{"id":978,"date":"2025-10-19T23:33:05","date_gmt":"2025-10-19T15:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=978"},"modified":"2025-10-19T23:33:33","modified_gmt":"2025-10-19T15:33:33","slug":"poemas-uma-monografia-de-macau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/19\/poemas-uma-monografia-de-macau\/","title":{"rendered":"Poemas \u2013 \u201cUma Monografia de Macau\u201d"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">Tradu\u00e7\u00e3o<\/span><b> Fernanda Dias<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Aomen Jilue<\/i> (<i>Uma Monografia de Macau<\/i>) \u00e9 um relat\u00f3rio sobre Macau, escrito por dois delegados do Imperador, Yin Guan-ren e Zhang Yulin (primeira edi\u00e7\u00e3o 1751). Os poemas inclusos tinham a dupla fun\u00e7\u00e3o de testemunho dos relatos e embelezamento do texto.<\/p>\n<p class=\"p1\">Esta monografia viria a ser selecionada para fazer parte da famosa \u201cBiblioteca dos Quatros Ramos Liter\u00e1rios\u201d (Si Ku Quanshu) , compilada em 1772-1782 por ordem do Imperador Qianlong. Este facto reflecte bem a import\u00e2ncia do livro.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os temas dos poemas englobam descri\u00e7\u00f5es de viagens e embaixadas dos oficiais enviados aos pa\u00edses asi\u00e1ticos com os quais a China mantinha rela\u00e7\u00f5es na \u00e9poca (o reino de Champa, Malaca, Vietnam, Java, Filipinas e outros estados tribut\u00e1rios) ou encontros e trocas culturais com os povos que aqui aportavam vindos do Grande Oceano Ocidental (Portugal, Espanha, Holanda&#8230;) Paisagens, costumes, minuciosas descri\u00e7\u00f5es da natureza ou dos mitos, nada ficou esquecido.<\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o poderemos sen\u00e3o admirar esses testemunhos de encontros culturais muito antes do que ter\u00edamos imaginado.<\/p>\n<p class=\"p1\">O poder e o brilho da China durante a dinastia Ming est\u00e3o aqui bem patentes, dado que os principais poetas citados nesta colect\u00e2nea s\u00e3o monges errantes, letrados e poetas da dinastia Ming e raramente Qing.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N\u00e3o est\u00e3o igualmente ausentes temas sobre estados de alma, geralmente expressos pelos Mandarins afastados das suas prov\u00edncias, que se servem da incessante imperman\u00eancia dos ritmos da natureza para exprimir o sentimento de ex\u00edlio e a perplexidade sobre a inconst\u00e2ncia do destino. A nostalgia da despedida nos momentos de separa\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a de rever os amigos perpassam explicitas ou veladas, em quase todos os poemas sobre viagens.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\">Os epit\u00e1fios e as homenagens p\u00f3stumas aos embaixadores e outros ilustres oficiais, assim como relatos de peregrina\u00e7\u00f5es aos t\u00famulos, com abund\u00e2ncia de refer\u00eancias \u00e0s virtudes e feitos her\u00f3icos dos defuntos, s\u00e3o muitas vezes impregnados de nostalgia perante a ironia do destino. Disso ressalta o papel do Budismo que ensina a arte de \u201cdesprender-se\u201d. Como abandonar desejos irrealiz\u00e1veis, como escapar ao sofrimento, onde descobrir a for\u00e7a de encarar a solid\u00e3o. Uma das vias da f\u00e9 budista \u00e9 o desprendimento; e assim manter a tranquilidade de cora\u00e7\u00e3o, atingindo o estado ideal do ser humano. Os poemas que descrevem cenas de despedida, passam-se num pavilh\u00e3o, num miradouro circundado por montanhas, um rio, os p\u00e1ssaros que voam para longe mas n\u00e3o cantam \u201cmudos de desola\u00e7\u00e3o\u201d, o sol nascente, a lua, etc., todos os elementos da atmosfera Zen, atrav\u00e9s da qual os letrados atingiam a harmonia com a natureza.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Por vezes perpassam afei\u00e7\u00f5es nesses temas do \u201cletrado chin\u00eas\u201d amor ao pa\u00eds, aos amigos, \u00e0 fam\u00edlia, e raramente \u00e0 amada; mas t\u00e3o discretas s\u00e3o essas alus\u00f5es que temos que descobri-las como raros tesouros associadas aos elogios dos ilustres do passado, aos relatos de feitos her\u00f3icos, \u00e0 incessante compara\u00e7\u00e3o com os mitos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Antes de Fernanda Dias me ter trazido a sua vers\u00e3o destes poemas, eu nunca tinha considerado Aomen Jilue como integrando uma obra po\u00e9tica. Muitos historiadores usam esta monografia como refer\u00eancia de pesquisa hist\u00f3rica, mas raramente liter\u00e1ria. Talvez por isso, nunca reparara que cont\u00e9m tal quantidade de poemas not\u00e1veis. Ao colaborar nesta tradu\u00e7\u00e3o, na passagem de uma l\u00edngua a outra, na dif\u00edcil e sempre exaltante comunica\u00e7\u00e3o oral, era como se as imagens renascessem, com a frescura da origem.<\/p>\n<p class=\"p1\">Sem d\u00favida gra\u00e7as \u00e0 sensibilidade de poeta e de pintora, e aos conhecimentos da cultura Chinesa de Fernanda Dias, esta tradu\u00e7\u00e3o p\u00f4de trazer para a L\u00edngua Portuguesa as paisagens po\u00e9ticas em todo o seu colorido e delicadeza pict\u00f3rica. Cada palavra escolhida no acorde do verso, como o eco da imagem.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Uma das raz\u00f5es pela qual a poesia chinesa tem um lugar de realce na literatura mundial, \u00e9 o facto de ser t\u00e3o eficazmente pictural.<\/p>\n<p class=\"p1\">Disse Wang Wei: \u201cEncontramos pinturas nos poemas, e nos poemas, encontramos pinturas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">Assim, este livro \u00e9 uma obra po\u00e9tica, mais art\u00edstica que documental, por isso mais conforme aos sentimentos dos poetas, que ao contexto hist\u00f3rico desse extraordin\u00e1rio relato que \u00e9 <i>Aomen Jilue<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\"><b>Stella Lee Shuk Yee<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h3><\/h3>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Os Portugueses<\/i><\/b><b><i><\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Seus barcos deslizam sobre o mar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>seus remos ind\u00f3mitos lembram centopeias<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Quando os not\u00e1veis v\u00eam de longe ao templo <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>ostentam o b\u00e1culo vermelho das confrarias<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Entregam o selo em frente do Buda<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E logo se retiram.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Que aug\u00farios imploram \u00e0 monja mendicante<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ao escolher o dia fasto para os seus casamentos?<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>You Tong<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Mans\u00e3o numa manh\u00e3 de Primavera<\/i><\/b><b><i><\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i> Que lugar ser\u00e1 mais deleitoso<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Que esta mans\u00e3o de talha rendilhada<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ao romper da aurora?<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Das janelas inundadas de claridade<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>V\u00ea-se subir o astro luminoso, sobre o mar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E a rumorejante ramaria, de onde as aves <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Se evolam em bandos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As portas ainda fechadas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Est\u00e3o pintadas de verde e ouro<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nas encrespadas encostas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>N\u00e3o desabrocharam ainda as flores<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os g\u00e9nios da manh\u00e3, estremunhados<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ainda n\u00e3o olharam para o mar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Pelas ruas da cidade deambulam j\u00e1<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Inquietantes divindades&#8230;.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>Yin Guang-ren<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<h3><\/h3>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Chegando a Macau<\/i><\/b><b><i><\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Ao Monte Maior de Afiar-a-Espada<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Liga-se Monte Menor de Afiar-a-Espada<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Longas praias, brando Outono, velas leves<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>At\u00e9 onde chegam meus olhos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Temo pelos p\u00e1ssaros, voando em queda livre<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O pescador com sua rede, frente \u00e0 choupana<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Espera em p\u00e9 sobre as ondas, de cora\u00e7\u00e3o firme<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O claro sol ilumina o Templo de S. Paulo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E a Ilha da Montanha Milenar <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ainda cintilante de orvalho branco <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>De sete em sete dias, os b\u00e1rbaros prestam culto<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As damas estrangeiras enchem as ruas <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Com suas mantilhas e brocados<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>\u00c0 sombra da verde ramaria<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Combatem galos de espor\u00f5es de oiro<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Chineses e b\u00e1rbaros, em grupos separados<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ombro a ombro encostados<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ganham ou perdem, cena banal<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os velhos enfeiti\u00e7ados patenteiam<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Em cobi\u00e7a tenaz a sua vil paix\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>Wang Houlai<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p2\"><b><i>Mar da Solid\u00e3o<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><i>Ilha das Nove Estrelas! Cumes da Ba\u00eda Oriental!\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Qu\u00e3o breve \u00e9 o instante de v\u00ea-las, as montanhas!<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\"><i>Mal levant\u00e1ramos o olhar, j\u00e1 t\u00ednhamos passado por elas<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Escudos esparsos, mil lan\u00e7as erguidas<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Pelos quatro lados dos c\u00e9us rodeadasde astros<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\"><i>Montes e rios desfeitos&#8230;\u00e1guas que arrastam destro\u00e7os<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Assim no mundo, o nosso corpo flutua ou submerge<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Como lentilha aqu\u00e1tica soprada pelo vento<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Ao chegar aos Recifes do Alarme, gritamos: <\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>\u2014 Alarme! Abrolhos!<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Ao passar o Mar da Solid\u00e3o, suspiramos:<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>\u2014Aqui vamos solit\u00e1rios!<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Que homem houve, desde as origens<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Que tendo nascido, n\u00e3o devesse morrer?<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Quer desprezemos quer para sempre guardemos<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>A sinceridade no nosso cora\u00e7\u00e3o, somos mortais<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>que poder\u00e1 brilhar mais que o nosso suor?<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>Wen Tianxiang<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>As flores do p\u00e1tio<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Na luz matinal pendem das janelas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Flores singelas, iguais \u00e0s de todo o lado<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os olhos e o olfato, subtis, perscutam a vastid\u00e3o<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Belos e vibrantes, o di\u00e1fano cristal e ojade polido<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Exaltam a cor dourada das castanhas de \u00e1gua<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Entrela\u00e7adas nas grades, curvam-se as flores <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Oferecendo o colo fragante, ao cair da noite<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ao beijo do orvalho<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Contra o azul do firmamento <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O precip\u00edcio envelhece<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O vento agreste leva at\u00e9 l\u00e1 o aroma intenso.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b> Zhang Rulin<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Luar na Praia Grande<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Nasce a lua, o arco da ba\u00eda revela dois espelhos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Limpidamente iluminados: o c\u00e9u e o mar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As ilhas como que temem o acumular da neve<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>No dorso de um drag\u00e3o coleiam ondas <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Emergem bolhas, n\u00e1car, p\u00e9rolas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nas colinas erguem-se os pavilh\u00f5es<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>\u00c9 a cidade aspirando a tocar a Via L\u00e1ctea<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As estrelas, baixas, espelham-se nas \u00e1guas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Anseiam navegar, tal como os barcos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Fina poeira que esvoa\u00e7a sem atingir os astros<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Que g\u00e9nio habita, misterioso e fasto<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O pal\u00e1cio lunar de jade branco? <\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>Yin Guang-ren<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Macau<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>N\u00e3o h\u00e1 muito que o L\u00f3tus se eleva na terra<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Onde vivem lado a lado chineses e b\u00e1rbaros<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os mercadores chineses, homens do Sul<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os rios, as montanhas, os Cinco Picos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Tudo pertenceao mesmo sistema<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Todos os pa\u00edzes enviaram para aqui livros<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Em barcos, seguindo as glaucas ondas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Esbatidos no extremo do firmamento<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Na cidade long\u00ednqua o c\u00e9u consentiu um perigo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Pois o remoto e pr\u00f3ximo poder tudo devoram<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>o templo de S. Paulo preciosos tesouros guarda <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Corre a \u00e1gua por entre as ilhas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nos canais em cruz da Letra Dez<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As mulheres b\u00e1rbaras governam bem as casas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O virtuoso Bispo \u00e9 respeitado<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os homens s\u00e1bios, por\u00e9m, engendram planos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A Passagem do Tigre constrange-te a garganta <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A Fortaleza do Monte Anterior pesa-te no dorso<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E por tudo isto, oh Porta da Ba\u00eda<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A chave do cadeado ainda aqui se encontra.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b> Li Zhuguang<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Macau Actual<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Aqui, onde mais frequentemente<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Atracam os barcos de Cant\u00e3o, no porto<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Onde os estrangeiros provocam escaramu\u00e7as<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E os portugueses escondem tropas e armamentos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Pesarosos, os guerreiros nossos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>V\u00eaem a efic\u00e1cia das armas b\u00e1rbaras<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Dem\u00f3nios famintos planando no espa\u00e7o<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Aguardam o momento de devorar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ensinem-lhes a amizade, nada haver\u00e1 que temer <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A Fortaleza do Monte Anterior vai de novo prosperar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Dentro dos semic\u00edrculos, o do Norte e o do Sul<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Vivem os estrangeiros, em casas com andares<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As damas europeias, passeiam com rosas na m\u00e3o<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Bolsinhas com dinheiro, usam punhais<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>E os chineses coroados de jasmins<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Queimam incensos dedicados ao Senhor!<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A muralha que ergueram parece poderosa<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Por toda a prov\u00edncia de Guangdong <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Alastram ainda outras tristezas&#8230;<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Da Montanha Odorante at\u00e9 ao Istmo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Longa \u00e9 a via da Haste do L\u00f3tus!<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Sobem as \u00e1guas, partem os barcos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Com vento favor\u00e1vel lan\u00e7am-se ao oceano<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os olhos dos peixes s\u00e3o como as rodas do carro do sol<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O corpo da enguia tem dez l\u00e9guas de comprimento<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O Senhor dos B\u00e1rbaros isolou-se no interior da ilha<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Faz-se o com\u00e9rcio em Xiang Shan, sede do distrito<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O culto presta-se no templo de S. Paulo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A autoridade \u00e9 o Bispo, Pr\u00edncipe das Leis<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As crian\u00e7as, diabinhos vistosos, usam cores garridas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>As damas dos b\u00e1rbaros, ostentam preciosos cabelos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Sem ganchos nem ornamentos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O papagaio, pr\u00f3spero, cogita&#8230;<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ilhas como dorsos de baleia cintilam na luz nocturna <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\"><i>Por bom dinheiro compram-se lindos alci\u00f5es em gaiolas<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\"><i>De tectos airosos, por vezes redondos, por vezes quadrados<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nas montanhas, baluartes, pe\u00e7as de artilharia<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nas praias e nas fronteiras, altas muralhas p\u00e9treas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\"><i>Um dia a cidade foi ocupada por mercadores estrangeiros<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>H\u00e1 mil anos a China teria resistido<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nos dias de hoje s\u00e3o fracos os estrategas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i> Grande o pa\u00eds dos Cabelos-Vermelhos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Num vaiv\u00e9m, as velas enfunam-se altivamente<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Como montanhas galgam as ondas do mar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Na Quinta-lua, fustigados pelos ventos <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os barcos aguardam nos portos a hora de zarpar<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\"><i>Largadas as amarras, afundam-se a carne e o arroz ritual<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Usam o telesc\u00f3pio para rumar o navio<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Servem-se da b\u00fassola para definir a rota<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Choram os dem\u00f3nios, s\u00e3o medonhos os Tr\u00eas Escolhos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Quando largam a voar os peixes voadores <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Fica o mar assombrado dez l\u00e9guas ao redor<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Ao cair da noite, nos mastros escuros e salgados<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O fogo de San\u2019Telmo, brilha ef\u00e9mero e f\u00e1tuo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Como flores de um dia no fato de um letrado.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b> Shi Jinzhong<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>O Farol da Guia<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Da colina da Guia, at\u00e9 ao extremo do horizonte<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Mil \u00e1rvores, profusamente iluminadas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A claridade inunda o mar, arranca-lhe fa\u00edscas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O c\u00e9u num clar\u00e3o, as nuvens a uma banda<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>A Ponte das Gralhas oculta na penumbra<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Raios obl\u00edquos do poente que a Via L\u00e1ctea anula <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Regressam as velas de mil l\u00e9guas, longe<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Sob o farol o ar cintila e ondula, beleza p\u00farpura. <\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b> Yin Guang-ren<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Da fortaleza da Guia<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>O c\u00e9u n\u00e3o voga \u00e0 flor das \u00e1guas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O sol apossa-se do espa\u00e7o<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O ancoradouro fica ao largo de S. Paulo<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>No canal da Taipa, porta das mar\u00e9s <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os peixes voam, sulcando o fogo do poente<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>O arco-\u00edris rompe a barreira das nuvens<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Chegam mercadorias do Ocidente e do Oriente<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Os veleiros singraram dez mil milhas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Trazidos pelos ventos.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b> Shi Jinzhong <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b><i>Contemplando o mar<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>A leste da Porta do Tigre, na imensid\u00e3o sombria<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\"><i>As \u00e1guas fundem-se nas nuvens de branco jaspe<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Emana\u00e7\u00f5es do mar!<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>No Ver\u00e3o multiplicam-se as miragens<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Nas noites m\u00e1gicas canta o galo celestial<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Arde o sal. O lavrador repousa<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Espalham-se as sementes pelas v\u00e1rzeas<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Em dez l\u00e9guas, ondular\u00e1 o verde pelos charcos<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Mesmo eu aspiro a ser cultivador.<\/i><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: right;\"><b>Shi Jinzhong<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3 class=\"p2\"><b><i>Mong H\u00e1 na luz do poente<\/i><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><i>A Colina do L\u00f3tus, ao cair da tarde<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Reflecte o fulgor das esparsas nuvens rubras\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Ilus\u00e3o dos pavilh\u00f5es, t\u00e3o pr\u00f3ximos de mim<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>A n\u00e9voa avan\u00e7a das Portas do Cerco<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Alastra na espessura do bosque em flor<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>A inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 um dom do c\u00e9u<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>O fogo crepuscular arde em perfeita beleza<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Obra e Criador s\u00e3o uma e a mesma coisa<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>Yin Guang-ren<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Tradu\u00e7\u00e3o Fernanda Dias &nbsp; Aomen Jilue (Uma Monografia de Macau) \u00e9 um relat\u00f3rio sobre Macau, escrito por dois delegados do Imperador, Yin Guan-ren e Zhang Yulin (primeira edi\u00e7\u00e3o 1751). Os poemas inclusos tinham a dupla fun\u00e7\u00e3o de testemunho dos relatos e embelezamento do texto. Esta monografia viria a ser selecionada para fazer parte da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":979,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-978","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poesia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/21-Cheng-Pow-1818.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=978"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":981,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions\/981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}