{"id":975,"date":"2025-10-19T23:28:03","date_gmt":"2025-10-19T15:28:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=975"},"modified":"2025-10-19T23:28:03","modified_gmt":"2025-10-19T15:28:03","slug":"zhang-mu-um-olhar-poetico-atraves-dos-seculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/19\/zhang-mu-um-olhar-poetico-atraves-dos-seculos\/","title":{"rendered":"Zhang Mu &#8211; Um olhar po\u00e9tico atrav\u00e9s dos s\u00e9culos"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">O<span class=\"s1\">s poemas <\/span>de Macau, escritos em chin\u00eas cl\u00e1ssico pelos poetas cantonenses, s\u00e3o pouco conhecidos mesmo entre a comunidade falante do idioma na RAEM. Passados v\u00e1rios meses de procrastina\u00e7\u00e3o, peguei aleatoriamente um poema com \u201cversos regulamentados pentass\u00edlabos\u201d, isto \u00e9, cada verso \u00e9 composto de cinco caracteres sino-asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p class=\"p3\">Trata-se de \u201cOlhar para o Mar em Macau\u201d (<span class=\"s2\">\u6fb3\u9580\u89bd\u6d77<\/span>) com 24 versos e cada verso tem cinco ideogramas, com pontua\u00e7\u00e3o posteriormente adicionada. Neste poema, os versos com n\u00fameros ordinais \u00edmpares terminam com uma v\u00edrgula, ao passo que os com n\u00fameros pares acabam com um ponto final.<\/p>\n<p class=\"p3\">O poeta em causa \u00e9 Zhang Mu (Cheong Mok em cantonense, 1607-1683), poeta, grande pintor de cavalos, viajante de toda a China. Traduz-se, ao ler uma biografia sua, certa melancolia menos bem escondida e provocada por uma dinastia morta, pois viveu num per\u00edodo no qual a China de maioria \u00e9tnica Han foi conquistada pelos Manchus.<\/p>\n<p class=\"p3\">Sabemos que o nome cantonense da Guia \u00e9 Tong Mong Ieong, como tamb\u00e9m anotava a falecida antrop\u00f3loga Ana Maria Amaro. O top\u00f3nimo cantonense significa, literalmente, \u201cOriente-Olhar-Oceano\u201d, ou seja \u201cVista-do-Mar Este\u201d. Foi justamente ali que Zhang escreveu esta obra-prima.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao traduzir &#8211; isto \u00e9, ler o mais intensamente &#8211; n\u00e3o cessei de ficar surpreendido como atrav\u00e9s da leitura de um tal texto, fico com uma mistura de muitas imagens n\u00e3o apenas da China mais cl\u00e1ssica, mas tamb\u00e9m de uma Macau da grande actualidade. \u00c9, enfim, um poema escrito no meio do s\u00e9culo XVII!<\/p>\n<p class=\"p3\">Aqui apresentamos a minha modest\u00edssima tentativa de transpor o poema pentass\u00edlabo num texto poetizado decass\u00edlabo, com algumas notas a fim de mais aprofundadamente apreciarmos o original.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Autobiografia como pre\u00e2mbulo<\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: left;\"><i>Nascendo no mar, pa\u00eds possante,<br \/>\n<\/i><i>Maduro, encontro na tormenta,<br \/>\n<\/i><i>Com nobre aspira\u00e7\u00e3o constante,<br \/>\n<\/i><i>Ondas quebradas, mui \u00e1gua venta.<br \/>\n<\/i><i>Estandarte foi erguido guante,<br \/>\n<\/i><i>Navio \u201cganso-e-grou\u201d ostenta.<br \/>\n<\/i><i>Apreciada a maravilha,<br \/>\n<\/i><i>As terras findam com a barquilha.<\/i><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: left;\">\u751f\u8655\u5728\u6d77\u570b\uff0c<br \/>\n\u4e2d\u6b72\u9022\u55aa\u4e82\u3002<br \/>\n\u8c6a\u61f7\u6578\u5341\u5e74\uff0c<br \/>\n\u7834\u6d6a\u5df2\u6c57\u6f2b\u3002<br \/>\n\u6545\u4eba\u5efa\u9ad8\u7e9b\uff0c<br \/>\n\u6a13\u8239\u82e5\u9d5d\u9e1b\u3002<br \/>\n\u56e0\u4e4b\u6170\u5947\u89c0\uff0c<br \/>\n\u5730\u65b9\u76e1\u6d77\u5cb8\u3002<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: left;\">Natural de Liuzhou na prov\u00edncia de Guangxi de hoje, Zhang Mu foi um dos grandes pintores do Lingnan (uma regi\u00e3o cultural do sul da China) da era p\u00f3s-Ming. Aqui o termo bissil\u00e1bico, ou dois caracteres, \u201c<span class=\"s2\">\u55aa\u4e82<\/span>\u201d (mortes e turbul\u00eancias, ou \u201ctormenta\u201d na tradu\u00e7\u00e3o poetizada) indica justamente o doloroso tempo de transi\u00e7\u00e3o entre duas dinastias chinesas Ming e Qing, no meio do s\u00e9culo XVII. Esta autobiografia do artista est\u00e1 conclu\u00edda nos meros primeiros 20 caracteres chineses do poema.<\/p>\n<p class=\"p3\">No quinto verso do texto asi\u00e1tico l\u00ea-se o termo \u201c<span class=\"s2\">\u6545\u4eba<\/span>\u201d, que est\u00e1 omitido na tradu\u00e7\u00e3o. Literalmente, a palavra chinesa cl\u00e1ssica signfica \u201cgentes do passado\u201d e pode ser igualmente traduzido \u201camigo\/s\u201d. Associando-me \u00e0 atemporalidade chinesa cl\u00e1ssica, tenho impress\u00e3o que \u00e9 mais apropriado traduzir literalmente \u201cgentes do passado\u201d: Foram os conhecidos que ergueram o estandarte.<\/p>\n<p class=\"p3\">Quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de batalha \u201cganso-e-grou\u201d, a express\u00e3o, que fica no sexto verso, deriva do antiqu\u00edssimo registo no cl\u00e1ssico \u201cComent\u00e1rio de Zuo\u201d (Zuo Zhuan, ou Cho Ch\u00fcn em cantonense) publicado no final do s\u00e9culo IV antes da nossa era. O termo \u201cganso-e-grou\u201d visualiza duas formas de batalhas na origem da palavra.<\/p>\n<p class=\"p3\">O g\u00e9nero de navio, que est\u00e1 referido no mesmo sexto verso do texto original, \u00e9 uma embarca\u00e7\u00e3o guerreira com uma \u201ctorre\u201d de tr\u00eas n\u00edveis, quer dizer, uma constru\u00e7\u00e3o em cima da superf\u00edcie deste navio militar da China cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Interessante seria uma associa\u00e7\u00e3o deste poema \u00e0 cartografia europeia e chinesa dos primeiros tempos da funda\u00e7\u00e3o de Macau. Os cart\u00f3grafos da \u00e9poca, como sabemos, sem poderem ver as realidades geogr\u00e1ficas nos seus pr\u00f3prios olhos e dependendo das descri\u00e7\u00f5es textuais, podem ter feito os mapas pict\u00f3ricos de uma Macau sem diferenciar, ou pouco diferenciando as arquitecturas cantonense e europeia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Assim sendo, j\u00e1 imagino as caracas e outros navios portugueses, inseridos entre os juncos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Metr\u00f3pole mundial do s\u00e9culo XVII<\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><i>B\u00e1rbaros no este &#8211; o sol banha &#8211;<br \/>\n<\/i><i>Traduzindo, a China exaltam,<br \/>\n<\/i><i>Jades e p\u00e9rolas se apanha,<br \/>\n<\/i><i>Feiras destas, luzes se ressaltam.<br \/>\n<\/i><i>No sonho, a sagrada montanha,<br \/>\n<\/i><i>Pal\u00e1cios de ouro, nuvens saltam,<br \/>\n<\/i><i>C\u00e9us cortados pelos pagodes,<br \/>\n<\/i><i>Cadeia de telhados, as odes.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p6\">\u897f\u5937\u8fd1\u54b8\u6c60\uff0c<br \/>\n\u91cd\u8b6f\u6155\u5927\u6f22\u3002<br \/>\n\u5bf6\u7389\u8207\u591c\u73e0\uff0c<br \/>\n\u7d50\u5e02\u7570\u5149\u71e6\u3002<br \/>\n\u82e5\u5922\u6e38\u4ed9\u701b\uff0c<br \/>\n\u91d1\u5bae\u8d64\u971e\u721b\u3002<br \/>\n\u5371\u6a13\u5207\u9ad8\u96f2\uff0c<br \/>\n\u9023\u750d\u5c55\u5c4f\u7ff0\u3002<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Primeira refer\u00eancia directa \u00e0 presen\u00e7a europeia e \u00e0 muito pr\u00f3spera cena comercial de Macau neste poema, o \u201cbanho do sol\u201d \u00e9 aqui uma tradu\u00e7\u00e3o livre substituindo o nome do local mitol\u00f3gico chines, Xian Chi (Ham Chi em cantonense) onde, segundo a mitologia s\u00ednica, o sol banha durante o dia. Interpreto que \u00e9 uma met\u00e1fora da chegada dos \u201cb\u00e1rbaros ocidentais\u201d no \u201coriente\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">No texto original em chin\u00eas, o nome, ou melhor, a express\u00e3o <span class=\"s2\">\u591c\u73e0<\/span>, \u201cluminosa p\u00e9rola\u201d, ou da forma mais literal, \u201cp\u00e9rola da noite\u201d evoca em mim uma associa\u00e7\u00e3o \u00e0s luzes da noite de Macau de hoje.<\/p>\n<p class=\"p3\">Com a express\u00e3o do \u201cGrande Han\u201d, trocada na tradu\u00e7\u00e3o pela mera palavra China, n\u00e3o sei se o poema seria considerado, na \u00e9poca da sua escrita, politicamente correcto de ser circulado. Pergunto-me mesmo se uma tal simples denomina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds despertando a grandeza dos Han como a maioria \u00e9tnica n\u00e3o causaria a pena de morte.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao ler esta passagem, j\u00e1 est\u00e3o visualizados, na minha cabe\u00e7a, templos antigos que serviam igualmente como resid\u00eancias tempor\u00e1rias dos mandarins, mas n\u00e3o s\u00f3: a arquitectura barroca cuja terminologia t\u00e9cnica a China cl\u00e1ssica ainda n\u00e3o inventou. At\u00e9 mesmo uns \u201carranha-c\u00e9us\u201d do s\u00e9culo XVII &#8211; os altos pagodes que tocam os c\u00e9us &#8211; est\u00e3o em frente de mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Fim da autobiografia, fim do relato<\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><i>Sobre \u00e1guas, colinas divinas,<br \/>\n<\/i><i>Verdes, acidentadas, ligadas,<br \/>\n<\/i><i>Ondas transparentes, cristalinas,<br \/>\n<\/i><i>Um s\u00f3 barco, farras agradas.<br \/>\n<\/i><i>Volto com lufadas hero\u00ednas,<br \/>\n<\/i><i>De repente, as almas trocadas,<br \/>\n<\/i><i>Ondas raivosas! Sem fim aboio,<br \/>\n<\/i><i>Milhas d\u2019rota, gemo sem apoio.\u00a0<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p6\">\u6c34\u4e0a\u591a\u795e\u5c71\uff0c<br \/>\n\u9752\u524a\u5c62\u7e8c\u65b7\u3002<br \/>\n\u6f84\u6ce2\u6216\u5982\u93e1\uff0c<br \/>\n\u4e00\u8449\u4ea6\u8db3\u73a9\u3002<br \/>\n\u53ca\u723e\u9577\u98a8\u8ff4\uff0c<br \/>\n\u6c23\u8272\u5ffd\u5df2\u63db\u3002<br \/>\n\u72c2\u703e\u6e3a\u4f55\u7aae\uff0c<br \/>\n\u842c\u91cc\u751f\u6d69\u6b4e\u3002<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Esta passagem final, cujos \u00faltimos oito versos aqui agrupamos, relata mais uma cena que j\u00e1 n\u00e3o tem nada a ver com a Macau de hoje. Penso nos v\u00e1rios riachos na pen\u00ednsula de Macau que foram desaparecendo ao longo do tempo e que permanecem apenas nos nomes das ruas antigas. Est\u00e1 visualizado, sobretudo, no meu imagin\u00e1rio, uma China imperial dos grandes literatos, a qual espelha a vida frustrante de Zhang Mu, e conclu\u00edda por ele pr\u00f3prio com \u201cum longu\u00edssimo suspiro\u201d (traduzido aqui como \u201cgemo sem apoio\u201d), como se constata ao ler o original.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Os poemas de Macau, escritos em chin\u00eas cl\u00e1ssico pelos poetas cantonenses, s\u00e3o pouco conhecidos mesmo entre a comunidade falante do idioma na RAEM. Passados v\u00e1rios meses de procrastina\u00e7\u00e3o, peguei aleatoriamente um poema com \u201cversos regulamentados pentass\u00edlabos\u201d, isto \u00e9, cada verso \u00e9 composto de cinco caracteres sino-asi\u00e1ticos. 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