{"id":952,"date":"2025-10-18T01:49:00","date_gmt":"2025-10-17T17:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=952"},"modified":"2025-10-18T01:57:11","modified_gmt":"2025-10-17T17:57:11","slug":"o-cadaver-animado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/18\/o-cadaver-animado\/","title":{"rendered":"O cad\u00e1ver animado"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O <\/span><span class=\"s2\">homem<\/span><span class=\"s1\">, j\u00e1 de uma certa idade, era origin\u00e1rio de Yanxin (1), e vivia num lugar conhecido por \u201cEstalagem dos Cai\u201d, um vilarejo a cerca de cinco ou seis <i>li<\/i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>da cidade. Perto da estrada, pai e filho tinham aberto um albergue onde os mercadores itinerantes podiam passar a noite. Muitos carroceiros que se dedicavam ao transbordo se albergavam ali, regularmente, nas suas idas e vindas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Um dia, ao cair a noite, chegaram quatro homens na esperan\u00e7a de obter um abrigo. Mas sucedia que todos os quartos de h\u00f3spedes estavam ocupados: a estalagem estava cheia. Como n\u00e3o desejassem arrepiar caminho, os quatro viajantes insistiram, implorando ao estalajadeiro que os acolhesse.<\/p>\n<p class=\"p3\">Abafando um suspiro, o velho sugeriu que lhes podia arranjar abrigo sob um telheiro, embora lhe parecesse que n\u00e3o lhes conviria. Como se queixava, os h\u00f3spedes responderam-lhe: \u201cN\u00e3o solicitamos mais que o conforto de uma esteira debaixo de um alpendre \u2013 n\u00e3o temos outra escolha e n\u00e3o ter\u00edamos face para lhe exigir mais que isso!\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Ora, acontecia que a nora do estalajadeiro tinha acabado de falecer. Enquanto o corpo repousava num quarto, o filho, ausente para comprar a madeira do caix\u00e3o, ainda n\u00e3o estava de regresso.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cComo a calma reina na casa em luto, seja\u2026\u201d, pensou o velho e dirigiu-se para a encruzilhada dos caminhos para indicar a direc\u00e7\u00e3o da casa aos seus h\u00f3spedes. Estes entraram na choupana: uma lamparina brilhava tenuemente sobre a mesa que servia de altar, atr\u00e1s<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>do qual pendiam tapetes e roupas. Um sud\u00e1rio de papel cobria a defunta. De seguida, os seus olhares voltaram-se para o local onde iriam dormir, num quarto dos fundos onde as camas estava dispostas umas contra as outras.<\/p>\n<p class=\"p3\">Exaustos do caminho, os quatro viandantes abateram-se sobre os leitos de imediato. A sua respira\u00e7\u00e3o foi-se tornando mais e mais pesada. Apenas um deles permaneceu meio consciente. De s\u00fabito, este \u00faltimo escutou um ranger vindo do leito mortu\u00e1rio e abriu logo os olhos. A chama da lamparina, frente aos despojos f\u00fanebres, lan\u00e7ava uma luz viva: a morta tinha removido o sud\u00e1rio!<\/p>\n<p class=\"p3\">Ei-la que, levantada do seu leito, avan\u00e7ava lentamente penetrando no quarto do fundo. De<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>rosto cor de ouro p\u00e1lido, tinha a fronte coberta por um peda\u00e7o de seda crua. Aproximando-se dos leitos, soprava tr\u00eas vezes sobre os corpos adormecidos, um ap\u00f3s outro. Assustado, o quarto homem, na certeza de que viria a ele de seguida, puxou subrepticiamente a coberta para tapar a cabe\u00e7a, sustendo a respira\u00e7\u00e3o para melhor escutar.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Na verdade, a mulher n\u00e3o tardou a vir soprar sobre ele da mesma forma. Sentindo que ela deixava a divis\u00e3o, escutou de seguida o barulho do papel do sud\u00e1rio. Pondo a cabe\u00e7a de fora para arriscar uma olhadela, constatou que o cad\u00e1ver havia retomado a sua posi\u00e7\u00e3o r\u00edgida.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Ainda apavorado, sem ousar fazer o m\u00ednimo som, p\u00f4s-se a tentar acordar os seus companheiros mas sem conseguir suscitar a mais pequena reac\u00e7\u00e3o. Julgando que n\u00e3o lhe restava alternativa sen\u00e3o vestir-se e sair, tinha acabado de se erguer-se e sacudia as suas roupa quando se fez ouvir, de novo, um barulho. De cabelos em p\u00e9, deitou-se de barriga para baixo, com a cabe\u00e7a entre os ombros sob a coberta. Deu-se conta de que a mulher estava de regresso. Na verdade, esta s\u00f3 partiu depois de haver soprado in\u00fameras vezes sobre ele. Um pouco depois, o ranger do leito mortu\u00e1rio disse-lhe que ela se deitara novamente. Muito lentamene, p\u00f4s a m\u00e3o fora dos cobertores para alcan\u00e7ar as suas cal\u00e7as que vestiu \u00e0 pressa, correndo para fora descal\u00e7o. Mas o cad\u00e1ver tamb\u00e9m se levantou, aparentemente na inten\u00e7\u00e3o de o perseguir. No momento em que a morta afastava as cortinas, o viandante<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>j\u00e1 tinha sa\u00eddo depois de ter conseguido tirar a tranca da porta. No entanto, a mulher seguia-o a correr! E ele correu uivando de terror mas sem conseguir acordar a aldeia. Preparava-se para bater \u00e0 porta do chefe do lugar mas, com medo de se atrasar e ser apanhado, lan\u00e7ou-se na estrada em direc\u00e7\u00e3o da cidade, a toda a brida.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Chegando aos arrabaldes de leste, viu um templo<sup>2<\/sup> e, escutando o som cavo dos \u201cpeixes de madeira\u201d<sup>3<\/sup> p\u00f4s-se a arranhar ansiosamente o port\u00e3o do mosteiro. Alarmados com este apelo ins\u00f3lito a meio da noite, os religiosos n\u00e3o mostravam qualquer vontade de o receber de imediato.<\/p>\n<p class=\"p3\">Quando o viandante se voltou, a morta estava sobre ele, \u00e0 dist\u00e2ncia de menos de um metro. Ele estava \u00e0 merc\u00ea, em perigo extremo. Em frente do port\u00e3o havia um salgueiro de largo tronco. Saltando para a esquerda quando ela o amea\u00e7ava \u00e0 direita, ou \u00e0 direita quando ela se lan\u00e7ava pela esquerda, ele ia evitando-a. Mas o furor do cad\u00e1ver apenas crescia, apesar da fadiga se apoderar dos dois. Bruscamente<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>a morta endireitou-se. O homem, coberto de suor, arfando, escondeu-se atr\u00e1s da \u00e1rvore. Num \u00faltimo e violento esfor\u00e7o, ela estendeu os bra\u00e7os para o tentar agarrar do outro lado do tronco. Mergulhado em terror, o homem desfaleceu. O cad\u00e1ver que abra\u00e7ava a \u00e1rvore, n\u00e3o conseguindo agarr\u00e1-lo, ficou r\u00edgido outra vez.<\/p>\n<p class=\"p3\">Depois de n\u00e3o ouvirem mais nada ao fim de muito tempo, os monges, escondidos no interior, decidiram por fim sair cautelosamente e viram o homem por terra. \u00c0 luz das candeias, este parecia-lhes morto, mas umas fracas palpita\u00e7\u00f5es ainda se sentiam<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>no cora\u00e7\u00e3o. Foi levado para dentro, onde s\u00f3 voltou a si no fim da noite. Interrogado, depois de ter bebido \u00e1gua quente, o viandante contou o que lhe sucedera. Tocava agora o sino da manh\u00e3 e, na sombria claridade da aurora, os religiosos foram examinar a \u00e1rvore onde, de facto, lhes surgiu o corpo de uma mulher.<\/p>\n<p class=\"p3\">Muito alarmados, informaram o subprefeito que destacou uma pessoa para tomar conta do sucedido.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Esta quis abrir as m\u00e3os da mulher mas isto parecia tarefa imposs\u00edvel, tal era a for\u00e7a com que se agarrara. Um exame mais atento revelou que os quatro dedos, \u00e0 esquerda e<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>\u00e0 direita estavam mergulhados na madeira como garras, ao ponto das unhas terem desaparecido por inteiro no seu interior. Foi necess\u00e1ria a for\u00e7a de v\u00e1rios homens para a desprender e tirar da \u00e1rvore. As marcas deixadas pelas m\u00e3os eram buracos que pareciam ter sido feitos com uma broca.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p class=\"p3\">O magistrado mandou um guarda infomar-se junto do velho estalajadeiro, onde reinava a maior consterna\u00e7\u00e3o na sequ\u00eancia do desaparecimento do cad\u00e1ver e da morte dos tr\u00eas h\u00f3spedes. Posto ao corrente do estranho incidente, o velho seguiu-o de volta e fez transportar o corpo da sua nora numa prancha.<\/p>\n<p class=\"p3\">O sobrevivente, em l\u00e1grimas, queixava-se ao subprefeito: \u201cQuando partimos \u00e9ramos quatro mas, agora, regresso s\u00f3: como fazer acreditar semelhante aventura no pa\u00eds de onde venho?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">O magistrado passou-lhe ent\u00e3o um atestado e deu-lhe um vi\u00e1tico para o caminho de regresso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Pu Songling<br \/>\n<\/b><em>Trad. Rui Cascais<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Notas<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p8\">(1) Sub-prefeitura no nordeste de Jinan, capital do Shandong. Este nome significa \u201c F\u00e9 no Yang\u201d, princ\u00edpio vital, num trocadilho muito provavelmente involunt\u00e1rio.<\/li>\n<li class=\"p8\">(2) Lanruo, abrevia\u00e7\u00e3o de elanruo, \u00e9 transcri\u00e7\u00e3o do s\u00e2nscrito <span class=\"s4\"><i>aranya<\/i><\/span>, que significa \u201cretiro\u201d; em chin\u00eas, o termo, passou a designar qualquer edif\u00edcio budista.<\/li>\n<li class=\"p8\">(3) Esta caixa de resson\u00e2ncia em forma de peixe, <span class=\"s4\"><i>muyu<\/i><\/span>, serve para marcar as ora\u00e7\u00f5es e r\u00e9citas ou exerc\u00edcios de medita\u00e7\u00e3o. Segundo Liu Fu ( verso 1040-seg. 1113), o peixe, que nunca fecha os olhos, incitaria o praticante a esquecer o sono.<\/li>\n<li class=\"p8\">(4) O fen\u00f3meno, que deixa perplexos in\u00fameros comentadores antigos do texto, est\u00e1 largamente referenciado no folclore chin\u00eas; nomeadamente em Sawada Mizuho, <span class=\"s4\"><i>Kiky\u00f4 dangi<\/i><\/span>, T\u00f3quio: Kokusho, 1976, p.220-243. \u00c9 muito conhecido noutros locais, nomeadamente na India, onde a possess\u00e3o de cad\u00e1veres por criaturas demon\u00edacas \u00e9 a especialidade dos vetala; ver Louis Renou, <span class=\"s4\"><i>Contes du vampire<\/i><\/span>, Paris: Gallimard, Connaissance de L&#8217;Orient n.<sup>o<\/sup> 17, 1963, 1985.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] O homem, j\u00e1 de uma certa idade, era origin\u00e1rio de Yanxin (1), e vivia num lugar conhecido por \u201cEstalagem dos Cai\u201d, um vilarejo a cerca de cinco ou seis li\u00a0 da cidade. 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