{"id":982,"date":"2025-10-19T23:36:59","date_gmt":"2025-10-19T15:36:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=982"},"modified":"2025-10-19T23:36:59","modified_gmt":"2025-10-19T15:36:59","slug":"yao-feng-quando-um-vento-sopra-a-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/19\/yao-feng-quando-um-vento-sopra-a-poesia\/","title":{"rendered":"Yao Feng &#8211; Quando um vento sopra a poesia&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Ha\u0301 livros<\/span> que da\u0303o nas vistas por muitas razo\u0303es, boas e ma\u0301s. E\u0301 gratificante falar deste livro &#8211; <i>Palavras cansadas da Grama\u0301tica<\/i> porque todas as razo\u0303es que encontrei sa\u0303o boas razo\u0303es para falar dele. Nesta breve apresentac\u0327a\u0303o referirei apenas 3 das que me levam a considera\u0301-lo um livro u\u0301nico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p3\"><b>1. Um livro de vozes e presenc\u0327as <\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">Este livro convoca va\u0301rios autores, ale\u0301m do autor dos poemas, que nele se tornam presenc\u0327as, testemunhos de outros discursos ale\u0301m da poesia, portanto, cu\u0301mplices dela. Tem ini\u0301cio com um prefa\u0301cio de Fernando Pinto do Amaral, poeta, ensai\u0301sta, professor e intelectual portugue\u0302s, conclui-se com um ensaio acade\u0301mico de Egi\u0301dia Souto, uma entrevista de Yao Feng a Raquel Abi-Sa\u0302mara, tradutora, ensai\u0301sta e professora da Universidade de Macau e um posfa\u0301cio, espe\u0301cie de testemunho, de Carlos Morais Jose\u0301, jornalista, ensai\u0301sta e poeta. No meio, entre as pa\u0301ginas 13 e 133, os novos poemas de Yao Feng em li\u0301ngua portuguesa que no meio convocam mais outra voz, a de Fernanda Dias, poeta e tradutora bem conhecida, e as fotos interpelando o leitor e o poema. Nos testemunhos da capa, ainda a presenc\u0327a de Nuno Ju\u0301dice.<\/p>\n<p class=\"p4\">A descric\u0327a\u0303o minuciosa do livro, enquanto arquitectura e resultado de uma construc\u0327a\u0303o, na\u0303o e\u0301 aqui tique de discurso acade\u0301mico viciado em detalhe, e\u0301 apresentac\u0327a\u0303o do que me parece ser o poema na sua dimensa\u0303o maior, a vocac\u0327a\u0303o da presenc\u0327a, a reunia\u0303o do diverso, a converge\u0302ncia da voz, o apelo ao mu\u0301ltiplo. Este livro na\u0303o e\u0301 tanto reconhecimento como cumplicidade, testemunho da maneira diversa do fazer, em literatura. A poesia e\u0301 a \u2018paisagem do ser\u2019 (expressa\u0303o de Egi\u0301dia Souto) de que espontaneamente brota o dizer de Yao Feng, &#8220;um vento que sopra do leste (&#8230;) surpreendentemente pro\u0301ximo de uma construc\u0327a\u0303o este\u0301tica da vida&#8221; como prefere dizer Carlos M. Jose\u0301. Na voz exacta, rigorosamente pla\u0301stica e surpreendentemente paradoxal de Yao Feng, cito :<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>A\u0300 terra dou o que pertence a\u0300 terra<br \/>\n<\/i><i>Abrindo um buraco no jardim <\/i>(121);<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s2\">O livro de poemas e\u0301, portanto, apresentado como o evento que a poesia e\u0301, de raiz, pois nela cruzam-se, evocam-se, celebram-se as vozes cerimoniais nos rituais maiores de que a literatura vive: poeta, hermeneuta, cr\u00edtico, celebrante. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">O livro de Yao Feng encena um Banquete (no sentido antigo da cerimo\u0301nia inicia\u0301tica), revive e amplia o convi\u0301vio, ritualiza a palavra, celebra o encontro. A poesia e\u0301 isso mesmo, encontro. A festa do encontro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p3\"><b>2. Um livro em portugue\u0302s <\/b><b>\u2013 uma grama\u0301tica pessoal<\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">Este livro e\u0301 em portugue\u0302s embora o poeta seja chine\u0302s porque \u2018a poesia na\u0303o tem fronteiras\u2019 (Fernando Pinto do Amaral), e tambe\u0301m porque ha\u0301 \u2018cumplicidade na tribo de poetas\u2019 (diz Yao Feng, nos agradecimentos)- acrescento eu: porque a poesia e\u0301 neste caso ainda uma atitude, uma forma de fazer ver, de apontar, de invocar outra voz. Uma forma de ser e estar tambe\u0301m (\u2018cansados da grama\u0301tica\u2019 e\u0301 desde logo reflexa\u0303o e reflexo do ensino da li\u0301ngua pelo poeta e tradutor \/ professor, a diferenc\u0327a entre ser e estar, por exemplo, ta\u0303o diferentes e ta\u0303o coesos, em portugue\u0302s), uma forma de dizer semelhante a fazer.<\/p>\n<p class=\"p4\">A grama\u0301tica desta poesia em portugue\u0302s e\u0301 pessoal e dupla:<\/p>\n<p class=\"p4\">1) vive da concentrac\u0327a\u0303o verbal e do tom elegi\u0301aco, conduzindo ao dito inesperado que subitamente abre um alc\u0327apa\u0303o a\u0300 frente dos nossos pe\u0301s e convida a\u0300 vertigem, ao arrepio. Na produc\u0327a\u0303o desse efeito o verso e\u0301 exacto, cortante e iluminan- te, porque se despe de todo o adorno e desnuda totalmente a ideia central, uma ferida exposta.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\"><i>ja\u0301 na\u0303o choro por ningue\u0301m,<br \/>\n<\/i><i>por nada choro quando me lavo<br \/>\n<\/i><i>interiormente<\/i> (54)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p5\">outro exemplo:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\"><i>ora, deixa de me amar assim<br \/>\n<\/i><i>deixa de meter o mar na jaula<\/i> (49)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\">2) noutros casos a grama\u0301tica e\u0301 narrativa, tecida em torno de i\u0301cones transculturais que como propiciato\u0301rias tempestades aterram em culturas-outras: Marilyn na China em 1974, Van Gogh no museu de Amsterdam face ao poeta chine\u0302s, ou o apoli\u0301neo David em Flo- renc\u0327a, Pushkin e a amante, os Champs Elyse\u0301es e Tiananmen, tessituras de fa\u0301bulas antigas com lobos e ovelhas. Nestes poemas, o efeito colhe-se do final inesperado, \u2018sintacticamente\u2019 destoante e deslocado.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\"><i>Nunca gostei de cafe\u0301 starbucks<br \/>\n<\/i><i>mas neste momento,<br \/>\n<\/i><i>a escolha do Museu do Pala\u0301cio Imperial<br \/>\n<\/i><i>e\u0301 a minha escolha. (&#8230;)<br \/>\n<\/i><i>Neste Pala\u0301cio, na Porta Meridiana<br \/>\n<\/i><i>onde um infinito nu\u0301mero de cabec\u0327as foram<br \/>\n<\/i><i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/i>[<i>ceifadas<br \/>\n<\/i><i>quero saborear o meu cafe\u0301 tranquilamente<br \/>\n<\/i><i><\/i><i>num trago noto que esqueci o ac\u0327u\u0301car<\/i>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\">3) O acto de Ver e\u0301 em Yao Feng muito pro\u0301ximo do dizer, a sua poesia e\u0301 exacta e pla\u0301stica, transmite sensac\u0327o\u0303es ni\u0301tidas, pequenos choques e estremecimentos, uma poesia de efeito literalmente ero\u0301tico no apelo aos sentidos e a\u0300s reacc\u0327o\u0303es do corpo; por isso a fotografia e\u0301 uma aliada da palavra.<\/p>\n<p class=\"p4\">Ha\u0301 neste universo uma clara apolo- gia da transdiscursividade que em imagens enuncia os teoremas da sua poe\u0301tica verbal. Numa foto, algue\u0301m em frente de no\u0301s fotografa um grupo de costas, sentado num banco de jardim, pre\u0301dios de Macau cosmopolita, esfumados, ao fundo(104). Ao lado o poema divaga:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Volta a luz a\u0300 la\u0302mpada<br \/>\n<\/i><i>e de su\u0301bito esta\u0301 de novo escuro<br \/>\n<\/i><i>quem prende la\u0301 fora a falena-da-noite<br \/>\n<\/i><i>e a ensina a aceitar a obscuridade? <\/i>(105)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\">Essa pode ser a imagem\/ a narrativa &#8211; do leitor diante do livro, deste livro. Tentando ler, sente-se captado pela ca\u0302- mara escura do livro, pelo seu atento olho aberto, sona\u0302mbulo, logo depois revelado e exposto. Este e\u0301 um livro que nos le\u0302 a\u0300 medida que nos aproximamos dele e o lemos. Por isso e\u0301 nosso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p3\"><b>3. Um belo livro <\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">Do ponto de vista gra\u0301fico e\u0301 um livro raro e u\u0301nico. A capa chama as ma\u0303os, a sombra que na parte superior se insinua tem um vago recorte da sombra de dedos, a cor imita uma tela rugosa, fresca de tinta; a forma e\u0301 inesperadamente quadrada, parece buscar o bolso, o saco, a mochila. Na\u0303o se acolhe a\u0300 estante.<\/p>\n<p class=\"p4\">A mancha gra\u0301fica sobre papel de cor antiga desdobra-se entre o verso e a fotografia; nas fotos, frequentemente, algue\u0301m e\u0301 surpreendido a olhar, duplicando o nosso gesto de ler, o nosso olhar, talvez \u2018em busca da luz\u2019, como titula um poema. Num livro de poemas a beleza do livro e\u0301 igualmente um gesto de poesia, chamemos-lhe uma u\u0301ltima rima.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: right;\"><strong>PALAVRAS CANSADAS DA GRAMA\u0301TICA \u2013 POESIA E FOTOGRAFIA, de Yao Feng<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Ha\u0301 livros que da\u0303o nas vistas por muitas razo\u0303es, boas e ma\u0301s. E\u0301 gratificante falar deste livro &#8211; Palavras cansadas da Grama\u0301tica porque todas as razo\u0303es que encontrei sa\u0303o boas razo\u0303es para falar dele. Nesta breve apresentac\u0327a\u0303o referirei apenas 3 das que me levam a considera\u0301-lo um livro u\u0301nico. &nbsp; 1. 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