> \u00e9 considerada hoje uma sobremesa portuguesa quintessencial e est\u00e1 inclu\u00eddo no livro de cozinha de Domingos Rodrigues publicado em 1680 com o nome de <i>arroz doce do Jap\u00e3o<\/i> e no livro de cozinha de Jo\u00e3o da Mata de 1875 como simplesmente <i>arroz doce<\/i>. No entanto, o arroz doce do Jap\u00e3o, como o nome indica, \u00e9 uma receita trazida do Jap\u00e3o, em primeira m\u00e3o, pelos jesu\u00edtas, que estavam baseados em Macau, a porta de acesso ao Jap\u00e3o e o porto terminal para os barcos do com\u00e9rcio Jap\u00e3o-Macau.<\/p>\n<p class=\"p3\">Esta receita foi levada para Macau no s\u00e9culo XVI por fam\u00edlias crist\u00e3s japonesas e Filhos da terra e depois transmitida aos comerciantes portugueses que, por sua vez, levaram a receita para Portugal. Este \u00e9 um facto hist\u00f3rico. Curiosamente, a receita mais antiga de arroz doce em Portugal \u00e9 conhecida como <i>arroz doce bairradino<\/i>, considerado como o mais fino devido ao grande n\u00famero de gemas de ovo utilizadas e \u00e0 aus\u00eancia de leite. A aus\u00eancia de leite na receita \u00e9 id\u00eantica \u00e0 do <i>arroz doce macaense<\/i>, que era um mingau de arroz cremoso e suave pela mistura de gemas de ovo, depois ado\u00e7ado com a\u00e7\u00facar e polvilhado com canela.<\/p>\n<p class=\"p3\">Muitas tradi\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias macaenses continuam vivas hoje em dia, dando-lhes a oportunidade de reviver os sabores e as ocasi\u00f5es, refor\u00e7ando o sentimento de perten\u00e7a. <i>Ch\u00e1 Gordo<\/i> \u00e9 uma conhecida tradi\u00e7\u00e3o macaense e uma obriga\u00e7\u00e3o em qualquer celebra\u00e7\u00e3o no Natal, P\u00e1scoa, baptismos ou qualquer outro evento especial.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ch\u00e1 Gordo \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o associada \u00e0 refei\u00e7\u00e3o substancial servida no dia de Natal em 1563, nas horas da Ave Marias, 18.00 horas, em Firando, hoje Hirado, na Prefeitura de Nagasaki. Evoluiu para um banquete com 6 a 18 pratos diferentes servidos geralmente \u00e0 tarde, por volta das 18 horas, consistindo em:<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; Aperitivos tais como <i>apa-bico<\/i>, <i>apa-mochi<\/i>, <i>mochi<\/i>, <i>ladu<\/i>, <i>bolo de nabo<\/i>, <i>pan di minchi<\/i> e <i>chilicotes<\/i>;<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; Os pratos principais incluem <i>bafass\u00e1 de porco<\/i>, <i>t\u00e2cho\/chau-chau p\u00eale<\/i>, <i>galinha di portugu\u00eas, chicu di porco, lacass\u00e1, congee, mela-mi\u00e7\u00f3 di porco<\/i> e o ic\u00f3nico prato de <i>minchi e arroz branco<\/i> representando tenacidade e sucesso.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; Molhos, tanto quentes como vinagres, como o <i>chili-mi\u00e7\u00f3, mi\u00e7\u00f3-christ\u00e3n<\/i> e os diferentes tipos de <i>achar<\/i> (prato vinagroso) feitos com gam\u00ean, lim\u00e3o, estrela de fruta e outras frutas da \u00e9poca para limpar o paladar e estimular o apetite.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; As sopas incluem <i>imbigo di frade, abobra-verdi<\/i> e <i>abobra cambalenga<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; As sobremesas s\u00e3o compostas por <i>ch\u00e1cha<\/i>, uma sopa doce, pudins como <i>bagi, chawan-no-mushi<\/i>, e \u201covos de aranha\u201d seguidos de bolos feitos com receitas antigas e apreciadas como o <i>celic\u00e1rio, bolo minino<\/i> e <i>sar\u00e3-surabe<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Todos estes pratos cont\u00eam factos hist\u00f3ricos e tradi\u00e7\u00f5es sociais associadas a um sentido macaense de identidade. A origem hist\u00f3rica e social por detr\u00e1s do minchi est\u00e1 ligada ao \u00c9dito emitido por Shogun Tokugawa em 1614 expulsando os crist\u00e3os japoneses e os Filhos da Terra que n\u00e3o rejeitaram a f\u00e9 cat\u00f3lica. Em 1623-24, homens portugueses (pais, maridos, irm\u00e3os e filhos) foram expulsos do Jap\u00e3o. Em 1627, nobres militares japoneses (samurais) e as suas fam\u00edlias foram entregues aos barcos portugueses destinados a Macau. Em 1636, mulheres casadas com homens portugueses e as suas filhas foram exiladas para Macau. Esta migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada aumentou substancialmente a popula\u00e7\u00e3o local em Macau, levando a povoa\u00e7\u00f5es no bairro de S\u00e3o L\u00e1zaro e outras \u00e1reas fora das muralhas da cidade, conhecida como Campo, uma \u00e1rea que se estende at\u00e9 \u00e0s Portas do Cerco, que marca a fronteira com a China. A sobreviv\u00eancia destas povoa\u00e7\u00f5es n\u00e3o estava assegurada e o minchi tornou-se um elemento b\u00e1sico nestas condi\u00e7\u00f5es extremamente dif\u00edceis. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o minchi, na psique macaense, \u00e9 um legado dos exilados e esquecidos, um prato emblem\u00e1tico representando a tenacidade e o sucesso do povo macaense. A sopa <i>Imbigo di frade<\/i> \u00e9 uma oferta de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as a S\u00e3o Francisco Xavier, ap\u00f3stolo do Jap\u00e3o e padroeiro de Macau, pela sua protec\u00e7\u00e3o durante as tempestades sofridas pelas tripula\u00e7\u00f5es da frota comercial macaense, que por vezes passavam anos no com\u00e9rcio mar\u00edtimo, escalando v\u00e1rios portos do Oriente, antes de regressarem a Macau cuja popula\u00e7\u00e3o dependia exclusivamente do com\u00e9rcio mar\u00edtimo para sobreviver. Uma missa de Te Deum, seguida de uma prociss\u00e3o, era realizada anualmente, como mostra de gratid\u00e3o na igreja de S\u00e3o Paulo, constru\u00edda com os lucros do com\u00e9rcio Macao-Jap\u00e3o e do trabalho dos crist\u00e3os japoneses e dos artes\u00e3os Filhos da terra. A 10 de Dezembro, esta prociss\u00e3o percorria as ruas do Monte, um bairro em redor da Igreja de S\u00e3o Paulo, ap\u00f3s o que era servida uma refei\u00e7\u00e3o reconfortante com sopa <i>Imbigo di frade<\/i>. A pirataria e o clima tempestuoso eram riscos perigosos para os que se encontravam no navio. Muitos naufr\u00e1gios atestam este facto, como escrito por Frei Jos\u00e9 Jesus de Maria no seu manuscrito de 1740-45 intitulado <i>Azia Sinica e Japonica, Macau conseguido e perseguido<\/i>, que Macau era uma cidade de mulheres destitu\u00eddas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O per\u00edodo hist\u00f3rico e social da guerra contra os holandeses no s\u00e9culo XVII aponta para a origem do <i>bagi<\/i> e do <i>celic\u00e1rio<\/i>. A derrota e subsequente expuls\u00e3o dos portugueses e Filhos da Terra de Makassar, em 1660, refor\u00e7ou a sensa\u00e7\u00e3o de derrota causada pela queda de Malaca, em 1641. Makassar era, na altura, o centro mais importante do com\u00e9rcio intra-asi\u00e1tico no leste do arquip\u00e9lago malaio com uma importante comunidade portuguesa e Filhos da Terra. Esta popula\u00e7\u00e3o derrotada escolheu instalar-se em Macau porque, na altura, era uma cidade governada por cidad\u00e3os eleitos, separada do governo do Capit\u00e3o-General nomeado pelo Vice-Rei em Goa. Em 21-22 de Julho de 1622, a marinha holandesa bem organizada e equipada invadiu Macau mal defendida. Gra\u00e7as a um tiro de canh\u00e3o da Fortaleza do Monte disparado por jesu\u00edtas, as for\u00e7as macaenses conseguiram subjugar os holandeses e alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria. Para os macaenses esta tremenda vit\u00f3ria prevaleceu sobre todas as derrotas anteriores nas m\u00e3os dos holandeses e o <i>bagi<\/i>, um prato desenvolvido em Makassar, tornou-se o s\u00edmbolo dos derrotados, mas n\u00e3o vencidos. Considerando a enorme disparidade entre as for\u00e7as holandesas e macaenses, a vit\u00f3ria de 22 de Julho s\u00f3 podia ser atribu\u00edda \u00e0 interven\u00e7\u00e3o divina, uma cren\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o macaense. O <i>Celic\u00e1rio<\/i> reflecte a lenda do bem vencendo o mal representado pelos invasores holandeses a quem os chineses chamavam dem\u00f3nios ruivos (<span class=\"s3\">\u7d05\u6bdb\u9b3c<\/span> Hon m\u00f4u kwei). Tornou-se um s\u00edmbolo de unidade porque as pessoas deixaram de lado as suas diferen\u00e7as para se unirem contra um inimigo comum.<\/p>\n<p class=\"p3\"><i>Chilicote,<\/i> um pequeno frito recheado de carne picante mo\u00edda, desenvolvido por m\u00e3es macaenses de Malaca, continua a ser a melhor express\u00e3o de hospitalidade. A origem deste prato remonta ao primeiro encontro entre as tripula\u00e7\u00f5es das caravelas portuguesas comandadas por Diogo Lopes Sequeira e os juncos chineses no porto de Malaca, em 1509. Este encontro proporcionou a base para uma longa amizade entre marinheiros portugueses e chineses que permitiu a Jorge \u00c1lvares aceder a cartas mar\u00edtimas chinesas e embarcar num junco chin\u00eas para viajar at\u00e9 Tam\u00e3o na China, onde um padr\u00e3o com o bras\u00e3o real foi erguido em 1514. Al\u00e9m disso, esta rela\u00e7\u00e3o permitiu a Fern\u00e3o Peres de Andrade visitar Cant\u00e3o para assistir a uma feira em 1517.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>A partir desta data, os portugueses e os Filhos da Terra estabeleceram v\u00e1rios povoados na costa da China, levando ao estabelecimento de Macau em 1553-1555.<\/p>\n<p class=\"p3\">Para concluir e olhando para a hist\u00f3ria das popula\u00e7\u00f5es, a gastronomia foi sempre um importante elemento de constru\u00e7\u00e3o da identidade. A alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a constante e desenvolve-se juntamente com uma sociedade em mudan\u00e7a, ajudando a transmitir a experi\u00eancia pessoal e comunit\u00e1ria, enriquecendo a sociabilidade e o sentido de perten\u00e7a dos macaenses.<\/p>\n<p class=\"p3\">Olhando para a vida de outras comunidades \u00e9tnicas, descobrimos que a alimenta\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de pratos emblem\u00e1ticos, \u00e9 um fio de continuidade na salvaguarda da identidade e de um sentido de filia\u00e7\u00e3o. O <i>Kristang<\/i> em Malaca, <i>Larantuqueiros<\/i> na Ilha das Flores, o <i>Portugu\u00eas Negro<\/i> (<i>Zwarte Portugueesen<\/i>) de Bat\u00e1via, hoje Jacarta, e o Indp-Portugu\u00eas de Goa s\u00e3o testemunhos deste facto.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Entre os blocos de constru\u00e7\u00e3o da identidade, a cozinha macaense continua a enriquecer e refor\u00e7ar o orgulho de pertencer e ajuda a definir o que significa ser macaense. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p3\"><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p5\">Boxer, C. R. (1959). <i>The Great Ship from Amacon<\/i>. Lisboa: Centro de Estudos Hist\u00f3ricos Ultramarinos.<\/li>\n<li class=\"p5\">Coates, A. (1978). <i>A Macao narrative<\/i>. Hong Kong: Heinemann Educational Books (Asia) Ltd.<\/li>\n<li class=\"p5\">Fr\u00f3is S.J., Pe. Lu\u00eds (1976). <i>Hist\u00f3ria de Japam<\/i>. Lisboa: Biblioteca Nacional.<\/li>\n<li class=\"p5\">Maria, Fr. Jos\u00e9 de Jesus (1988) <i>\u00c1sia S\u00ednica e Jap\u00f3nica<\/i>. Macau: Instituto Cultural de Macau\/Centro de Estudos Mar\u00edtimos de Macau.<\/li>\n<li class=\"p5\">Rodrigues, M. F. (2015). <i>A gastronomia como elemento de identidade: a culin\u00e1ria macaense<\/i>. Lisboa: DAXIYANGGUO Portuguese Journal of Asian Studies N\u00ba20 p. 67-88. Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas da Universidade de Lisboa\/ Instituto do Oriente.<\/li>\n<li class=\"p5\">(2018). <i>Hist\u00f3ria da Gastronomia Macaense: Contributo para o refor\u00e7o de uma identidade<\/i> <i>singular<\/i>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es MGI.<\/li>\n<li class=\"p5\">(2020). <i>Macanese cuisine: Fusion or evolution?<\/i> Macao: Review of Culture 62 p 17-25. Instituto Cultural de Macau.<\/li>\n<li class=\"p5\">(2021). <i>Macanese Heritage from Nagasaki<\/i>. Macao: Review of Culture 65 p.82-91. 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