{"id":935,"date":"2025-10-18T01:27:53","date_gmt":"2025-10-17T17:27:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=935"},"modified":"2025-10-18T01:27:53","modified_gmt":"2025-10-17T17:27:53","slug":"bada-shanren-o-silencio-e-o-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/18\/bada-shanren-o-silencio-e-o-espelho\/","title":{"rendered":"Bada Shanren o sil\u00eancio e o espelho"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">A<span class=\"s1\">s not\u00edcias<\/span> graves chegavam-lhe numa sequ\u00eancia desesperante. Zhu Da tinha 18 anos em 1644, quando cai a dinastia Ming, a cuja fam\u00edlia imperial ele pertencia. Pouco tempo depois morre o seu pai. \u00c0 sua volta o mundo parecia desabar. N\u00e3o se sabe se por protesto contra o novo poder ou pelo choque emocional que tudo aquilo lhe causou, o jovem Zhu pegou num papel e escreveu o car\u00e1cter <i>ya<\/i>, que significa \u201cmudo\u201d, e afixou-o do lado de fora da porta da sua casa. Para aqueles que encontrava na rua e desconheciam o seu estado, usava um leque para quando lhe dirigissem a palavra. Abria ent\u00e3o o leque e eles podiam igualmente ler nele inscrita a palavra \u201cmudo\u201d. \u00c9 certo que j\u00e1 o seu pai seria mudo, mas no caso dele, n\u00e3o falar, parece ter sido uma decis\u00e3o consciente, tomada num momento de alarme. \u00c9 prov\u00e1vel que soubesse melhor que ningu\u00e9m o sentido tr\u00e1gico da vida de uma pessoa que n\u00e3o se pode comunicar com os outros atrav\u00e9s da fala. Doravante ele, que tinha as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele \u2013 ficar\u00e3o famosos para o atestar, os seus ataques de choro ou de riso \u2013 s\u00f3 se exprimir\u00e1 por gestos ou atrav\u00e9s da tinta de um pincel.<\/p>\n<p class=\"p3\">De acordo com o escritor americano de origem russa, Vladimir Nabokov, a diferen\u00e7a entre os artistas e a maioria das pessoas situa-se no facto de que, enquanto a maior parte das pessoas capta a semelhan\u00e7a entre as coisas, os artistas percebem melhor as diferen\u00e7as. Possuem uma forma de ver as coisas do avesso. O que \u00e9 interessante no nosso tempo \u00e9 que essa forma de ver as coisas de outro modo deixou de ser exclusiva dos artistas e passa a ser uma necessidade de todos. Essa ser\u00e1 a forma eficaz de agir, como as ci\u00eancias \u2013 desde a economia \u00e0 biologia \u2013 n\u00e3o param de nos dizer. E tal como era um exclusivo dos artistas, a procura da inspira\u00e7\u00e3o passou a ser tamb\u00e9m uma necessidade de todos. E podemos encontrar inspira\u00e7\u00e3o em coisas que admiramos ou na vida de pessoas. O trajecto de algumas pessoas \u00e9 um magn\u00edfico exemplo desse caminhar \u00e0s avessas da maioria das pessoas. A hist\u00f3ria do pintor chin\u00eas Zhu Da (1626-1705) \u00e9 bem a prova disso mesmo. Certo dia, nesse caminhar \u00e0s cegas em busca das v\u00e1rias possibilidades do eu, descobriu o nome Bada Shanren, \u201co eremita dos oito grandes horizontes\u201d. Estava encontrada a chave que para sempre o tornaria numa lenda da hist\u00f3ria da pintura chinesa. A lenda de um rebelde, um homem excessivo na forma de viver e de pintar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Uma Vida em Perigo<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Numa daquelas saborosas hist\u00f3rias de que os Chineses possuem o segredo e que falam da magia da pintura, conta-se como foi precoce a voca\u00e7\u00e3o do jovem Zhu Da para a pintura. No decurso de uma inf\u00e2ncia que se adivinha feliz, Zhen Ding, o seu bi\u00f3grafo, conta que com apenas oito anos ele ter\u00e1 pintado uma flor de l\u00f3tus num lago, com algumas p\u00e9talas ca\u00eddas na \u00e1gua. Dizia-se que, quando as pessoas entravam na sala onde a pintura estava exposta, podiam sentir a brisa leve transportando o perfume da flor que inundava o ambiente. Mais tarde conta-se tamb\u00e9m que chegou a pintar num <i>zhang<\/i> \u2013 um rolo de pintura com cerca de 3 metros \u2013 um drag\u00e3o que parecia estar sempre na imin\u00eancia de voar. Duas curiosas hist\u00f3rias que subtilmente nos falam do perfume das flores, caracter\u00edstica <i>yin<\/i>, e de um drag\u00e3o que voa, que \u00e9 claramente <i>yang<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">E, no entanto, a pintura n\u00e3o ser\u00e1 a sua primeira op\u00e7\u00e3o de vida. Tanto o seu pai como o seu av\u00f4 eram reputados mestres de caligrafia e de pintura e parece ter sido a caligrafia a despertar primeiro o seu entusiasmo juvenil. Mas, tudo isso agora, ficava para tr\u00e1s. De momento est\u00e1 apenas preocupado em fugir. Escapar de um mundo que se desmorona \u00e0 sua volta. E tinha boas raz\u00f5es para recear os novos poderes. A sua fam\u00edlia descendia directamente de Zhu Yuanzhang, o pr\u00f3prio fundador da dinastia Ming (1368-1644). Ao 16.\u00ba filho desse imperador, Zhu Quan, tinha-lhe sido atribu\u00eddo um vasto dom\u00ednio feudal para administrar na prov\u00edncia de Jiangxi, um territ\u00f3rio situado entre o rio Changjiang (o Yangzi) e Guangdong, com a capital em Nanchang, onde Zhu Da se encontra agora em perigo. A norte, na capital, entrara no dia 25 de Abril de 1644 o l\u00edder rebelde Li Zicheng, \u00e0 frente das suas improvisadas tropas de revoltosos. Era o culminar de anos de levantamentos populares de camponeses contra o decadente imp\u00e9rio Ming. O imperador compreende que \u00e9 chegada a hora de partir. Sobe \u00e0 Colina de Carv\u00e3o, sobranceira \u00e0 Cidade Proibida e suicida-se. O trono fica vazio. H\u00e1 muito que os T\u00e1rtaros Manchus se vinham preparando para esta ocasi\u00e3o. Sob o pretexto de salvar a China da rebeli\u00e3o e com a coniv\u00eancia e trai\u00e7\u00e3o de alguns Chineses, tomam eles por sua vez a cidade de Pequim. A 6 de Junho instalam-se para permanecer por longos anos \u00e0 frente do imp\u00e9rio. Estender o seu dom\u00ednio ao sul do pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o foi t\u00e3o f\u00e1cil. Os focos de resist\u00eancia multiplicavam-se. Em Nanquim, a capital do sul, o pr\u00edncipe Fu \u00e9 nomeado imperador. Em Sichuan, Zhang Xianzhong, outro pretendente, auto-proclama-se imperador do Grande Reino do Ocidente, numa aventura que traria grandes custos aos padres Cat\u00f3licos que l\u00e1 moravam, incluindo o Pe. Gabriel de Magalh\u00e3es. Mais a sul, Yong Li, ainda outro pretendente, revolta-se, logo em 1646, e toma as prov\u00edncias de Guangdong e Guangxi. Os combates sucedem-se e em breve os Manchus tomam Cant\u00e3o (Janeiro de 1647), onde o rebelde se refugiara. Yong Li retira-se ent\u00e3o para Guilin no Guangxi. De novo os Manchus v\u00e3o no seu encal\u00e7o, mas desta vez n\u00e3o iria ser t\u00e3o f\u00e1cil. Em seu aux\u00edlio, como recorda Charles Boxer, v\u00e3o 300 portugueses de Macau sob o comando de Nicolau Ferreira. Yong Li resiste e sete prov\u00edncias do sul declaram-lhe o seu apoio. Os combates parece que se eternizam. Os tempos est\u00e3o ca\u00f3ticos. O jovem Zhu, com conhecimentos hist\u00f3ricos e liter\u00e1rios sabe o que normalmente acontece nestes per\u00edodos mergulhados na confus\u00e3o e na desordem. Vive com ang\u00fastia crescente o desenrolar dos acontecimentos. At\u00e9 que, em 1648, os Manchus ocupam Nanchang. Agora, a \u00fanica alternativa \u00e9 a fuga. E foge para a montanha Fengshin. Tem 23 anos e a experi\u00eancia de algu\u00e9m que tem que procurar ref\u00fagio nas solit\u00e1rias montanhas moldaria para sempre o seu car\u00e1cter. No momento em que percebeu que j\u00e1 n\u00e3o havia lugar para ele na sua pr\u00f3pria terra, entendeu que a partir da\u00ed viveria permanentemente como um estrangeiro no mundo. For\u00e7ado a confiar na bondade dos estranhos. E os primeiros a acolh\u00ea-lo foram um grupo de monges de uma comunidade budista que vivia na montanha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Vida de Monge<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Talleyrand, o famoso diplomata Franc\u00eas, costumava dizer que \u201ca palavra fora dada ao homem para este poder esconder os seus pensamentos\u201d. Zhu Da, o mudo, n\u00e3o possu\u00eda ou n\u00e3o queria fazer uso dessa capacidade. Mas, tamb\u00e9m n\u00e3o era essa a sua voca\u00e7\u00e3o. A sua era uma voca\u00e7\u00e3o para a Verdade, e era isso que ele iria descobrir junto dos seguidores de Buda. A pr\u00e1tica religiosa, com a sua ac\u00e7\u00e3o de integrar e re-ligar as pessoas, j\u00e1 de si seria uma viv\u00eancia extremamente gratificante para algu\u00e9m nas circunst\u00e2ncias de Zhu Da. Que essa religi\u00e3o que encontrou fosse o Budismo, com o seu sentido de arte de viver, s\u00f3 tornou a ocasi\u00e3o ainda mais feliz.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao entrar nesse mosteiro budista no alto da montanha Fengshin, \u00e9 poss\u00edvel que com a sua sensibilidade visual, n\u00e3o tenha deixado de reparar numa imagem, ent\u00e3o muito popular, da deusa da miseric\u00f3rdia Guanyin, na sua vers\u00e3o de portadora de filhos. Ao olhar para essa imagem de uma mulher com um beb\u00e9 no colo, provavelmente sorriu, como s\u00f3 costumam fazer as pessoas realmente solit\u00e1rias e sentiu finalmente alguma paz. Essa imagem da deusa Guanyin, de resto, confundia-se agora no Imp\u00e9rio do Meio com uma outra que os Crist\u00e3os mission\u00e1rios traziam do distante Ocidente. Havia at\u00e9 pessoas bem informadas, nessa China do s\u00e9culo 17, que sabiam que o Deus dos Crist\u00e3os era uma mulher e trazia um filho no colo. O que se torna tanto mais curioso se nos lembrarmos que Guanyin \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o chinesa do \u201cbuda da miseric\u00f3rdia\u201d indiano Avalokitesvara \u2013 um homem. Talvez a solu\u00e7\u00e3o para este enigma da representa\u00e7\u00e3o de Deus se encontre num quadro pintado na Europa por um contempor\u00e2neo de Zhu Da, chamado Rembrandt van Rijn (1606-1669), e intitulado <i>O Regresso do Filho Pr\u00f3digo <\/i>(1669). Nessa pintura est\u00e1 a figura de um pai que recebe carinhosamente o seu filho, colocando-lhe as m\u00e3os nas costas. Dessas duas m\u00e3os, uma \u00e9 claramente a m\u00e3o de um homem e a outra \u00e9 visivelmente uma m\u00e3o de mulher. Mas, ap\u00f3s esse primeiro contacto com as imagens do budismo, outras quest\u00f5es lhe ter\u00e3o aparecido de uma forma especialmente sedutora. Come\u00e7ando pela pr\u00f3pria doutrina. O Budista acredita que a ascese s\u00f3 \u00e9 conveniente ap\u00f3s provar a vida, desiludir-se com ela e n\u00e3o come\u00e7ar pela nega\u00e7\u00e3o. Toda a vida \u00e9 decep\u00e7\u00e3o, diziam-lhe, e ele s\u00f3 o podia confirmar. O que \u00e9 importante para a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecer as quatro nobres Verdades: o sofrimento, a origem do sofrimento, a sua cura e o meio para chegar a essa cura. Uma esp\u00e9cie de medicina na qual \u00e9 preciso esquecer a no\u00e7\u00e3o de \u201ceu\u201d. E ent\u00e3o Zhu Da tenta esquecer-se que \u00e9 Zhu Da. Adopta um novo nome, agora ele \u00e9 Chuanqi, \u201co que transmite inspira\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 apenas o primeiro de uma longa s\u00e9rie de nomes que ir\u00e1 adoptar ao longo da vida. Vai-se habituando com naturalidade \u00e0 vida no mosteiro. Talvez j\u00e1 suspeitasse da diferen\u00e7a fundamental que o distinguia dos seus contempor\u00e2neos, por isso era t\u00e3o imensa a vontade que tinha de pertencer a algo ou a algu\u00e9m. Vai progredindo nos graus inici\u00e1ticos e em 1653 est\u00e1 com 27 anos e recebe o t\u00edtulo de mestre Budista. Sente, ent\u00e3o, que \u00e9 chegada a hora de ir, por sua vez, ensinar aquilo que tinha aprendido. Mostrar os efeitos que a for\u00e7a da compaix\u00e3o tinha operado nele. Muda-se ent\u00e3o para o mosteiro Hungya e come\u00e7a a conquistar disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>A Via do Pintor<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">O ano de 1659 \u00e9 marcado por dois acontecimentos: um pol\u00edtico e um outro pessoal, dois aspectos que na vida de Zhu Da sempre andaram interligados. Do ponto de vista pol\u00edtico, esse \u00e9 o ano em que toda a China \u00e9 obrigada a reconhecer o poder dos T\u00e1rtaros Manchus. Para que n\u00e3o restasse qualquer d\u00favida sobre a sua for\u00e7a, os novos senhores tinham feito publicar uma ordem logo em 1645, que mandava que todo o Chin\u00eas devia rapar o alto da testa e amarrar o cabelo numa longa tran\u00e7a. Um caso extraordin\u00e1rio de invas\u00e3o do poder do Estado na vida dos cidad\u00e3os. E que era tanto mais ofensivo quanto os chineses gostavam de usar os cabelos longos e elaboradamente penteados, como sinal de masculinidade e eleg\u00e2ncia. A veia sat\u00edrica do povo humilhado logo resumiu o dilema numa frase: \u201cconserve os cabelos e perca a cabe\u00e7a ou perca os cabelos e conserve a cabe\u00e7a\u201d. A n\u00edvel pessoal, \u00e9 desse ano que datam os primeiros trabalhos de Zhu Da em pintura. Trata-se de um \u00e1lbum de 15 folhas com pinturas de flores, frutos \u00e1rvores e rochas \u2013 curiosamente, alguns dos seus futuros temas predilectos. O facto de Zhu Da seguir a via da pintura \u00e9 j\u00e1 em si um acontecimento extraordin\u00e1rio, pois \u00e0 parte a tradi\u00e7\u00e3o familiar que deixara para tr\u00e1s ao fugir, em Nanchang, ao contr\u00e1rio dos grandes centros como Suzhou ou mais recentemente Songjiang, n\u00e3o havia propriamente uma grande tradi\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica. Ent\u00e3o \u00e0 falta de antecedentes locais, o que e como pintar? J\u00e1 que o porqu\u00ea n\u00e3o se explica.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Seria necess\u00e1rio conhecer a situa\u00e7\u00e3o da pintura na China. Eram tempos marcados pela grande figura do pintor e te\u00f3rico Dong Qichang (1555-1636). Ele era o principal impulsionador do reavivar de uma antiga conven\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que distinguia os pintores entre os \u201ccultos amadores\u201d e os meros \u201cprofissionais\u201d da pintura. Sendo ele pr\u00f3prio, Dong Qichang, o mais proeminente representante dos primeiros. Gozava de um imenso prest\u00edgio social, alicer\u00e7ado nos seus vastos conhecimentos da hist\u00f3ria da pintura. Era igualmente versado na tradi\u00e7\u00e3o Budista e estava a par de todos os grandes debates filos\u00f3ficos do seu tempo. As suas teorias especificamente sobre a pintura eram extremamente elaboradas. Em tra\u00e7os muito gerais, e quanto ao essencial, pode-se dizer que ele considerava que, pelo menos desde a dinastia Tang, existiam duas escolas de pintura bastante distintas: a do Norte (classifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de modo nenhum geogr\u00e1fica mas antes deriva de conceitos pr\u00f3prios do budismo Chan), que se caracteriza pelo meticuloso trabalho do pincel e pelo uso da cor, era praticada por pintores profissionais e era inferior; pelo contr\u00e1rio, a escola do Sul real\u00e7a o trabalho do pincel atrav\u00e9s da tinta, era praticada por amadores cultos e era superior. Outras oposi\u00e7\u00f5es que se ir\u00e3o manifestar na teoria da pintura tradicional chinesa, como a pintura sobre seda ou sobre papel, realismo ou express\u00e3o, emergem destas teorias de Dong Qichang e marcam at\u00e9 hoje o debate em volta da pintura na China.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Para Dong Qichang o estabelecimento destas teorias sobre a pintura tinha ainda o m\u00e9rito de o promover socialmente e foi assim que ele p\u00f4de ocupar os mais altos cargos oficiais. Muito rico, era igualmente um grande coleccionador de arte. Entre o seu esp\u00f3lio figurava em lugar de destaque a pintura <i>Ref\u00fagio nas Montanhas Fuchun<\/i>, a obra-prima do grande pintor da dinastia Yuan, Huang Gongwang. Mas, apesar das suas r\u00edgidas formula\u00e7\u00f5es, a verdade \u00e9 que, tal como muitos outros \u201camadores cultos\u201d, ele recorria aos servi\u00e7os de \u201cpintores-fantasmas\u201d, que faziam obras no seu estilo para poder corresponder \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es. Essas obras destinavam-se principalmente a ofertas a pessoas que para ele tinham menos import\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p3\">Zhu Da, o mudo, estava agora muito longe destes jogos de alta sociedade, que por esses dias tinham lugar nos grandes centros, como Songjiang, onde vivia Dong Qichang e o seu c\u00edrculo, mas t\u00ea-los-\u00e1 certamente conhecido na sua juventude. E essa mem\u00f3ria acabar\u00e1 por fazer com que se reconhe\u00e7a inqualific\u00e1vel. Mas isso ser\u00e1 mais tarde, por agora aproximava-se um ano decisivo na sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>O Homem na Varanda<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">1661 foi esse ano extraordin\u00e1rio. A pol\u00edtica e a vida sempre a correrem paralelamente. Esse \u00e9 o ano em que, j\u00e1 muito para Oeste, na Birm\u00e2nia, \u00e9 assassinado o \u00faltimo pretendente ao trono Ming. Zhu Da deve ter perdido todas as esperan\u00e7as. Tem 35 anos e de novo sente a falta de sentido da vida. Toma ent\u00e3o uma atitude desesperada. Queima as suas vestes de monge, desce \u00e0 cidade e procura conforto no vinho. As pessoas que o v\u00eaem passar na rua n\u00e3o t\u00eam qualquer d\u00favida: Zhu Da est\u00e1 louco.<\/p>\n<p class=\"p3\">Para l\u00e1 do seu comportamento social, do que n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida \u00e9 que esse foi o ano em que Zhu Da entrou definitivamente na via da pintura. Ser\u00e1 um caminho doloroso, pois ele \u00e9 da estirpe daqueles que, como Rembrandt ou Van Gogh, s\u00f3 concebem a pintura como um acto radical de dizer a vida.<\/p>\n<p class=\"p3\">E \u00e9 por isso que daqui em diante a sua vida ter\u00e1 a clareza de algu\u00e9m que est\u00e1 na varanda de uma casa: ele simultaneamente v\u00ea e mostra-se. Naquilo que dele era percebido pelos outros como o comportamento pr\u00f3prio de um louco, dever\u00edamos talvez ler antes de mais nada a posi\u00e7\u00e3o de uma pessoa que diz \u201cn\u00e3o\u201d. Todos conhecemos as tremendas implica\u00e7\u00f5es que pode ter o facto de nos expressarmos atrav\u00e9s desse monoss\u00edlabo. E \u00e9 interessante repararmos no desenvolvimento de um beb\u00e9. Quando ele diz \u201cn\u00e3o\u201d, \u00e9 quando come\u00e7a a manifestar a sua individualidade, a sua diferen\u00e7a. No homem adulto, s\u00f3 dizer \u201cn\u00e3o\u201d j\u00e1 n\u00e3o basta. Tem que escolher um caminho, mesmo tendo a consci\u00eancia de tudo quanto perde n\u00e3o seguindo todos os outros \u201csim\u201d que sabe existirem. Matisse costumava dizer: \u201cQueres dedicar-te \u00e0 pintura? Come\u00e7a ent\u00e3o por cortar a l\u00edngua, porque a partir daqui n\u00e3o te dever\u00e1s exprimir sen\u00e3o atrav\u00e9s dos teus pinc\u00e9is\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em Zhu Da, esse primeiro passo j\u00e1 est\u00e1 dado: h\u00e1 anos que ele n\u00e3o falava com ningu\u00e9m. Faltava saber a que \u00e9 que ele ia dizer \u201csim\u201d. E era agora o momento em que ele partia ao encontro. Porque no caso de Zhu Da, como em Pablo Picasso, n\u00e3o se tratava nunca de procurar, mas de encontrar. A diferen\u00e7a \u00e9 que enquanto procurar implica uma pergunta, e est\u00e1 do lado da filosofia, encontrar \u00e9 s\u00f3 responder, ou seja, \u00e9 pura poesia. Zhu Da come\u00e7a por ir ao encontro da natureza. Pinta ao ar livre, compreende com o pincel como as folhas do l\u00f3tus se dobram \u00e0 passagem do vento. Um pintor mais antigo, Wang Liu, caracterizava esta forma de se aproximar da natureza com uma frase que ficou c\u00e9lebre: \u201cEu aprendo com o meu cora\u00e7\u00e3o, o meu cora\u00e7\u00e3o aprende com os meus olhos, os meus olhos aprendem ao olhar para as montanhas da minha terra natal\u201d. Quando Zhu Da pinta os animais d\u00e1-se o milagre. As \u00e1guias assumem sentimentos humanos, o seu olhar exprime desconfian\u00e7a, desd\u00e9m, desprezo. Os peixes t\u00eam claramente olhos humanos. Perpassa por todos eles um \u00e1cido humor negro. Ser\u00e1 que ele estava a sublimar atrav\u00e9s das suas pinturas o desprezo que sentia pelos usurpadores manchus? Mas, n\u00e3o, n\u00e3o podia ser. Todas as pessoas que o viam passar na rua, tantas vezes b\u00eabedo, expressando-se por gestos exagerados, n\u00e3o tinham qualquer d\u00favida, Zhu Da estava louco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Um Lugar no Mundo<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">A rejei\u00e7\u00e3o social crescia ao ritmo da sua vontade de integra\u00e7\u00e3o. Agora, que n\u00e3o estava mais com os seus amigos budistas, tentou levar uma vida laica. Sabe-se que casou, provavelmente teve filhos. As incertezas sobre v\u00e1rios aspectos da sua vida reflectem o facto de que durante a sua vida, Zhu Da encontrou relativamente poucos admiradores ou at\u00e9 coleccionadores da sua obra. Um n\u00famero que foi aumentando com a sua idade. S\u00f3 no nosso s\u00e9culo \u00e9 que verdadeiramente Zhu Da ser\u00e1 respeitado como uma das mais importantes figuras da pintura chinesa. Esta dificuldade de reconhecimento radica, no entanto, na completa novidade e aud\u00e1cia da sua obra, distante de qualquer outro trabalho feito anteriormente na China. Mas, no complexo contexto social do seu tempo, que posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele poderia esperar ocupar? A n\u00edvel pessoal, o seu comportamento exc\u00eantrico, curiosamente funcionou de uma forma dupla. Se, por um lado, o for\u00e7ava \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o social, por outro, assegurava-lhe que os seus velhos inimigos, os manchus, nunca o levariam a s\u00e9rio. Ao n\u00edvel profissional e pegando na teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Dong Qichang, podia-se perceber como ela s\u00f3 funcionava a um n\u00edvel superficial. Na realidade, a pintura de Zhu Da deveria ser integrada na categoria de \u201cculto amador\u201d, quando de facto, essa era a sua profiss\u00e3o. Era da\u00ed que ele ganhava dinheiro para viver. E havia mais pintores a viverem fora deste proclamado enquadramento.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">A ironia da situa\u00e7\u00e3o de pintores como Zhu Da resultava do reconhecimento de que, tanto na teoria como na pr\u00e1tica n\u00e3o existia um lugar para eles na ordena\u00e7\u00e3o oficial do escalonamento social. Muitos desses pintores, que de uma forma ou de outra recusavam a nova ordem manchu, criaram mesmo um termo para se auto-definirem \u2013 chamavam-se a si mesmos <i>yimin<\/i>, ou seja \u201cas sobras\u201d, pessoas que sobravam da anterior dinastia dos Ming e que n\u00e3o viam com bons olhos a chegada dos Qing. Muitos deles foram tentados pelo antigo ideal do eremita que vive em reclus\u00e3o, sozinho na solit\u00e1ria montanha. Um ideal que sempre ressuscitava em momentos como estes de mudan\u00e7a din\u00e1stica. N\u00e3o ser\u00e1 esse, no entanto, o caminho de Zhu Da. Ele \u00e9 o homem na varanda, ele tem que ver as outras pessoas ao mesmo tempo que se revela aos outros. Talvez n\u00e3o seja por acaso que a mais famosa cena da mais conhecida pe\u00e7a de teatro sobre o amor \u2013 Romeu e Julieta \u2013 decorra precisamente numa varanda. N\u00e3o, definitivamente, ele precisava de caminhar por entre a gente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>O Seguidor do Dao<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Tal como o viajante apressado que precisa de reunir com cuidado todos os elementos que lhe v\u00e3o ser \u00fateis para a viagem, nesse ano de 1661, toma ainda uma outra importante decis\u00e3o \u2013 \u00e9 tempo de se aliar aos c\u00edrculos Dao\u00edstas. Existia entre os Dao\u00edstas uma grande tradi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia contra o poder. Resist\u00eancia activa ou passiva que podia estar muitas vezes na origem de grandes revoltas populares.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Em termos doutrinais o budismo Chan, que Zhu Da conhecera na montanha Fengshin n\u00e3o era muito diferente dos ideais Dao\u00edstas. Ele mesmo dir\u00e1 mais tarde: \u201cNa minha cria\u00e7\u00e3o, o Chan e o Dao s\u00e3o uma e a mesma coisa\u201d. H\u00e1 que notar, no entanto, que tem apenas 35 anos quando resolve abra\u00e7ar o Dao\u00edsmo e esta era uma escolha que s\u00f3 se costumava fazer bastante mais tarde na vida. Normalmente efectuada por pessoas que j\u00e1 estavam fora da vida activa da comunidade. Na verdade, o Dao\u00edsmo exigia uma predisposi\u00e7\u00e3o para o pensamento n\u00e3o convencional, uma forma de conhecimento n\u00e3o abstracto que habitualmente as pessoas s\u00f3 possuem j\u00e1 mais para o fim da vida. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Ao contr\u00e1rio do Confucionismo, a outra grande corrente de pensamento de origem chinesa, o Dao\u00edsmo implica uma grande disponibilidade. Enquanto o Confucionismo \u00e9 did\u00e1ctico e se refere \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para viver em sociedade e adequar-se \u00e0s conven\u00e7\u00f5es, o Dao\u00edsmo tem mais a ver com a espontaneidade, a originalidade. Da\u00ed tamb\u00e9m a sua tradi\u00e7\u00e3o anti-poder que, no entanto, \u00e9 apenas uma consequ\u00eancia exterior da doutrina, que fala de liberta\u00e7\u00e3o sim, mas de liberta\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conven\u00e7\u00f5es que o prendem, de algum modo o iludem quanto \u00e0 sua verdadeira natureza. E ser\u00e1 sobretudo esta faceta libertadora contida no Dao\u00edsmo que Zhu Da vai aproveitar para a sua viagem. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">N\u00e3o \u00e9 que saiba exactamente para onde vai. Mas aqui podia aprender aquilo que o grande m\u00edstico espanhol S. Jo\u00e3o da Cruz (1542-1591) sabia: \u201c<i>Para venir a donde no sabes, has de ir por donde no sabes<\/i>\u201d. Se o importante \u00e9 continuar a viagem, ent\u00e3o o Dao\u00edsmo aligeira-lhe a bagagem de viajante. Explica-lhe como n\u00e3o se agarrar a pesos in\u00fateis: \u201cO homem perfeito usa a mente como um espelho. Ela nada aprisiona e nada recusa. Recebe mas n\u00e3o conserva\u201d, como est\u00e1 escrito no <i>Zhuangzi<\/i>. S\u00f3 que a via do despojamento total, da liberta\u00e7\u00e3o das amarras in\u00fateis n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e por vezes os seguidores do Dao v\u00e3o por caminhos extravagantes. Procuram estados artificiais para chegar a verdades naturais. In vino veritas, diriam os nossos maiores da Antiguidade mediterr\u00e2nica e na China os seguidores do Dao n\u00e3o s\u00e3o diferentes. Zhu Da entrega-se a grandes bebedeiras. Nessas alturas leva demasiado \u00e0 letra a ideia do necess\u00e1rio despojamento e vai pintar completamente nu. Aqueles que sabem do caso dizem que \u00e9 apenas mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da sua loucura.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>O Tra\u00e7o \u00danico do Pincel<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O seu envolvimento com os seguidores do Dao tornava-se, ent\u00e3o, um dado adquirido. Estava na altura de dar um outro passo. Tal como fizera depois da primeira estadia num mosteiro Budista, sente que \u00e9 chegada a hora de transmitir aquilo que descobrira. Mas desta vez ser\u00e1 diferente. Quer come\u00e7ar tudo do princ\u00edpio. Empenha-se em escolher ele mesmo o local onde dever\u00e1 nascer o novo mosteiro. Um antigo templo budista em ru\u00ednas ser\u00e1 o local escolhido. A reconstru\u00e7\u00e3o ser\u00e1 demorada, levar\u00e1 seis longos anos. Entretanto ter\u00e1 tempo para aprofundar a via da pintura. Muitos dos trabalhos de Zhu Da t\u00eam sido identificados com a chamada corrente de pintura <i>Xie-yi<\/i>, palavra que significa \u201cdescrever uma ideia\u201d. \u00c9 uma forma de pintura cujo nascimento \u00e9 dif\u00edcil de precisar no tempo e que se caracteriza por sugerir e resumir a realidade com grande economia de meios. Requer normalmente para isso o estudo da arte da caligrafia e uma constante e apurada observa\u00e7\u00e3o da natureza. No fim o pintor tem que saber registar a sua ideia com grande espontaneidade, quase como uma reac\u00e7\u00e3o instintiva, sendo esta verdadeiramente a \u00fanica regra que o pintor <i>Xie-yi<\/i> deve respeitar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Essa espontaneidade do artista era tanto mais apreciada quanto tradicionalmente o primeiro tra\u00e7o feito com o pincel numa pintura era identificado com o Sopro original, aquele que emana do Vazio primordial, uma no\u00e7\u00e3o fundamental na cosmogonia chinesa. Sem a presen\u00e7a desse Sopro original \u2013 cuja presen\u00e7a seria assim um pouco, para n\u00f3s ocidentais, como colaborar com Deus na cria\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 a pintura era desprovida de sentido. Por isso esse primeiro tra\u00e7o deveria ser longamente meditado, pois uma vez aplicado, com \u00fanico gesto r\u00e1pido, ele teria de manter a energia de um la\u00e7o de uni\u00e3o entre o homem-pintor e o resto da natureza. Como parte do Sopro original, esse tra\u00e7o \u00e9 um elemento essencial ao funcionamento do par Yin e Yang do qual brotam os 10 mil seres. A quest\u00e3o era t\u00e3o s\u00e9ria que, para se preparar para esse momento \u00fanico de transmitir o Sopro \u00e0 pintura, o pintor podia levar semanas. O que estava em causa nessa pintura, que n\u00e3o admite a ideia de esbo\u00e7o, era mostrar mais do que uma semelhan\u00e7a, uma presen\u00e7a. Uma pintura paradoxal, feita de ess\u00eancias e n\u00e3o de apar\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Zhu Da sabia como ningu\u00e9m utilizar essa linguagem do tra\u00e7o \u00fanico do pincel, cuja aparente facilidade tem origem na escrita ideogr\u00e1fica. O reconhecimento desse seu saber f\u00e1-lo-\u00e1 anos mais tarde quando encontrar esse nome m\u00e1gico de Bada Shanren. Mas isso ser\u00e1 muito mais tarde. Por agora ele est\u00e1 feliz porque acaba de ver realizado o seu projecto de construir um mosteiro Dao\u00edsta. P\u00f5e-lhe o nome de \u201cNuvem Verde\u201d, <i>Qing-yun<\/i>. Corre o ano de 1667 e ainda n\u00e3o sabe mas \u00e9 ali que ir\u00e1 viver os pr\u00f3ximos cinco anos, como chefe e guarda da comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>O Encontro no Espelho<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">A sensa\u00e7\u00e3o de perda ser\u00e1 sempre um factor decisivo na vida de Zhu Da. Em 1672 tem 46 anos e recebe a not\u00edcia da morte do seu mestre, o abade Hongmin. O choque de mais esta morte t\u00ea-lo-\u00e1 feito decidir-se a ser, a partir de ent\u00e3o, um monge artista itinerante.<\/p>\n<p class=\"p3\">Nessa sua nova faceta, a fama do seu trabalho vai aumentando e come\u00e7a a conquistar um pequeno n\u00famero de admiradores. Certo dia, decorre o ano de 1679, essa fama chega aos ouvidos de Hu Yitang, o governador de Linchuan que o convida para uma estadia na sua resid\u00eancia, de acordo com as regras habituais de mecenato vigentes \u00e0 \u00e9poca. S\u00f3 que o convite vinha envenenado.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao chegar, \u00e9 informado sobre uma condi\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 imposta: ter\u00e1 que colaborar num projecto de Hist\u00f3ria da dinastia Ming. Um projecto encomendado pelo pr\u00f3prio imperador, o fabuloso Kangxi. Ora, colaborar com as autoridades era algo que n\u00e3o estava definitivamente nos seus planos. Mas, a uma encomenda imperial n\u00e3o era simplesmente poss\u00edvel dizer n\u00e3o. Encurralado, recorre \u00e0 \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel. N\u00e3o diziam as pessoas que ele era louco? Muito bem, eis uma bela ocasi\u00e3o para o provar. Zhu Da acentua ent\u00e3o o seu car\u00e1cter extravagante.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Multiplicam-se as ocasi\u00f5es em que \u00e9 visto nas tabernas a cultivar o prazer do vinho. Li Bai, o grande poeta dos Tang, parece que fala por ele, quando escreve: \u201cQuando estou b\u00eabedo ignoro c\u00e9u e terra, tr\u00f4pego, procuro o leito solit\u00e1rio, esque\u00e7o a minha exist\u00eancia: este o maior de todos os prazeres\u201d. Num homem mudo a bebedeira parece mais vis\u00edvel; o gesticular descontrolado, a vontade in\u00fatil de comunicar por sons, os ataques de choro ou de riso. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">O mecenas, finalmente, n\u00e3o tem outro rem\u00e9dio sen\u00e3o deix\u00e1-lo seguir a sua vida de bo\u00e9mio louco. Volta ent\u00e3o a calcorrear os caminhos em volta de Nanchang, de taberna em taberna. Anda j\u00e1 perto dos 60 anos, tinha idade para ter ju\u00edzo, dir-se-ia. Mas a \u00fanica coisa que vem adquirindo de uma forma segura \u00e9 uma grande intimidade com os utens\u00edlios da sua pintura. Descobre cada vez mais nomes para identificar as suas pinturas. Durante um tempo assina simplesmente Lu, que significa \u201casno\u201d, um qualificativo injurioso que se chamava aos monges. At\u00e9 que, subitamente, num dia feliz, compreende como sai luminoso o tra\u00e7o escuro do pincel e assina a sua pintura com 4 caracteres: Ba da Shan ren (ou Pata-chan-jen), \u201co eremita dos oito grandes horizontes\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Os oito horizontes eram as oito direc\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o que o artista podia revelar com um \u00fanico tra\u00e7o de pincel. O nome cont\u00e9m ainda uma alus\u00e3o ao sutra Budista Badaren Jue-Jing, que fala dos oito grandes despertares do Homem. O seu dom\u00ednio da caligrafia permite-lhe ainda que, ao assinar os 4 caracteres, eles se assemelhem a outros dois cujo significado era \u201cpara rir\u201d e \u201cpara chorar\u201d, duas caracter\u00edsticas que os contempor\u00e2neos sempre associaram \u00e0 sua personalidade. Estava-se em 1684, faltavam-lhe dois anos para atingir os 60 e ele sabia que tinha alcan\u00e7ado o ponto mais alto a que um pintor pode chegar. Doravante todas as suas pinturas ter\u00e3o essa assinatura m\u00e1gica: Bada Shanren e \u00e9 assim que ele passar\u00e1 a ser conhecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Shitao, um Amigo na Pintura<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">\u201c<i>What\u2019s in a name?<\/i>\u201d, perguntava no auge do desespero da incompreens\u00e3o a jovem donzela dos Capuletos de Verona. E ela mesmo respondia; \u201c<i>it is nor hand, nor foot, nor arm, nor face, nor any other part\/ Belonging to a man<\/i>.\u201d De facto, aparentemente, como ela dizia \u201c<i>That wich we call a rose\/ By any other word would smell as sweet<\/i>\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">E, no entanto, sabemos da import\u00e2ncia que t\u00eam os nomes. Zhu Da certamente que sabia, pois transportou consigo toda a vida esse nome Zhu dos derrotados. E apesar de ter usado muitos outros nomes ao longo da vida, s\u00f3 mudou de facto o seu nome para Bada Shanren quando a pintura se tornou mais importante que a vida. Ter\u00e1 sido por isso com grande emo\u00e7\u00e3o que um dia ouviu falar de um parente \u2013 pertencente a essa, agora maldita, fam\u00edlia Zhu \u2013 que tamb\u00e9m se dedicava \u00e0 pintura e que come\u00e7ava a ficar famoso em Yangzhou, na prov\u00edncia de Jiangsu. Este parente distante e mais novo do que ele chamava-se Shitao (ou Tao-chi) (1642-1707). O seu caminho na vida tinha sido bastante parecido com o de Bada Shanren. O pai de Shitao fora assassinado por membros do seu pr\u00f3prio cl\u00e3 durante os dias tumultuosos que se seguiram \u00e0 chegada dos manchus, quando ele tinha apenas 3 anos. A crian\u00e7a fora por isso, confiada a um mosteiro. Depois de adulto tamb\u00e9m andara vagabundeando de terra em terra, vendendo as suas pinturas. Tal como Bada Shanren tamb\u00e9m a sua posi\u00e7\u00e3o social era inqualific\u00e1vel. A sua pintura era simultaneamente um modo de ganhar a vida e um meio de express\u00e3o individual, pr\u00f3pria dos \u201camadores cultos\u201d. Era por isso tamb\u00e9m considerado um exc\u00eantrico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Os dois homens t\u00eam certamente muito para conversar. E Bada Shanren escreve-lhe \u2013 existem hoje 13 dessas cartas que escreveu ao seu parente. Envia-lhe pinturas para ele completar. Shitao responde-lhe e pede-lhe pinturas. Envia-lhe tamb\u00e9m obras suas. Numa delas, datada de 1696, v\u00ea-se um pescador junto a um rio e ele escreve: \u201cO c\u00e9u est\u00e1 atravessado por nuvens que desaparecem ao longe, com um sorriso nos l\u00e1bios, o pescador sentou-se junto \u00e0 \u00e1gua. Em vez dos peixes brancos, ele pesca o verde primaveril. Para al\u00e9m do universo criado, ele alcan\u00e7a o Vazio Supremo.\u201d Shitao n\u00e3o era, por outro lado, um \u201cartista louco\u201d, como era Bada Shanren. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Isso permitiu-lhe desenvolver todo um edif\u00edcio te\u00f3rico que o iria tornar numa das figuras mais importantes da hist\u00f3ria da pintura chinesa, reconhecido como tal ainda antes do fim da dinastia Qing. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">A sua teoria era, de certo modo, o contraponto das ideias de Dong Qichang. Enquanto este entendia que o pintor, conhecedor das obras do passado, tinha que as absorver de uma forma selectiva, Shitao insistia na necessidade de come\u00e7ar de novo, j\u00e1 que o culto do passado atingira o convencionalismo. E era urgente o pintor libertar-se desse convencionalismo. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Para isso propunha um m\u00e9todo que n\u00e3o era um m\u00e9todo: \u201cAntes dos velhos mestres estabelecerem um m\u00e9todo, eu pergunto-me que m\u00e9todos \u00e9 que eles teriam?\u201d Certamente a sua posi\u00e7\u00e3o marginal face \u00e0s conven\u00e7\u00f5es sociais permitia-lhe ver aquilo que aos outros escapava. E as suas teorias podiam bem ser a voz que Bada Shanren, o mudo, n\u00e3o possu\u00eda. Como Bada Shanren, ele sabia ser ironicamente provocador ao falar sobre o convencionalismo, pois, dizia ele, a verdade \u00e9 que \u201cas barbas e as sobrancelhas dos antigos n\u00e3o crescem na minha cara\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Os la\u00e7os fortes da amizade uniram no fim da vida estes dois artistas subversivos. Viviam longe um do outro, mas que importa. Como dois altos troncos de bambu que crescem lado a lado, fi\u00e9is \u00e0 sua natureza independente, eles v\u00e3o crescendo sempre para o alto. Indiferentes \u00e0 chuva e ao vento, ao nascimento e \u00e0 queda das folhas, debaixo da terra as ra\u00edzes tocam-se. Cada um fica a saber que, algures, um outro est\u00e1 a seguir na mesma direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] As not\u00edcias graves chegavam-lhe numa sequ\u00eancia desesperante. Zhu Da tinha 18 anos em 1644, quando cai a dinastia Ming, a cuja fam\u00edlia imperial ele pertencia. Pouco tempo depois morre o seu pai. \u00c0 sua volta o mundo parecia desabar. 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