{"id":942,"date":"2025-10-18T01:41:03","date_gmt":"2025-10-17T17:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=942"},"modified":"2025-10-18T01:41:03","modified_gmt":"2025-10-17T17:41:03","slug":"%e8%af%97%e7%bb%8f-livro-das-odes-shi-jing-um-primeiro-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/18\/%e8%af%97%e7%bb%8f-livro-das-odes-shi-jing-um-primeiro-olhar\/","title":{"rendered":"\u8bd7\u7ecf LIVRO DAS ODES Shi Jing &#8211; Um primeiro olhar"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><i>Os trezentos Poemas podem ser resumidos numa frase: \u2018Pensar direito\u2018<\/i><sup>1<\/sup><i>.<br \/>\n<\/i><strong>Conf\u00facio<\/strong>, <i>in<\/i> <i>Analectos<\/i><i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\">A<\/span><span class=\"s2\"> escrita chinesa<\/span> conheceu um longo e moroso desenvolvimento, que ter\u00e1 atravessado quatro mil\u00e9nios, desde os primeiros caracteres de caracter\u00edsticas zoom\u00f3rficas, remetidos pela arqueologia contempor\u00e2nea ao V mil\u00e9nio a.E.C., at\u00e9 \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o estatal e \u201cdefinitiva\u201d, que se processou nos quatrocentos anos que antecederam e precederam o in\u00edcio da era crist\u00e3.<\/p>\n<p class=\"p5\">Na China, tal como em outras civiliza\u00e7\u00f5es, existiu desde tempos imemoriais uma tradi\u00e7\u00e3o oral, que se transmitiu de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, composta de mitos, hist\u00f3rias, poemas e can\u00e7\u00f5es. O <i>Livro das Odes<\/i> surge como uma primeira recolha e selec\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es. Mas para compreendermos o contexto em que se edita este livro temos de recuar at\u00e9 ao ano 551 a. C., no qual nasceu o s\u00e1bio Kong Fuzi, mais tarde latinizado pelos ocidentais para Conf\u00facio.<\/p>\n<p class=\"p5\">Reinava ent\u00e3o a dinastia Zhou (1111-221 a.E.C.), com a qual a sociedade chinesa conheceu profundas modifica\u00e7\u00f5es, a n\u00edvel social e cultural. De facto, \u00e9 neste per\u00edodo que se formam conceitos de governa\u00e7\u00e3o e de concep\u00e7\u00e3o do mundo e do lugar do Homem, cujo alcance est\u00e1 longe de se ter esgotado nos nossos dias. E para isso muito ter\u00e1 contribu\u00eddo o desempenho de Conf\u00facio.<\/p>\n<p class=\"p5\">Quando derrotaram os Shang (1751-1112 a.E.C.) e se viram no controlo de vastas \u00e1reas territoriais e uma enorme popula\u00e7\u00e3o, os fundadores da dinastia Zhou compreenderam que havia a necessidade de estabelecer uma nova ordem e maneira de pensar que acompanhasse as mudan\u00e7as operadas ao n\u00edvel do aparelho de Estado e que se desejavam imprimir \u00e0 pr\u00f3pria sociedade. Assim justificavam o seu mandato.<\/p>\n<p class=\"p5\">Weng Si Zhan descreve deste modo o novo pensamento dos Zhou: \u201cO destino do Homem n\u00e3o depende da exist\u00eancia de uma alma antes e depois da morte ou do capricho de uma for\u00e7a espiritual, mas da excel\u00eancia das suas palavras e dos seus actos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">Significativamente, o conceito-chave para compreender o controlo da exist\u00eancia humana passa a ser a virtude (<i>de<\/i>), isto \u00e9, a partir de agora cada sujeito n\u00e3o vive \u00e0 sombra de um destino tra\u00e7ado e conjurado por seres espirituais, mas \u00e0 luz das suas decis\u00f5es se enveredar pela via da virtude. E, \u00e9 claro, depreende-se nesta doutrina do \u201cMandato do C\u00e9u\u201c um conte\u00fado pol\u00edtico flagrante: \u201cEnt\u00e3o, os Zhou sentenciaram que os Shang, apesar de terem recebido mandato para governar, tinham falhado porque n\u00e3o cumpriram os seus deveres. O seu mandato passou para os fundadores de Zhou por causa da sua virtude. O futuro da Casa de Zhou dependia da virtude dos seus governantes vindouros\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">O pensamento chin\u00eas afastava-se assim de um determinismo feiticista para entrar decisivamente no dom\u00ednio do Homem e da sua capacidade de decidir a exist\u00eancia, resguardado das inten\u00e7\u00f5es dos esp\u00edritos. \u00c9 precisamente esse o sentido que se vai encontrar na diferente atitude face aos ritos. Weng descreve a diferen\u00e7a citando precisamente uma passagem do <i>Livro dos Ritos<\/i> (<i>Li Jing<\/i>): \u201cOs Shang honravam os esp\u00edritos, serviam-nos e colocavam-nos acima das cerim\u00f3nias\u2026 Os Zhou honram as cerim\u00f3nias e valorizam a atribui\u00e7\u00e3o de favores. Servem os esp\u00edritos e respeitam-nos, mas mantendo-os a uma certa dist\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">O pensamento dos primeiros Zhou prepara assim o terreno \u00e0s doutrinas confucionistas que s\u00f3 viriam a surgir meio mil\u00e9nio mais tarde. Segundo conta Sima Qian, foi o pr\u00f3prio Conf\u00facio quem fez uma selec\u00e7\u00e3o de trezentas e cinco can\u00e7\u00f5es, de entre mais de tr\u00eas mil, de acordo com um crit\u00e9rio de \u201cvirtude moral\u201d. E, ainda segundo o historiador, \u201cdurante a \u00e9poca de Conf\u00facio a Casa de Zhou tinha deca\u00eddo, os antigos ritos e m\u00fasicas foram esquecidos, e muitas can\u00e7\u00f5es e documentos tinham desaparecido\u201d. Ter\u00e1 o S\u00e1bio sentido a necessidade de recolher antigas tradi\u00e7\u00f5es, documentos, poemas e ritos, antes de serem apagadas pelo desleixo habitual com que em \u00e9pocas conturbadas os homens tratam a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p5\">No entanto, as recolhas de Conf\u00facio n\u00e3o deixaram de varrer o que foi por ele considerado menos interessante ou pouco conforme \u00e0 suas ideias. A fiarmo-nos em Sima Qian, as can\u00e7\u00f5es seriam mais tr\u00eas mil e Conf\u00facio rejeitou \u201cas que eram repetitivas e reteve as que tinham valor moral\u201d. Tal como fez com o <i>Livro das Odes<\/i>, Conf\u00facio organizou outras compila\u00e7\u00f5es que ficaram conhecidas como obras can\u00f3nicas, a saber, O <i>Livro das Muta\u00e7\u00f5es<\/i> (<i>Yi Jing<\/i>), a <i>Mem\u00f3ria dos Ritos <\/i>(<i>Li Ji<\/i>), o <i>Livro dos Documentos<\/i> (<i>Shu Jing<\/i>). Estes livros, juntamente com os <i>Anais da Primavera e Outono<\/i> (<i>Chun Qiu<\/i>), constituem um pentateuco onde se encontra reunida a base da cultura cl\u00e1ssica chinesa.<\/p>\n<p class=\"p5\">Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 pac\u00edfica a pr\u00f3pria atribui\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o do <i>Livro das Odes<\/i> a Conf\u00facio. James Legge, que o verteu para ingl\u00eas no s\u00e9culo XIX, recusa-se a atribuir ao s\u00e1bio a paternidade da obra. Baseia-se o mission\u00e1rio ingl\u00eas no facto dessa refer\u00eancia s\u00f3 se encontrar num escrito elaborado quatro s\u00e9culos depois da morte de Conf\u00facio, precisamente no citado livro de Sima Qian. O padre Guerra refuta a opini\u00e3o de Legge, no pref\u00e1cio \u00e0 sua tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p5\">Existe um n\u00famero confort\u00e1vel de autores que remete a compila\u00e7\u00e3o um pouco mais para tr\u00e1s no tempo, para os primeiros s\u00e9culos de vida da dinastia Zhou. No entanto, o esfor\u00e7o de Conf\u00facio para a sua divulga\u00e7\u00e3o foi de tal modo not\u00e1vel que acabou por lhe ser atribu\u00edda a edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\">E a Hist\u00f3ria acabaria por provar como n\u00e3o fora em v\u00e3o o trabalho de Conf\u00facio. O <i>Livro das Odes<\/i> conseguiu resistir \u00e0 Grande Queima de Livros que o imperador Qin Huangdi, o homem que conseguiu unificar a China, promoveu durante o seu reinado em 213 a. E.C.. Uma vez mais \u00e9 Sima Qian quem relata uma interessante conversa no fim da qual o imperador sancionou a destrui\u00e7\u00e3o de praticamente todos os livros existentes. A cena passa-se durante um recep\u00e7\u00e3o oferecida por Qin Huangdi a setenta letrados, no pal\u00e1cio de Xiang Yang. Um deles, de nome Zhou, tomou a palavra e louvou o imperador pelas suas conquistas, terminando com um elogio ao seu poder e virtude. O seu discurso agradou ao imperador mas logo outro se levanta e contrap\u00f5e v\u00e1rios argumentos, defendendo a atribui\u00e7\u00e3o de feudos a membros mais jovens da casa real ou a ministros merit\u00f3rios. Na sequ\u00eancia da refuta\u00e7\u00e3o desta tese, o primeiro-ministro Li Si avan\u00e7ou com a proposta de se queimarem os livros antigos. Sigamos o seu racioc\u00ednio:<\/p>\n<p class=\"p6\">\u201cAgora estes letrados s\u00f3 aprendem do conhecimento antigo, desprezando o novo, e utilizam o seu saber para se oporem ao nosso comando e confundirem os cabe\u00e7as-negras (assim era referido o povo durante a dinastia Qin). (\u2026) Antigamente, quando o mundo, mergulhado no caos e na desordem, n\u00e3o podia ser unificado, os diferentes estados ergueram-se e usaram argumentos do passado para condenar o presente, usando uma ret\u00f3rica vazia para tapar e confundir as verdadeiras quest\u00f5es e empregando o seu conhecimento para se oporem ao que tinha sido Majestade conquistou todo o mundo, distinguiu entre o branco e o preto e estabeleceu padr\u00f5es unificados. No entanto, estes letrados opinativos juntam-se para difamar as leis e julgam cada novo decreto de acordo com a sua pr\u00f3pria escola de pensamento, opondo-se-lhe secretamente no seu cora\u00e7\u00e3o enquanto o discutem abertamente as ruas. Gabam o soberano para conseguir fama, avan\u00e7am com estranhos argumentos para ganharem distin\u00e7\u00f5es e incitam a multid\u00e3o ao espalharem rumores. Se isto n\u00e3o for proibido, sofrer\u00e1 o prest\u00edgio do soberano e fac\u00e7\u00f5es surgir\u00e3o entre os seus s\u00fabitos. Melhor \u00e9 acabar de vez com isto!<\/p>\n<p class=\"p6\">\u201cHumildemente proponho que todos os registos hist\u00f3ricos, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o dos de Qin, sejam queimados. Se algu\u00e9m que n\u00e3o for um letrado da corte se atrever a guardar can\u00e7\u00f5es antigas, registos hist\u00f3ricos ou escritos das cem escolas, estes devem ser confiscados e queimados pelo governador da prov\u00edncia ou pelo comandante do ex\u00e9rcito. Os que durante uma conversa se atreverem a citar uma can\u00e7\u00e3o ou registos antigos devem ser publicamente executados; os que usarem precedentes antigos para se oporem \u00e0 nova ordem ver\u00e3o as sua fam\u00edlias serem destru\u00eddas e do mesmo modo dever\u00e3o ser tratados os oficiais que tenham conhecimento destes casos e n\u00e3o os denunciem.<\/p>\n<p class=\"p6\">\u201cSe passados trinta dias da proclama\u00e7\u00e3o desta ordem os propriet\u00e1rios destes livros ainda n\u00e3o os tiverem destru\u00eddo, as suas faces dever\u00e3o ser tatuadas e condenados a trabalhos for\u00e7ados na Grande Muralha. Os \u00fanicos livros que n\u00e3o precisam de ser destru\u00eddos s\u00e3o os que se referem \u00e0 Medicina, Divina\u00e7\u00e3o e Agricultura\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">O imperador concordou com Li Si e as suas propostas foram aprovadas. O resultado foi uma das maiores destrui\u00e7\u00f5es de livros que a Hist\u00f3ria j\u00e1 conheceu, entre os quais o <i>Livro das Odes<\/i>. Contudo, o esfor\u00e7o desenvolvido por Conf\u00facio deu os seus frutos porque as can\u00e7\u00f5es, bem como outros livros confucionistas, sobreviveram. Ao que se diz, ter\u00e3o sido escondidos no Templo de Conf\u00facio, em Qufu, no interior da chamada parede de Lu. Mais tarde, com o fim da dinastia Qin, ter\u00e3o sido recuperados e constituiram a parte fundamental dos exames imperiais para o cargo de mandarim.<\/p>\n<p class=\"p5\">Compreende-se o zelo de Li Si e a sua sanha contra o antigo saber e o <i>Livro das Odes<\/i> muito especialmente. Vejamos, por exemplo, o que diz um pref\u00e1cio escrito no s\u00e9culo V a. E.C. por um disc\u00edpulo de Conf\u00facio conhecido pelo nome de Zi Xia: \u201cNada se compara ao <i>Livro das Odes <\/i>no erigir de padr\u00f5es que distinguem o mal do bem, o C\u00e9u da Terra, e no apelo que faz a esp\u00edritos e deuses\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">Contudo, o <i>Livro das Odes<\/i> n\u00e3o se esgota nos conselhos morais que proporciona. O pr\u00f3prio Conf\u00facio o apresentava como um exemplo de ret\u00f3rica, na medida em que o poeta deve tamb\u00e9m saber exprimir os seus pensamentos de forma elegante e convincente.<\/p>\n<p class=\"p5\">De um ponto de vista formal, o <i>Livro das Odes<\/i> \u00e9 escrito em versos de quatro s\u00edlabas, a mais arcaica forma de versifica\u00e7\u00e3o chinesa, na qual a rima se verifica na \u00faltima s\u00edlaba de cada verso. Em termos liter\u00e1rios esta recolha de poemas foi sempre considerada como exemplarmente perfeita, sendo numerosos os comentadores que, ao longo dos s\u00e9culos, lhe t\u00eam acrescentado pref\u00e1cios e tecido considera\u00e7\u00f5es explicativas. Alguns destes pref\u00e1cios, muitas vezes de car\u00e1cter puramente pedag\u00f3gico e explicativo, encontram-se traduzidos em ingl\u00eas. O padre Joaquim Guerra tamb\u00e9m traduziu dois destes pref\u00e1cios, que considerou mais significativos.<\/p>\n<p class=\"p5\">Um dos aspectos que conv\u00e9m sublinhar \u00e9 que a China, ao contr\u00e1rio de outras civiliza\u00e7\u00f5es da Antiguidade, n\u00e3o inicia a sua literatura com uma epopeia, como acontece com a Gr\u00e9cia de Homero ou a Mesopot\u00e2mia com os feitos de Gilgamesh. Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o abundam textos que se refiram a her\u00f3is, divindades e ao fant\u00e1stico. Este primeiro livro, a primeira obra de cunho realmente liter\u00e1rio \u2013 j\u00e1 que o <i>Livro das Muta\u00e7\u00f5es <\/i>(<i>Yi Jing<\/i>) surge como um livro de adivinha\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 uma antologia de poemas, que n\u00e3o relatam grandes fa\u00e7anhas de antepassados, nem nos contam nenhum mito de cria\u00e7\u00e3o, como os textos de Hes\u00edodo. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o express\u00f5es de sentimentos populares ou servem como elementos de cerim\u00f3nias ritualizadas.<\/p>\n<p class=\"p5\">Estes poemas n\u00e3o pretendem revelar uma verdade ou divinizar um her\u00f3i fundador. Fundamentalmente, cont\u00eam indica\u00e7\u00f5es referentes ao ordenamento social, de um ponto de vista moral e pol\u00edtico. J\u00e1 neste passado arcaico, o privil\u00e9gio \u00e9 dado a um ponto de vista colectivo, com o objectivo de explicar como devem ser reguladas as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. N\u00e3o encontramos aqui tra\u00e7os psicologistas, dramas individuais ou uma moral que n\u00e3o seja extra\u00edda da vida em comum. O que nos transmitem diz respeito \u00e0 ordem das coisas e das gentes, sem remeter para um plano divino ou exterior \u00e0 pr\u00f3pria sociedade, como acontece por exemplo na epopeia hom\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"p5\">Cada ode procura dar um bom ou um mau exemplo, de acordo com os costumes e a moral do tempo em que foi composta. Deste modo, n\u00e3o deixam de conter elementos cr\u00edticos, na medida em que os seus prop\u00f3sitos certamente n\u00e3o correspondiam exactamente ao comportamento constat\u00e1vel dos detentores do poder. As odes, gra\u00e7as ao seu car\u00e1cter po\u00e9tico, n\u00e3o se limitam a criticar o passado: surgem plenas de efic\u00e1cia na avalia\u00e7\u00e3o do presente. N\u00e3o se trata, contudo, de uma cr\u00edtica directa a este ou aquele; pelo contr\u00e1rio, ela revela-se insidiosa, num detalhe ou num remate, sob o elogio ou a lam\u00faria, podendo assim estender essa cr\u00edtica a pessoas ou situa\u00e7\u00f5es de todos os lugares e todos os tempos.<\/p>\n<p class=\"p5\">Enquanto colect\u00e2nea de can\u00e7\u00f5es, o <i>Livro das Odes<\/i> surge-nos como um testamento precioso de uma das mais antigas literaturas do mundo e reposit\u00f3rio primeiro de uma maneira de encarar o mundo, que ainda hoje estende a sua influ\u00eancia a muitos milh\u00f5es de pessoas, apesar de todas as vicissitudes que teve de enfrentar ao longo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Num ilh\u00e9u a meio do rio<br \/>\n<\/i><i>um par de rolas chilreia,<br \/>\n<\/i><i>e por t\u00e3o bela donzela<br \/>\n<\/i><i>jovem mancebo anseia.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Nas \u00e1guas que v\u00e3o e v\u00eam<br \/>\n<\/i><i>agri\u00f5es v\u00e3o despontando,<br \/>\n<\/i><i>e por t\u00e3o bela donzela<br \/>\n<\/i><i>o jovem vai suspirando.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>\u00c9 t\u00e3o forte o seu desejo,<br \/>\n<\/i><i>que o sono n\u00e3o o visita,<br \/>\n<\/i><i>sempre, sempre, a pensar nela<br \/>\n<\/i><i>dum lado ao outro se agita.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Agri\u00f5es por toda a parte<br \/>\n<\/i><i>crescem f\u00e1ceis de apanhar,<br \/>\n<\/i><i>a pura e gentil donzela<br \/>\n<\/i><i>quer harmonia no lar.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Agri\u00f5es por toda a mesa,<br \/>\n<\/i><i>tenros saem da panela,<br \/>\n<\/i><i>tambores e sinos te acolhem<br \/>\n<\/i><i>\u00f3 pura e gentil donzela!<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<ul>\n<li class=\"p1\"><span class=\"s1\">1 &#8211; Refer\u00eancia de Conf\u00facio ao livro que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ele pr\u00f3prio editou, o <i>Livro das Odes<\/i>, e que cont\u00e9m, na realidade, 305 poemas. \u00c9 aqui citado, como s\u00famula do pr\u00f3prio livro, um verso de uma dessas odes que fala poderosos cavalos de guerra criados para puxar carruagens e avan\u00e7ar a direito sem se desviarem do caminho desejado \u2014 tal como o pensamento e o comportamento devem avan\u00e7ar sem se desviarem dos seus fins virtuosos.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Os trezentos Poemas podem ser resumidos numa frase: \u2018Pensar direito\u20181. 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