{"id":985,"date":"2025-10-19T23:38:41","date_gmt":"2025-10-19T15:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=985"},"modified":"2025-10-19T23:39:04","modified_gmt":"2025-10-19T15:39:04","slug":"zhu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/19\/zhu\/","title":{"rendered":"Zhu"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A<\/span><span class=\"s2\">s v\u00e1rias<\/span><span class=\"s1\"> partidas do mundo, os lugares, as cidades, as paisagens, unicamente reivindicam espa\u00e7o na nossa mem\u00f3ria quando algum tra\u00e7o particular as distingue. A esses espa\u00e7os fica associada uma emo\u00e7\u00e3o, logo ali sentida ou mais tarde emergente, que a mente, \u00e1vida de ac\u00e7\u00e3o, guarda com deleite. Certos s\u00edtios s\u00e3o lembrados pela sua beleza, outros pela extravag\u00e2ncia; mas a montanha do Salgueiro e a sua particular fauna conseguem ultrapassar estas categorias e intrometer-se no mundo dos homens de forma relevante e inesperada.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 que por ali existe uma ave, com a forma aproximada de uma grande coruja, cuja apari\u00e7\u00e3o \u00e9 suposto anunciar altera\u00e7\u00f5es importantes na hierarquia pol\u00edtica de toda uma regi\u00e3o. Chamam-lhe <i>zhu<\/i> e, provavelmente, ostenta uma penugem rubra escura, da cor do vinho feito de uva. Sendo uma ave, dotada da capacidade de voar, surge do nada ao crep\u00fasculo, encontra o seu recanto num ramo onde se agarra com firmes dedos \u2014 pois a <i>zhu<\/i> n\u00e3o possui patas de p\u00e1ssaro, mas m\u00e3os humanas, que lhe saem de baixo do seu volumoso corpo \u2014 e dali os seus olhos penetrantes fixam o mundo como se o quisessem hipnotizar. De quando em vez, emite um som que lembra o seu nome: \u201cZhuuu&#8230;\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o \u00e9 bom sinal, garantem, avistar esta ave. Alguns mestres dizem ser um press\u00e1gio de \u00edndole t\u00e3o ruim como ver um cometa atravessar os c\u00e9us ou encontrar uma baleia morta a flutuar entre as ondas. Reza a tradi\u00e7\u00e3o que, quando uma destas aves aparece, tal quer dizer que o rei vai destituir, exilar ou matar grande parte dos seus oficiais superiores. \u00c9 ent\u00e3o f\u00e1cil de prever a confus\u00e3o gerada pelo rumor do avistamento de uma <i>zhu<\/i>; e imaginar os esp\u00edritos em desordem, a tessitura de conspira\u00e7\u00f5es, a emerg\u00eancia de terrores, a catadupa de planos e, ami\u00fade, levianas mas tr\u00e1gicas decis\u00f5es. Invocar a <i>zhu<\/i> \u00e9 garantir o conflito e a desarmonia.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O poeta Tao Yuanming refor\u00e7a a cren\u00e7a no mau agouro desta ave. Em breves linhas, ir\u00f3nico, sugere por ali ter andado uma <i>zhu<\/i>, quando o rei Huai de Chu baniu o famoso Qu Yuan, um importante oficial e tr\u00e1gico poeta. N\u00e3o se pense, contudo, ter advindo de suas poesias a m\u00e1 sorte que lhe selou o destino ou que podemos dar como garantida a apari\u00e7\u00e3o de uma <i>zhu<\/i> naquele final do s\u00e9culo IV a.E.C.. Arrebatado pelo desgosto de assistir ao espect\u00e1culo degradante de uma governa\u00e7\u00e3o, maculada de pr\u00e1ticas corruptas e inoperante pelo desleixo da realeza, Qu Yuan cometeu suic\u00eddio, atirando-se \u00e0s \u00e1guas barrentas de um rio. Este seu acto tornou-o num her\u00f3i, num santo, numa data, todos os anos comemorada pelo povo. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Compreende-se o temor que a <i>zhu<\/i> inspira. A sua presen\u00e7a \u00e9 disruptiva, n\u00e3o da ordem individual, ou seja, da vida de cada um, eventualmente da vida do sujeito que a avistou, mas de toda uma ordem social. N\u00e3o \u00e9 incomum, por exemplo, a vis\u00e3o de uma <i>zhu<\/i> acender o rastilho de guerras civis ou, no m\u00ednimo, criar um per\u00edodo de incerteza entre os mais qualificados oficiais. Aristocratas, generais, comerciantes milion\u00e1rios, todos eles sentem vacilar o seu poder e, por isto, pela apari\u00e7\u00e3o de uma simples ave, quantas vezes n\u00e3o s\u00e3o estragadas fam\u00edlias, queimadas colheitas, arrasadas aldeias, sacrificadas raparigas e destru\u00edda toda uma gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Texto e ilustra\u00e7\u00e3o inspirados pelo <\/b><b><i>Cl\u00e1ssico das Montanhas e dos Mares<\/i><\/b><b> (<\/b><b><i>Shanhai Jing<\/i><\/b><b>), legendariamente atribu\u00eddo a Yu, primeiro imperador da dinastia Xia, e a um letrado chamado Boyi, o que remeteria a origem da obra para o segundo mil\u00e9nio a.E.C.\u00a0<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Ana Jacinto Nunes<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] As v\u00e1rias partidas do mundo, os lugares, as cidades, as paisagens, unicamente reivindicam espa\u00e7o na nossa mem\u00f3ria quando algum tra\u00e7o particular as distingue. 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